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A indisciplina a partir de Hannah Arendt

Educar é introduzir os mais novos no mundo público que ainda não conhecem

Publicado em 10/08/2012

por Vanessa Sievers de Almeida*

A indisciplina de alunos sempre existiu, mas o tema tem ganhado cada vez mais espaço nas reflexões sobre educação. Para muitos, a situação chega a prejudicar seriamente o ensino. A impressão é de que se está diante de dois desafios distintos: o de estabelecer a disciplina entre os alunos e o de ensinar. Perde-se de vista que, na escola, a disciplina está intrinsecamente relacionada aos objetivos do ensino e da formação.


Segundo a filósofa Hannah Arendt, educar é introduzir os mais novos no mundo público que ainda não conhecem. É tarefa dos mais velhos, que já participaram do percurso desse mundo e que são responsáveis por ele, apresentar esse lugar aos mais novos. Do ponto de vista do aluno, apropriar-se do que é comum é perceber-se parte de algo que não somente é mais amplo, mas que possui também um sentido que extrapola os propósitos individuais de cada um. Em resumo: o desafio maior da escola é mostrar aos alunos o mundo público e suas tradições, isto é, seus saberes e suas práticas, suas linguagens e suas compreensões. Assim, espera-se que os mais novos façam desse mundo seu mundo e estejam dispostos a assumir responsabilidade por ele.


A partir dessa compreensão de educação, podemos afirmar que participar em algo comum exige disciplina, tema que Arendt não abordou. É necessário aprender onde e quando minha vontade individual pode estar em primeiro plano, e em que momentos e lugares é preciso renunciar a meus desejos meramente individuais. Essa renúncia visa, contudo, a algo maior: a apropriação de um mundo compartilhado e a participação numa herança viva a ser ressignificada e transformada  por seus herdeiros.








Reprodução
A filósofa Hannah Arendt: é tarefa dos mais velhos apresentar o mundo público aos mais novos
A tarefa educativa, entretanto, fica esvaziada quando o próprio mundo público deixa de fazer sentido. Se os mais velhos não se consideram mais participantes de um mundo compartilhado e responsáveis por ele, se cada um cuida apenas de sua sobrevivência, e se somente o fato de sermos todos consumidores nos une, o comum se desmantela. Perdemos, assim, aquilo que vai além dos interesses privados e em nome de que a disciplina é necessária. Impor limites aos interesses dos particulares para que não inviabilizem os dos outros é o que se entende por disciplina num mundo que é, em si mesmo, indisciplinado por não ter mais nenhum objeto nem objetivos comuns. Temos o reflexo disso na escola, onde disciplina tornou-se sinônimo de impor limites, mas onde falta em nome de quê abrir mão das vontades individuais possa fazer sentido.


*Vanessa Sievers de Almeida é teóloga, pedagoga e doutora em educação pela USP. Professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), também é autora de Educação em Hannah Arendt (Cortez) vanessa.sievers@terra.com.br

Autor

Vanessa Sievers de Almeida*


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