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É brincando que a gente aprende

José Paulo Paes monta e remonta palavras reajustando sons e letras; da surpresa dos novos arranjos, nasce o convite ao sensível e à inteligência

Neste ano de 2008, completaram-se dez anos de falecimento de um dos melhores poetas brasileiros, José Paulo Paes (1926-1998), cujo trabalho de tradutor e ensaísta foi também de altíssima qualidade.

Seu primeiro livro de poemas (1947) chamava-se O aluno, pois aprendiz aquele jovem de 21 anos se sentia, particularmente de Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, Manuel Bandeira e Rimbaud. Mas em pouco tempo tornou-se ele próprio mestre de sua geração. À medida que foi se aprimorando, conquistou um estilo em que a brincadeira verbal tornou-se sua "arma" preferida para abordar questões existenciais e políticas, não raro em diálogo com versos e idéias clássicas.

A dúvida hamletiana, desmontada, reduz-se à masturbação mental de um monólogo sem fim:



Anatomia do monólogo




ser ou não ser?
er ou não er?
r ou não r?
ou não?
onã?
(Anatomias, 1967)

José Paulo Paes nos ensina a ler nas entrelinhas e entreletras. A perceber que as palavras podem ser montadas e remontadas, de modo que sons e letras, significados e sentidos, ajustados de modos novos, produzem surpresas. E a surpresa desencadeia nossa sensibilidade e nossa inteligência.

O poema O suicida ou Descartes às avessas, do mesmo livro Anatomias, alude ao fracasso do racionalismo. A lógica não dá conta de todos os matizes da realidade, e aquele que acreditava cegamente no cogito termina por trocar o verbo sum pela onomatopéia do tiro de revólver (embora não possamos evitar outra leitura, menos dramática, em que o peido é outro tipo de explosão):

cogito
                               ergo

pum!



Criticar é preciso



O amor à liberdade poética torna-nos mais sensíveis ao valor das liberdades civis. José Paulo Paes expressou sua crítica à ditadura militar brasileira com o poder subversivo da brincadeira. Uma crítica inventiva, protesto contundente, como no poema
Seu metaléxico:




economiopia
desenvolvimentir
utopiada
consumidoidos
patriotários
suicidadãos
(Meia palavra, 1973)

A miopia, a mentira, a piada, a doideira, a ingenuidade e o suicídio estão embutidos nas palavras "nobres" – economia, desenvolvimento, utopia, consumidores, patriotas, cidadãos -, empregadas de modo abusivo pelo discurso dominante para esconder a realidade. O jogo poético desmascara a brincadeira de mau gosto e vai além (daí a presença do prefixo grego méta, no sentido de "mudança de condição"). Metade da palavra nós aceitamos engolir, contanto que a outra metade seja a resposta que nos restitua a dignidade. O poeta cunha palavras novas para nos fazer entender que houve uma alteração semântica. E, como sempre, os poemas certeiros transcendem sua época, e serão não menos incisivos dentro de novos contextos. Também agora, três décadas depois, mas por outros motivos, nos sentimos consumidoidos, possuídos pela mentira do crédito fácil.

O poeta está atento à linguagem. Aprendamos com ele. O pior analfabetismo é aquele que nos torna vulneráveis às manipulações de quem tomou a palavra para si. O que o poeta faz é retomá-la, ensinando-nos a ler melhor, a pensar melhor, como no poema
Lapsus linguae do candidato:

sou homem de ação
não de palavra
(Resíduo, 1980)


Poeta perplexo


O poeta, homem da palavra, se sente perplexo, dá-se conta de que os sonhos não se realizaram. Sua perplexidade põe em xeque tantas certezas, como aquelas comemorações do calendário, comemorações rotineiras, acríticas, perpetuadas pela escola e pela mídia. O dia 15 de novembro, para José Paulo Paes, serviu de ocasião para comemorar menos e desiludir-se mais. E a desilusão é uma bela lição!



A marcha das utopias





não era esta a independência que eu sonhava
não era esta a república que eu sonhava
não era este o socialismo que eu sonhava
não era este o apocalipse que eu sonhava
(Calendário perplexo, 1983)

Perplexo com as datas e com outras realidades, o poeta fará um elogio aberto aos loucos de sua infância, muito mais próximos do mundo das crianças do que os professores. Os loucos conhecem "coisas que os professores do grupo e do ginásio não nos poderiam ensinar, mesmo porque, desconfio, nada sabiam delas" (Prosas seguidas de odes mínimas, 1992). Nada sabiam de magia, de sonho e imaginação.

A lógica do louco transcende a lógica do tolo. A educação para a sabedoria, que é a autêntica educação (o resto é pedagogice…), fomenta a desconfiança de que certas ilogicidades fazem sentido. Ou melhor, fomenta a investigação, a abertura para o desconhecido.



Sképsis





"Dois e dois são três" disse o louco.
"Não são não!" berrou o tolo.
"Talvez sejam" resmungou o sábio.
(Socráticas, 2001)

A palavra grega sképsis remete à idéia de procura da verdade. O poeta é cético porque acredita que nem sempre dois e dois são quatro. O berro do tolo contra o erro é contestado pelo resmungo do sábio. O sábio aprendeu que nem tudo é óbvio e linear. A palavra "talvez" reabre caminhos. A perplexidade não se torna dúvida masturbatória (ser ou não ser angustiante e estéril), se transformamos a dúvida em jogo, em possibilidade.

Talvez dois e dois sejam três, por que não? O louco não disse 2 + 2 = 3. O sábio adivinhou que talvez o louco esteja coberto de razão… Talvez, diante dos berros reprovadores (assustados!) que nos impedem de ouvir a voz da imaginação e da própria razão… talvez devamos refazer… ou desfazer as contas.

Talvez precisemos lembrar que perdas e ganhos de todos os tipos podem acontecer na imprevisível matemática da vida.


* Gabriel Perissé

é doutor em filosofia educação (USP) e professor do Programa de Mestrado da Universidade Nove de Julho (SP)

www.perisse.com.br