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A arte de aumentar um ponto

A linha divisória entre verdade e ficção é demasiado tênue

Após uma breve passagem pelas salas de cinema em 2007, Pro dia nascer feliz, agora lançado em DVD, tem tudo para se tornar presença cativa nas reuniões pedagógicas de norte a sul do país, tanto mais nas salas de aula dos cursos de formação de professores. 

Assistiremos atentos e, depois, penalizados à saga dos depoentes: a garota sertaneja, amante de poesia e abandonada ao deus-dará; sua colega abastada, estressada pela pressão dos vestibulares; o rapaz suburbano, protótipo do malandro carioca, fazendo o que lhe resta: batucar; professoras fustigadas por alunos "desinteressados ou violentos", ambos testemunhas oculares da mais bem conhecida e renitente tragédia nacional. 

Sem rodeios, os depoentes de Pro dia nascer feliz expõem, cada qual a seu modo, seu diagnóstico da educação brasileira exatamente onde o calo lhes aperta.  Para o aluno da periferia paulistana, "desde a quinta série, todo mundo aprende na matéria de inglês verbo to be. E hoje em dia, chega no terceiro [colegial], o professor pergunta pra minha sala o que é verbo to be, e ninguém sabe o que é verbo to be". Na outra ponta do processo, pondera sua professora: "Eu acho que o professor tá bem preparado. O professor não tá preparado pra esse tipo de aluno. De ser agredido, de ser violentado, de ser desrespeitado diariamente. (…) E ele sai desgostoso, ele sai desanimado, ele se desmotiva".

Assim, o documentário de João Jardim angaria a simpatia irrestrita dos espectadores, não havendo quem não ratifique a perspectiva narrativa do cineas­ta, preocupado em desvelar uma "realidade" tão fatalista quanto labiríntica.

O descaso do poder público e, por extensão, dos profissionais; a errância de uma juventude que não dispõe de um lócus social estável; a irremediável cisão socioeconômica que assola o país traçando destinos de antevéspera: tudo está "documentado" como que para não nos deixar esquecer que, contra os fatos ali dispostos, não há argumento.

Não obstante a eficácia de seu roteiro/direção, Pro dia nascer feliz, com o fito de retratar a "verdade" da educação brasileira atual, corre o risco de absolutizá-la. Isso porque a linha divisória entre verdade e ficção é demasiado tênue; para alguns, inexistente. A verdade seria apenas uma ficção pontual que teria triunfado por razões obscuras. Daí que transtornar a veracidade da verdade representaria o compromisso maior de nossa faculdade de pensar – tarefa da educação e da arte, em igual medida.

Daí também não haver nem isenção, nem primazia, nas lentes de um documentarista obstinado por verossimilhança e autenticidade. Documentar a vida presente representaria uma investida tão ficcional quanto outra qualquer. Nada além. Conta-se um conto, aumenta-se um ponto, inevitável e afortunadamente. 
Ficção explícita é o de que carece Pro dia nascer feliz.



Julio Groppa Aquino – Professor da Faculdade de Educação da USP –



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