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A renovação do espaço

A Biblioteca Mario de Andrade, referência cultural paulistana, em imagens que mostram as interferências arquitetônicas no tradicional prédio art déco

Como fazer para que um equipamento público com mais de 80 anos, cuja imagem já estava mais do que sedimentada entre a população, pudesse reconquistar sua vitalidade e cumprir a função de oferecer, com qualidade e segurança, acesso a um acervo de 3,3 milhões de volumes para leitura? 

Foi a partir desta questão central que os responsáveis pela Biblioteca Mario de Andrade, a segunda maior do Brasil, só ficando atrás da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, direcionaram a reforma do prédio localizado no centro de São Paulo, na confluência da rua da Consolação com a avenida São Luiz, com os fundos voltados à praça Dom José Gaspar.

Depois de três anos e meio de obras, a principal biblioteca paulista foi reaberta no aniversário da cidade, em 25 de janeiro deste ano. Parte dela, é verdade, já havia sido entregue em julho do ano passado. Justamente uma das áreas que distinguem o edifício "repaginado" da versão que o antecedeu: o espaço circulante, que oferece livre acesso ao acervo e se destina à leitura, pesquisa e empréstimo de obras.

Localizado no nível térreo do prédio, o espaço ganhou um mezanino, aproveitando a amplitude de seu pé- direito, que permitiu aumentar em 100% a capacidade da coleção circulante, que hoje é de 42 mil volumes.  A iluminação foi trabalhada de forma a potencializar a luz natural. Há pufes próximos às estantes para quem está em busca do volume mais adequado.

As áreas de circulação também aumentaram com a criação de um corredor envidraçado que faz com que o interior do edifício e a parte externa, em especial a praça Dom José Gaspar estejam visualmente interligados.


Logística complexa



A reforma exigiu que a etapa de planejamento fosse bem pensada, pois o acervo, além de precisar ser tratado, recuperado e higienizado, também deveria passar pela menor movimentação possível, ação que poderia danificá-lo. Assim, a melhor solução foi deslocar o acervo de periódicos, que ocupava 1/3 do espaço total da biblioteca, para duas outras unidades da prefeitura, a Biblioteca Prestes Maia, em Santo Amaro, e a Adelpha Figueiredo, no Canindé. Parte desse acervo, que no total tem 3 milhões de fascículos, está passando por avaliação e catalogação para que fique disponível no sistema on-line Alexandria, da rede municipal de bibliotecas.  

Uma vez livre o espaço que ocupava essa coleção, os livros puderam ser movidos à medida que cada uma das áreas do prédio era reformada. No processo de diagnóstico, constatou-se que havia falta de espaço útil para que o acervo crescesse, constatação que levou à construção do mezanino para o espaço circulante.

Além da questão logística, a reforma trouxe uma questão mais conceitual para o Piratininga Arquitetos Associados, escritório responsável pela obra: a partir de que parâmetros trabalhar a integração do projeto original do prédio, no estilo art déco,  assinado pelo francês Jacques Pilon, com os parâmetros arquitetônicos e necessidades atuais.

Segundo a arquiteta Renata Semin, que assina o projeto com José Américo de Brito Cruz, a linha adotada foi "a de não tentar mimetizar o projeto original". "Tentamos interpretar as grandes linhas do projeto – proporções, tratamento dos materiais aplicados, espacialidades – e fazer com que os elementos novos fossem justapostos aos de origem, com condições de reversibilidade."

Essa justaposição permite aos estudiosos atuais e futuros distinguir o que é próprio de cada época em termos de projeto e técnicas construtivas, dando-se condição de identificar essas diferenças pelo olhar. Até que os anos e, espera-se, o uso contínuo pelo maior número possível de leitores exijam uma nova reforma.

Crescimento constante

Inaugurada em janeiro de 1926, então com o nome de Biblioteca Municipal de São Paulo, a Biblioteca Mario de Andrade passou por diversas mudanças de endereço, normalmente relacionadas à adequação da estrutura física para receber um acervo sempre crescente.

Seu primeiro endereço foi na rua Sete de Abril e, ao ser aberta, contava com 92 lugares de pesquisa e um acervo de 15 mil volumes. Em 1936, começa a expansão para outras unidades. Eram os tempos em que o escritor Mario de Andrade estava à frente do Departamento de Cultura e Recreação da prefeitura. No mesmo ano, o prefeito Fábio Prado libera recursos para a compra do imóvel atual, onde manda construir o prédio, finalizado em 1942.

Durante esses 85 anos, o acervo da biblioteca cresceu por meio de doações e aquisições. Pautados pela crescente falta de espaço, diversos prefeitos discutiram projetos de intervenção no prédio. Durante a gestão da ex-prefeita Marta Suplicy, por exemplo, o arquiteto Fábio Penteado tentou construir quatro subsolos para abrigar obras excedentes. O projeto nunca saiu do papel.