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Aulas poéticas

A literatura infantil de Ricardo Azevedo e as artes de ler o mundo e avaliar as grandezas de cada um

A literatura infantil resgata os adultos, seres tantas vezes adulterados, esquecidos da fantasia, sequestrados pela falta de curiosidade. Lendo como se voltasse a ser criança, o adulto recria sua maneira de ver o mundo, recria o próprio mundo. Recreia-se e recria-se.

O escritor e ilustrador paulista Ricardo Azevedo (1949 – ) já publicou mais de cem livros para crianças e jovens, oportunidades literárias para um leitor amadurecer como ser humano. Em outras palavras, mais de cem ocasiões para que façamos leituras educadoras, recuperando a capacidade de olhar o mundo com novo descortino, com tino e tons mais vibrantes.

Fernando Pessoa dizia que nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças. Por um lado, isso significa que nenhum livro de literatura infantil deve subestimar os infantes, considerados por uma certa mentalidade como incapazes de expressão. Literatura infantil confiável, sem criancices, pressupõe que seus pequenos leitores não são pensadores pequenos nem comunicadores de segunda categoria. Mas aquela frase de Pessoa nos diz também que nenhum livro de literatura infantil confiável deixará de atrair leitores de todas as idades, e fazer com que repensem suas vidas e se repensem.



Poesia ensina sem provocar azia



Se algo aprendemos com poesia infantil é que conhecimento combina com alegria. Conhecer com prazer é tarefa diária, e não provoca tédio, azia ou mal-estar. Ricardo Azevedo produziu vários poemas em que a graça e o gracejo têm primazia. O poema
Bilhete de loteria

(em
Livro de papel

, Editora do Brasil, 2001) conta a história do mendigo que, com a esmolinha recebida, em vez de encher a barriga vazia, resolveu comprar um bilhete de loteria. E ganhou o prêmio!
O mendigo sortudo, agora endinheirado, não quis mudar de vida naquilo que era essencial. Não quis perder sua peculiar liberdade. Comprou panela (para bater nela), comprou barbante (para fazer um turbante), comprou lambreta (para dar pirueta), comprou baralho (para ter algum trabalho). E, como dinheiro não compra tudo, sobretudo a visão de mundo construída a duras penas, comprou a praça em que enfrentara tantas noites de frio, mas na qual aprendera tudo sobre a existência:


E, finalmente,




todo contente,




comprou a praça,




e, de pirraça,






ficou na cama




feita de grama,




apreciando




o panorama.


Sempre fora um mendigo sui generis, meio amalucado. O prêmio da loteria só faria sentido na medida em que lhe permitisse continuar a viver sua vida com aquela sabedoria despirocada. Deitado na cama de grama, poderia fazer o que sempre lhe agradou: apreciar o panorama, contemplar a natureza… humana.

Ler o mundo é, de fato, habilidade dentre todas a mais importante, como nos ensina Ricardo Azevedo neste e em outro poema seu,
Aula de leitura

(em
Dezenove poemas desengonçados

, Ática, 1998).

Não se trata de decifrar palavras apenas. O analfabeto existencial precisa aprender a ler as folhas caídas de uma árvore, as ondas do mar, as casas em suas fachadas e mobília, a ler cachorro (está bravo, ou faminto, ou amigável?), a ler fumaça, vento, fruta, cavalo, nuvens, estrelas, palma da mão e o bater do coração.


Mas o poeta vai sempre mais longe, e nos alerta:




Uma arte que dá medo




é a de ler um olhar,




pois os olhos têm segredos




difíceis de decifrar

.


A avaliação que melhora



O poeta intui, e sua intuição é mais precisa e contundente do que muitos raciocínios labirínticos em que entramos… para deles não sair mais.

A arte de ensinar inclui uma arte de avaliar. Com que parâmetros julgar se um aluno está crescendo? Comparando os que amargam notas baixas com os que saboreiam notas altas? Mas o que fazer com a diversidade, essa incômoda e indecifrável realidade a questionar padrões? Como fingir que não existem idiossincrasias? Como fazer vista grossa perante as finas qualidades de cada pessoa?

No
Poema do tamanho

(em
Se eu fosse aquilo

, Ática, 2002), o poeta intui que o tamanho de cada um é o critério mais adequado:


Será que o tamanho é bom?




Será que o tamanho deu?



Pra mim, o melhor tamanho




Vai ser o tamanho meu.






Mais alto que um gigante




Mais baixo que um pigmeu




Pra mim, o melhor tamanho




Vai ser o tamanho meu.


Nessas duas primeiras estrofes já se impõe o refrão. E localizar o pronome possessivo "meu" no final de cada estrofe é entender como ressoa o conceito de individualidade.
Para avaliar o tamanho de alguém precisamos, em primeiro lugar, reaver a intuição linguística, escondida na origem da própria palavra "tamanho", contração da locução latina
tam  magnu,

isto é, "tão grande", usada em frases comparativas com o objetivo de magnificar.


Tanto faz medir com régua




Tem gente maior que eu




Pra mim, o melhor tamanho




Vai ser o tamanho meu.






Tanto faz medir com a fita




Tem gente menor que eu




Pra mim, o tamanho certo

Pra mim o tamanho exato
Pra mim o melhor tamanho
Vai ser o tamanho meu!

Reavaliemos o genuíno sentido da avaliação. E como praticamos a avaliação
a favor

dos alunos. O poema relativiza o "maior", o "menor", o "gigante", o "pigmeu", e provoca perguntas. Quão grande cada pessoa é? Em que medida respeitamos o "eu" embutido em cada "meu"? Qual o tamanho real e irredutível de cada um, considerando-se suas escolhas, suas circunstâncias e características concretas?

A avaliação do "melhor tamanho" consiste, enfim, em identificar o que há de melhor em cada aluno, seja qual for o seu tamanho. O último verso termina com um ponto de exclamação. Enfatizando que o melhor tamanho é o tamanho incomparável, o tamanho que é tão grande quanto de fato é.
No cotidiano, lutamos para subir em pedestais e pódios. Deles, porém, convém descer se quisermos dimensionar melhor a realidade, em especial quando estamos empenhados em aprender a ensinar. As coisas se ampliam, se reduzem, dependendo de nossa atitude. Na dialética dos tamanhos, precisamos decrescer para crescer, e avaliar corretamente a grandeza de cada um.

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Gabriel Perissé


(www.perisse.com.br)


 


é doutor em Filosofia da Educação (USP) e professor do Programa de Mestrado/Doutorado da Universidade Nove de Julho (SP)