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Como implementar o ensino por projetos

Esse método é sobre “aprender fazendo”, ao mesmo tempo que permite uma reflexão profunda sobre a temática escolhida e a realidade que o cerca, desenvolvendo o pensamento crítico e a responsabilidade pelos resultados


Por Marina Feferbaum, Clio Radomysler e Guilherme Klafke* | Ensino por projetos tem se tornado uma tendência em vários cursos na educação superior. Esse método ativo é sugerido porque proporciona o desenvolvimento de diversas habilidades centrais a profissionais que enfrentarão desafios complexos, gestão de equipes, cronogramas e, principalmente, inovação. Este texto traz reflexões sobre aspectos que consideramos essenciais para o planejamento de cursos.

Leia: Criar um ambiente de aprendizagem ativa não é tão complexo

Sinteticamente, o ensino por projetos é uma abordagem de ensino e aprendizagem que estimula estudantes a elaborarem, de forma colaborativa, uma proposta de solução para alguma questão significativa do mundo real. Diferencia-se do ensino por problemas porque demanda da turma não apenas a investigação do problema e criação de soluções, mas uma etapa de efetiva elaboração e testagem de um produto concreto**.

Ele tem a clara vantagem de desenvolver soft skills, que são tão importantes quanto o conhecimento técnico, como gerenciamento de tempo, planejamento e liderança. É uma abordagem de ensino centrada no estudante, e que lhe dá a oportunidade de protagonizar a construção de seu próprio conhecimento e aplicar na realidade os desafios vistos no plano teórico. 

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ensino por projetos demanda uma etapa de efetiva elaboração e testagem de um produto concreto. Foto: Pexels

Esse método é sobre “aprender fazendo”, ao mesmo tempo que permite realizar uma reflexão profunda sobre a temática escolhida e a realidade que o cerca, desenvolvendo o pensamento crítico e a responsabilidade pelos resultados. 

É de se esperar que, quando o projeto faz sentido para os estudantes, eles fiquem verdadeiramente engajados no processo de aprendizagem, não somente por uma nota de avaliação, mas pelo percurso, pelo possível impacto gerado pelo produto, e pelas relações com os diversos atores. 

Como planejar e executar

Para que as vantagens que essa metodologia proporciona sejam aproveitadas, é necessário um bom planejamento de todas as etapas, e clareza dos objetivos de aprendizagem. Essa abordagem desafia os métodos tradicionais de ensino, que priorizam o aprendizado pela absorção passiva e individual de conteúdo, com todo o processo definido pelo professor. Assim, torna-se necessária a consideração de outros elementos e relações em sala de aula. Como podemos, então, implementar o ensino por projetos? Citamos nove elementos importantes para começar a planejar e executar seu curso:

  1. Explore a multidisciplinaridade

Um dos pilares fundamentais do ensino por projetos é a multidisciplinaridade, já que os problemas do mundo real e os produtos não se limitam a uma área de conhecimento. Considere trazer atores de diferentes áreas e explorar tensões entre visões disciplinares diferentes.

  1. Escolha um tema/problema/questão instigante e factível

Escolher um tema instigante, atual e que faça parte da realidade dos estudantes, que inquiete o grupo e a sociedade, engajará a turma a identificar um problema e a se dedicar à busca de soluções a ele. De um grande tema, eles extrairão o problema e, dele, uma questão desafiadora a construir uma resposta. Tal questão deve ser relevante e exequível dentro do tempo do curso.

  1. Delimite o espaço de decisão dos estudantes

O principal papel do docente é apoiar o desenvolvimento dos projetos pelos estudantes sem tirar deles a oportunidade de realizarem escolhas sobre como abordar o tema ou problema proposto. 

Ao possibilitar um papel ativo dos estudantes na investigação e criação de soluções, constrói-se um espaço favorável para o desenvolvimento de autonomia e de diferentes habilidades.. É importante buscar um equilíbrio entre a estrutura estabelecida pelo professor e o espaço de liberdade garantido aos alunos.  

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  1. Aproveite a experiência dos estudantes

As experiências anteriores dos estudantes e sua visão de mundo farão com que, ao poderem escolher em qual aspecto se debruçar no projeto, possam aplicar à própria realidade, além de motivá-los a se engajarem no projeto.

  1. Delimite o formato dos produtos

Os produtos devem consistir numa resposta concreta ao problema, aplicável e útil à sociedade. Assim como na delimitação do tema, é possível restringir ou ampliar as possibilidades de produtos, mas é essencial que os estudantes saibam justificar por que ele é relevante e para quem ele se destina. 

Mapeie parceiros e estimule o diálogo com atores: você pode realizar um levantamento dos atores mais relevantes (stakeholders) que contribuirão para o tema em aspectos básicos. Contatar os potenciais atores e estabelecer parcerias é desejável para concepção e testagem dos produtos. 

Estimular que os estudantes façam isso por conta própria também é fundamental para o processo de aprendizado e elaboração dos produtos. Uma das contrapartidas, afinal, pode ser que os atores queiram aplicar as soluções em suas organizações.

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Foto: Pexels
  1. Dialogue com estudantes e estimule o debate entre eles

Enquanto facilitador(a) do processo, é fundamental manter um diálogo aberto e constante com os estudantes, tanto sobre as etapas do projeto e responsabilidades, quanto sobre os aprendizados adquiridos, e expectativas da parte pedagógica e de parceiros externos. 

Algo decisivo para  o sucesso do projeto é a criação de um ambiente seguro e inclusivo, em que possam praticar a escuta verdadeira e empática entre si, desenvolvendo habilidades de cooperação, de feedback, de gestão de pessoas e de crise, e postura profissional. Criar canais de comunicação e usar as novas tecnologias a favor podem ser ótimas aliadas.

  1. Combine com outras estratégias de aprendizagem

Conduzir o processo de aprendizagem por meio de projetos é considerar que todas as etapas são oportunidades de se aprender. Assim, é possível combiná-la com outras dinâmicas – como, por exemplo, simulações, casos práticos, brainstorming – que fomentem os saberes e competências que se pretende desenvolver ao longo do curso.

 8. Crie oportunidades de apresentação do projeto

A melhor maneira de saber se o que foi planejado é factível e adequado à realidade é apresentá-lo a especialistas e mentores. Realizar um evento de lançamento do projeto com os atores envolvidos em formato de pitch, por exemplo, pode ser uma ótima ideia. Tão importante quanto isso é criar oportunidades de apresentação interna ao longo de todas as etapas da execução do projeto.

  1. Esclareça os critérios de avaliação dos projetos

A apresentação dos produtos sempre gera bastante ansiedade nos estudantes, ainda mais em se tratando de um método diferente de aprendizagem. 

Por se tratar de produtos, muitas vezes o formato também influencia a avaliação do conhecimento técnico – por exemplo, se estudantes de Direito fazem um vídeo. Por isso mesmo, os critérios e as formas de avaliação devem estar claros desde o início do curso, para trazer mais segurança aos estudantes e proporcionar a você uma boa avaliação. 

Como se trata de um processo, é importante que estejam contemplados diversos aspectos, com pesos diferentes, a depender dos seus objetivos de aprendizagem planejados, mas que reflitam o desempenho global dos alunos. Em suma, o ensino por projetos é rico e poderoso, valorizando a voz e a escolha dos estudantes. 

A colaboração, a investigação, a intensa relação entre teoria e prática, e a criatividade são características centrais desse método que tornam o ensino ainda mais significativo. 

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* Marina Feferbaum é coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) e da área de metodologia de ensino da FGV Direito SP, onde também é professora dos programas de graduação e pós-graduação;

Clio Radomysler é líder de projetos no Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV Direito SP (CEPI) e coordenadora do Núcleo Direito, Discriminação e Diversidade (DDD) da Faculdade de Direito da USP; 

Guilherme Forma Klafke é líder e gestor de projetos no Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV Direito SP (CEPI), onde também é professor do programa de pós-graduação lato sens

** 1 FEFERBAUM, Marina; KLAFKE, Guilherme Forma. Metodologias ativas em direito: guia prático para o ensino jurídico participativo e inovador. São Paulo: Atlas, 2020, p. 115.

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Marina Feferbaum

Coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) e da área de metodologia de ensino da FGV Direito SP, onde também é professora dos programas de graduação e pós-graduação