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Conhecimento e democratização

O interesse público anda esquecido nos debates sobre a expansão universitária

Os recentes e acalorados debates a respeito de mudanças nos exames vestibulares e a adoção de diversas modalidades de políticas de ação afirmativa, como as cotas em universidades públicas, trouxeram à ordem do dia uma questão que, há não muito tempo, se restringia ao debate acadêmico: qual a natureza dos compromissos da universidade com a democratização da sociedade?

O problema é, sem dúvida, bastante complexo, pois coloca em conflito dois princípios igualmente fundamentais da instituição universitária: o mérito acadêmico como critério e a luta pela justiça social como objetivo. Por essa razão ele não admite soluções muito simples, que ignorem a tradição universitária ou o clamor presente acerca de seu papel social. Mas há um aspecto nesse debate que me chama a atenção, não pela sua forma presente, mas por sua espantosa ausência.
As legítimas e candentes preocupações relativas aos esforços pela democratização do acesso à universidade pública têm obscurecido um problema igualmente fundamental: a discussão sobre o sentido público daquilo que a universidade produz.
Uma universidade comprometida com a justiça social não pode ignorar os efeitos daquilo que Bourdieu chamou, com precisão, de capital cultural (a transformação de um tipo específico de herança cultural não escolar em fator de distinção no desempenho escolar). Mas tampouco deve ignorar que os compromissos de uma universidade pública transcendem a mera preparação de profissionais que terão êxito em suas carreiras profissionais privadas.

Fui informado por um de meus alunos de que mais da metade da produção de inovações e patentes de uma unidade da USP destinava-se à indústria de cosméticos. Não verifiquei se a informação procede ou se é precisa. Mas é inegável que a ênfase no mercado e na competição dos profissionais que forma tem desviado a universidade do sentido que deveria guiar suas ações no campo da docência, da pesquisa e da extensão: o interesse público.

Pouco vale duplicar o número de vagas para as licenciaturas se as universidades públicas não forem capazes de sensibilizar seus alunos para os problemas e as lutas da educação pública. Não basta desenvolvermos tecnologia de ponta em cirurgias cardiovasculares, se deixarmos nossos laboratórios e pesquisas em doenças infecto-contagiosas à míngua. Aos esforços pela democratização do acesso à universidade devem corresponder esforços igualmente intensos no sentido de que sua produção – seu ensino e sua pesquisa – reflitam, também eles, um claro compromisso com os princípios públicos de democratização da sociedade e de promoção da justiça.  


José Sérgio Fonseca de Carvalho



Doutor em filosofia da educação pela Feusp



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