O valor da educação para a geração Z

Eles têm uma maneira própria de se relacionar com o conhecimento e a aprendizagem e exigem mudanças das instituições de ensino superior. Aliás, para uma parcela considerável, o diploma sequer é necessário

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Eles nasceram, aproximadamente, entre 1995 e 2005, num mundo globalizado e onde a internet já estava se disseminando. Então, sentem-se à vontade com a tecnologia e não concebem a vida sem a rede, mas, ao mesmo tempo, valorizam as interações pessoais. São determinados, têm a mente aberta e aceitam com naturalidade a diversidade de gênero, étnica e outras. Acreditam fortemente em seu potencial para empreender, de modo que, para eles, emprego fixo e carreira estável são coisas do passado. São bem informados e mais conscientes quanto ao uso do dinheiro do que seus antecessores.

Novos horizontes, novos projetos para inovar na educação

Os alunos querem montar a própria grade curricular. Como viabilizar isso no ensino superior?

Essas são algumas das características da chamada geração Z, que acaba de chegar aos bancos universitários e ao mercado de trabalho. Além dessas características, o fato de serem nativos digitais e viverem num mundo interligado torna esses jovens diferentes daqueles de outras gerações, o que acarreta uma série de desafios para as instituições educacionais de nível superior.

É o que mostram as pesquisas e a experiência de professores e gestores. “A diferença é claramente perceptível”, afirma o pró-reitor acadêmico do Centro Universitário Belas Artes, Sidney Leite. “Esse estudante rejeita a aula tradicional, expõe o que pensa e sente direta ou indiretamente, usa constantemente o celular ou o tablet e se dispersa depois de 15 minutos de exposição.” Em contrapartida, ressalva o pró-reitor, são curiosos, abertos e apresentam grande capacidade de se engajar em atividades e projetos.

A caracterização do estudante universitário da geração Z feita pelo pró-reitor condiz com as conclusões de pesquisas internacionais realizadas com o objetivo de compreender quem são esses jovens e quais os efeitos da sua chegada à educação superior.

Estudo realizado pela University Professional & Continuing Learning Association (UPCEA), dos Estados Unidos, aponta que a geração Z possui uma maneira própria de se relacionar com o conhecimento e com a aprendizagem – o que, além da influência da tecnologia, está relacionado à maneira como esses jovens foram criados por seus pais. Como receberam muita atenção e cuidados na infância, os integrantes da geração Z desenvolveram gostos, crenças e opiniões próprias, o que impacta diretamente suas escolhas educacionais.

Geração Z

Os jovens nascidos entre 1995 e 2005 utilizam canais como o YouTube para estudar. O aprendizado online é visto de forma natural (foto: Shutterstock)

Diploma em xeque

O diretor da UPCEA, Jim Fong, assinala, na introdução da pesquisa, intitulada An insider´s guide to generation Z and higher education 2018, que o grupo de 12 a 22 anos teve mais acesso à educação do que os anteriores, por isso o diploma não é necessariamente encarado por eles como o único meio para ingressar ou galgar postos no mercado de trabalho, como ocorria com os estudantes universitários de 20 anos atrás. Isso não significa, contudo, que eles não valorizem a educação superior. De acordo com a UPCEA, 54% dos garotos e 63% das garotas entrevistados acreditam que o diploma universitário é essencial para o sucesso profissional.

“A geração Z preocupa-se com a empregabilidade, mas vive num mundo onde o trabalho é incerto e em que boa parte das profissões da atualidade deixarão de existir num futuro breve. Na década de 1980, uma pessoa cursava engenharia para ser engenheiro. Hoje não é assim”, analisa o diretor da área de educação da Pearson, Juliano Costa.

Para esses jovens, frequentar uma faculdade possibilita a abertura de mentalidade e de perspectivas, e é justamente nisso que reside o seu valor. “Eles veem a educação superior como um campo para aprender coisas novas e para conhecer pessoas”, detalha Costa.

A pesquisa Beyond millennials: the next generation of learners, da Pearson, mostra que, entre os jovens da geração Z, 25% acreditam que terão uma carreira recompensadora sem frequentar uma faculdade e 67% deles dizem que o ensino superior é passo importante para um futuro de sucesso. Entre os millennials, as proporções são, respectivamente, 40% e 61%. A pesquisa compara as visões dessas duas gerações. Já, segundo o estudo da UPCEA, para a geração Z a faculdade não é o único caminho para uma boa formação: 75% deles dizem que há outras formas para obter uma boa educação.

Se os estudantes da geração Z não estão mais em busca de formação de nível superior para exercer uma profissão, o que deve ser ensinado na faculdade e como? E, mais do que isso, como atrair e reter este aluno?

Nesse sentido, além da dinâmica da sala de aula, os projetos pedagógicos e o plano de desenvolvimento institucional têm de ser reformulados, tomando como referência este novo aluno. “Esse é um tema central para as instituições de ensino”, enfatiza o pró-reitor da Belas Artes.

As certificações intermediárias

A pesquisa da UPCEA traz algumas pistas importantes sobre o que pode ser feito: os resultados apontam que cerca de metade dos entrevistados valoriza uma formação que lhes ofereça certificações intermediárias e não apenas um diploma – sobretudo aqueles que estão fora do sistema educacional.

Segundo o estudo, 59% dos homens nesta situação, acham que o tempo de dedicação necessário para cursar uma faculdade vale a pena e 47% deles têm a mesma opinião sobre o dinheiro investido na formação. Para 76% deles, as faculdades e universidades teriam mais valor se oferecessem certificações intermediárias. Entre as mulheres, as proporções são, respectivamente, 73%, 60% e 73%.

As certificações intermediárias também são valorizadas por quem está inserido no sistema: têm essa opinião 71% dos homens e 67% das mulheres.

Com base nesses resultados, os pesquisadores da UPCA concluem que as certificações intermediárias podem fazer a diferença para as instituições atraírem e manterem os estudantes da geração Z, especialmente aqueles que se matriculam, mas acabam não concluindo o curso, já que elas significam um reconhecimento pelo esforço e pelo aprendizado obtido até determinado ponto.

As certificações também são vistas como um atrativo para quem quer crescer na carreira. O UPCEA concluiu que 70% dos estão fora do sistema têm essa percepção.

YouTube x sala de aula

Como nasceram em plena era da informação, sentem-se confortáveis para usar a internet e os equipamentos eletrônicos como ferramenta de aprendizagem, em especial as plataformas de streaming e redes sociais.

O YouTube desponta como o meio preferido para lazer e informação. O estudo da Pearson mostra que 82% usam a plataforma com regularidade, 70% o Instagram, 69% o Snapchat, 63% o Facebook e 43% o Twitter.

A pesquisa da UPCEA, por sua vez, revela que 95% dos entrevistados da geração Z utilizam o YouTube e que 50% deles não viveriam sem a plataforma.

Por isso, são abertos ao uso da tecnologia e à educação online. De acordo com a Pearson, 63% deles aceitam aprender em meios digitais. “Essas pessoas têm a percepção de que estudar em meio virtual pode ser tão ou mais eficaz do que presencialmente”, resume o diretor de Educação da empresa.

O YouTube também se destaca como meio favorito para aprender para 59% dos entrevistados da geração Z. Entre os millennials, o livro desponta como o meio de aprendizagem mais usado (60%).

Quanto aos equipamentos, a maioria deles considera que o melhor tipo de equipamento para aprender é o laptop (53% dos entrevistados da geração Z), informa a pesquisa da Person. Em segundo lugar está o celular, com 15% das preferências. Mas chama a atenção que 14% deles informaram que aprendem bem em qualquer tipo de equipamento.

Essa intimidade com a tecnologia, que muitas vezes parece ser uma barreira entre os estudantes e o professor, pode ser, na verdade, uma aliada. “É uma facilidade todos terem um celular na mão. O esforço é fazer o aluno instrumentalizar o uso do celular”, analisa a coordenadora do Núcleo de Inovação Pedagógica da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Manolita Correia Lima.

E o professor tem um papel fundamental nesse processo, desde que deixe de encarar a tecnologia como um impeditivo e atue como um mediador. Mas isso não depende apenas dele: o professor precisa receber formação, a fim de ser capaz de renovar suas práticas didáticas e incorporar novos métodos.

Nesse sentido, a ESPM implantou, em 2014, a Academia Nacional de Professores, que oferece durante o ano todo formação aos docentes da instituição, atividades de participação voluntária e ciclos de formação.

“A formação não se resume ao domínio da linguagem digital. Os professores precisam estar preparados para trabalhar com este jovem, que tem uma forma diferente de estar no mundo e de ser estudante”, detalha Lima.

A interação como valor

Um aspecto importante revelado pelas pesquisas é que valorização do virtual não significa que a educação presencial tenha de sair de cena. Ela permanece como um espaço relevante e tem um espaço importante no processo de aprendizagem.

De acordo com a pesquisa da Pearson, 78% dos entrevistados que pertencem à geração Z consideram os professores muito importantes para seu aprendizado e desenvolvimento. Em contrapartida, apenas 39% preferem aprender em atividades conduzidas exclusivamente pelo professor e 57% deles preferem realizar atividades em conjunto com seus colegas de classe. Além disso, 71% preferem tentar resolver os problemas e desafios sozinhos, consultando livros, a internet ou colegas, antes de pedir ajuda ao professor.

Por isso, é essencial que o professor mude a maneira se relacionar com os estudantes e de conduzir as atividades didáticas. “O silêncio e a disciplina não funcionam mais”, sintetiza Lima, da ESPM. Da mesma forma, também não são mais atrativas as tradicionais apresentações em power point .“É totalmente ineficaz. O aluno acaba saindo da sala de aula e pede para o professor enviar a apresentação por e-mail para ele estudar em casa”, diz Sidney Leite.

Em outras palavras, é essencial que o professor incorpore metodologias ativas, colaborativas e centradas no estudante. “Não é obrigatório abrir mão da aula expositiva, mas esta deve ser ‘dialogada’, organizada em ciclos que alternem apresentação e atividades”, diz Leite. Em suma, é preciso mobilizar o aluno o tempo todo.

Casar teoria e prática desde o início do curso é outra estratégia relevante, assinala Costa, da Pearson. “Não faz mais sentido um curso de medicina em que a prática começa no quarto semestre. É preciso começar logo no primeiro semestre com estudo de caso. Esses estudantes gostam do estudo diversificado, de flexibilidade e da prática”, detalha.

Mas não são apenas as aulas dinâmicas e centradas no estudante que se adequam ao perfil da geração Z.  O conteúdo das disciplinas também importa e pode fazer diferença no engajamento desses estudantes.

Na Belas Artes, é ofertada a disciplina Estética e Felicidade, criada com o objetivo de oferecer um repertório para o autoconhecimento do aluno, além de contribuir para “o desenvolvimento de estratégias, métodos, princípios e valores para uma vida coerente, com metas e significados”, descreve a ementa do curso.

“A insegurança é uma das marcas do nosso tempo. Ela afeta os jovens e pode gerar instabilidade emocional. Cursos como esse são importantes, porque transmitem a eles instrumentos para navegar nesse ‘mar revolto’”, analisa o pró-reitor Leite, que é o docente responsável pela disciplina, inspirada num projeto da Universidade Harvard. Chamada Happier, a disciplina se tornou o curso mais concorrido da instituição.

educação para geração Z

Os Baby Boomers, que nasceram entre 1946 e 1964, a geração X (1965-1979) e a geração Y ou dos millennials (1980-1994) são outras com características bem marcantes (foto: Shutterstock)

Estratégias de comunicação

Se a geração Z é tão particular em relação às anteriores, como atrair esses estudantes? Segundo Glauson Mendes, especialista em planejamento e marketing educacional, a resposta está numa estratégia consistente de divulgação ancorada na internet, em especial nas redes sociais.

“Muitas instituições renegam as redes sociais e continuam investindo em call centers, mas essa estratégia funcionava com os jovens das gerações passadas”, afirma Mendes. “Os jovens não querem ser contatados por telefone, muitos deles sequer usam o celular como telefone, mas eles têm planos de dados”, complementa.

Essa visão é coerente com os resultados da pesquisa da UPCEA: como esse público conhece e está muito presente na internet, eles percebem (e não gostam) de anúncios. Campanhas e anúncios convencionais não são, segundo a UPCEA, a melhor maneira de abordá-los.

Mas não basta estar presente no Instagram e em outras redes; isso é o natural, na perspectiva desses jovens. É preciso desenvolver estratégias de engajamento com eles, ou seja, estabelecer algum tipo de relacionamento. Eles também esperam que sejam oferecidos serviços e que suas demandas e dúvidas sejam atendidas rapidamente e de maneira eficaz.

Nesse sentido, Glauson Mendes reforça a necessidade de que as instituições profissionalizem sua atuação nas redes sociais, sobretudo para atrair novos estudantes e estabelecer um relacionamento com eles. Para retê-los, o caminho é um pouco diferente mas, ainda assim, apoiado na comunicação via internet: oferecer serviços online, que permitam solucionar suas dúvidas e necessidades, tem se mostrado um caminho eficaz, afirma o especialista em marketing.

“Não adianta criar um link para uma área do site onde o estudante terá acesso a todas as informações. O estudante quer tirar a sua dúvida ou ter acesso a um documento rapidamente”, explica ele. Assim, pode ser mais produtivo criar, por exemplo, uma área no site para baixar declarações e outros tipos de documentos, além de um chat para tirar dúvidas.

O sucesso dessas estratégias, porém, depende do engajamento de toda a equipe da instituição. E o primeiro que deve aprender e se envolver, diz Mendes, é o próprio mantenedor.

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