Instituições de ensino dão suporte a empreendedores brasileiros

Empresários abrem negócios cada vez mais cedo. Instituições como a PUCPR estão acompanhando a tendência

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Por Davi Franzon

Na maioria dos países, as pessoas se tornam empreendedores entre os 25-34 anos ou entre os 35-44 anos. Nas duas faixas de idade, supõe-se que elas concluíram os estudos e acumularam alguma experiência profissional, por meio da qual vislumbraram boas oportunidades de negócios e decidiram segui-las. Com tantos anos de trabalho pela frente, elas sentem que, caso suas ideias não prosperem, terão tempo para arranjar outra fonte de renda. Elas estão nas melhores épocas da vida para começar um novo negócio, como define o influente Global Entrepreneurship Monitor, considerado o maior estudo em andamento.

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Em alguns países, contudo, o empreendedorismo começa muito mais cedo, na faixa dos 18-24 anos. É o caso do Brasil, que ao lado do Canadá e outros três países europeus têm um alto percentual de jovens que, talvez, enxerguem no empreendedorismo uma alternativa mais atrativa que entrar no mercado de trabalho como funcionário de alguma empresa.

Uma das instituições antenadas a essa tendência e aos anseios da atual geração é a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Desde 2014, a universidade mantém uma aceleradora de startups, a Hot Milk, para dar um impulso às ideias apresentadas pelos alunos, que têm a oportunidade de passar por trilhas de empreendedorismo enquanto estão na universidade para construírem uma carreira solo.

Diretor da Agência PUC de Inovação, o professor Fernando Bittencourt Luciano conta que a aceleradora é resultado do entendimento das demandas do mercado. A universidade captou que era preciso ir além das atividades de uma unidade de negócios.  “Passamos a atuar na formação do estudante, com uma metodologia com origem nas aceleradoras, cuja base é falhar rápido e aprender rápido. Essa mudança nos permitiu preparar os alunos com eficiência para o setor produtivo.”

Os ciclos de incubação da Hot Milk operam em três etapas. Na primeira, estão os projetos na fase da ideação, que recebem incentivos variados para que possam seguir adiante e serem validados. Em um segundo estágio estão as iniciativas prontas para a produção. Neste caso, o foco está na mediação de encontros com clientes em potencial e na transformação do produto em um bem vendável.

No terceiro estágio, o mais avançado, o público são empresas que estão no mercado e já possuem clientes. O objetivo, nesta etapa, é desenvolver ferramentas de marketing e vendas. “Hoje, temos grupos em ciclos distintos na incubadora. Temos aqueles cuja ideia precisa de maturação e os que estão a caminho da terceira etapa, com um faturamento próximo de R$ 1 milhão. Nestes casos, eles buscam mentorias com profissionais do marketing e da área de vendas.”

Segundo o diretor da agência, seis fundos de investimentos então entre os parceiros da incubadora. Com recursos e o espaço para desenvolver os projetos, a universidade passou a atuar como a mediadora da aproximação entre empreendedores e potenciais investidores.  “Fomentamos as conexões. Empresas da área tecnológica entram em contato com estudantes de engenharia e de outras áreas do conhecimento. Elas têm acesso aos laboratórios e precisam de ferramentas de comunicação. Do outro lado, o discente, seja ele de graduação, mestrado ou doutorado, tem acesso ao mercado. Todos ganham nesse modelo.”

Um dos negócios que contaram com o apoio da Hot Milk foi a Clean House Express, empresa que padroniza serviços e conecta profissionais autônomas com o cliente final, seja ele pessoa física ou jurídica.

O negócio foi pensado pelo então estudante Thiago Silva, que teve um insight ao perceber que serviços de limpeza eram um nicho pouco explorado pelo mercado de startups. Com o contato quase diário com a realidade das profissionais do setor – sua mãe e sogra atuam no ramo –, o jovem enxergou a necessidade de trazer mais profissionalismo para a área.

Dezenove meses depois, a Clean House teve um faturamento de R$ 500 mil e repassou aproximadamente R$ 400 mil para as profissionais parceiras da plataforma. Também foram realizadas mais de 3 mil faxinas, totalizando 12 mil horas de trabalhos realizados para mais de 600 usuários. Além disso, a empresa fechou 2018 com um crescimento de 350%.

PUCPR empreendedores
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Cooperação

No balanço mais recente da incubadora, 200 termos de cooperação com empresas de distintos setores foram fechados. Nessa lista estão a Renault, a Copel, dois hospitais do grupo Marista e unidades da Unimed. Mas a PUCPR segue olhando para as novas oportunidades.

Especificamente na área de tecnologia, a universidade é parceira da Apple em um desafio para o desenvolvimento de aplicativos. A iniciativa tem como base o challenge based learning (aprendizagem baseada em desafios). Bittencourt explica que no programa não há aulas. Todo o encaminhamento tem como guia o desafio proposto pelos professores, e o interesse é alto. Entre 700 e 800 alunos tentam uma das 50 vagas ofertadas a cada edição do desafio.  Entre os cases de sucesso está uma ferramenta de monetização por meio do YouTube que já ocupou o 1º lugar entre os aplicativos adquiridos na App Store da China.

Na avaliação de Luciano, o caminho trilhado pela PUCPR aponta para a consolidação de um modelo de uma universidade viva, que passa por seguidas transformações e acompanha as demandas da sociedade. Nela, professores e alunos podem errar, aprender e chegar a um melhor entendimento do projeto proposto. No final, há um ganho para todos os envolvidos.

O sucesso das ações da universidade também pode ser medido pelas premiações. Quando realizávamos esta reportagem, a PUCPR foi informada que recebeu, pela segunda vez, o prêmio estadual de Educação Empreendedora, oferecido pelo Sebrae do Paraná.  Entre 218 inscritos, a instituição foi a vencedora na categoria Ensino Superior. A premiação teve como parâmetro o incentivo ao empreendedorismo.

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Momento da virada

Vice-reitor da instituição, o professor Vidal Martins conta que a transformação na PUCPR começou em 2014. “Iniciamos uma nova gestão e a primeira reflexão foi se a universidade deveria mudar e por quê? Passamos a refletir sobre o mercado de trabalho, as tendências que se apresentavam e como acompanhá-las.”

Ele conta que as universidades atuam hoje em um cenário de mudanças constantes. As instituições precisam acompanhar o surgimento de startups e processos disruptivos seguidos. Dessa forma, elas precisam formar profissionais prontos para enfrentar os desafios do presente e aqueles que ainda nem aparecem no horizonte. Para cumprir essa tarefa hercúlea, a direção definiu que era preciso colocar em prática um novo modelo de ensino. “Chegamos à conclusão de que a forma tradicional, baseada unicamente na transmissão de informação, não dava mais conta dos desafios. Passamos a trabalhar com dois temas: a formação de competência e a aprendizagem ativa.”

Essa virada ocorreu após meses de pesquisas e visitas a instituições no exterior. A instituição iniciou seu plano estratégico no final de 2014. As bases foram uma área de formação do docente, cujo foco estava na atualização das metodologias de ensino, e a busca por fontes de financiamento para o fomento da inovação dentro das salas de aula e dos laboratórios. “Houve uma mudança física mesmo. Nem gostamos muito de chamar nossos espaços de salas de aula, são espaços de debate, aprendizagem e inovação.”

Ainda no campo da renovação, a instituição mantém com regularidade a oferta de editais para financiar novas tecnologias e melhorias em serviços. O eixo, explica Vidal, é estimular professores a seguirem inovando. “Conseguimos, dessa forma, manter viva a chama da modernização. O professor capta esse sentimento e tem uma nova visão da própria carreira.”

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