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Gestão do conhecimento – A socialização do saber

A formação contínua e a criação de uma memória institucional beneficiam a escola, os educadores e os alunos

No mundo corporativo, o conceito de gestão do conhecimento está amplamente consolidado e representa um dos bens mais valorizados de uma empresa, guardado a sete chaves. Na área da educação, contudo, o processo de aperfeiçoamento contínuo dos educadores, por meio do qual se aprimoram talentos e se cria uma memória institucional baseada em expe-riências bem-sucedidas, ainda segue a passos lentos. Em muitos casos, a gestão do conhecimento chega a ser vista como um luxo para poucos, viável somente quando sobra dinheiro para investir.

A realidade indica exatamente o contrário. Entre suas muitas acepções, conhecimento significa saber e instrução, em geral alcançados por meio de idéias novas. Ou seja, representa um valor absolutamente acessível a qualquer escola, de qualquer porte e em qualquer lugar – desde que haja um elemento essencial: a vontade genuína de manter uma permanente postura reflexiva e sistematizar o processo de absorção do conhecimento.

O melhor de tudo é que, ao contrário do que acontece nas empresas, onde o conhecimento é classificado como propriedade restrita, na área da educação predomina a idéia de que o saber deve ser socializado o mais amplamente possível. Nas escolas, encontra-se um dos raros ambientes em que concorrência se torna um termo quase inexistente, quando se trata do aprimoramento dos educadores. Nos estabelecimentos que mantêm centros de estudo é senso comum a decisão de promover ações também para o público externo, de estender o aprendizado de gestão a quem quer que esteja interessado, pois no fim da linha o maior beneficiado será sempre o mesmo: o aluno.      


Zélia Cavalcanti, do Centro de Estudos da Escola da Vila: "uma maneira de construir conhecimento em conjunto, gerir informação e socializar tudo isso"

"Nosso foco está nas ações que favoreçam a formação continuada dos nossos educadores. Porém, a partir do valor que essa produção interna vai criando, também promovemos ações para o público externo, para outras escolas e seus professores", explica Zélia Cavalcanti, diretora do Centro de Estudos da Escola da Vila, que possui duas unidades no bairro do Butantã, na capital de São Paulo.

Segundo a professora Zélia, a Escola da Vila trabalha nessa linha há 27 anos e utiliza o conhecimento não como modelo, mas como referencial de reflexão: "A intenção é que o nosso projeto escolar esteja sempre vivo, dinâmico, em transformação, de modo que a circulação de informações se dissemine interna e externamente".

A abertura para o público externo se configura na agenda que o Centro de Estudos desenvolve durante o ano inteiro. Sempre às quintas-feiras, a Escola da Vila abre suas portas para uma média de 200 educadores de outros estabelecimentos, que participam de animados debates em torno de temas relacionados a gestão e projetos educacionais. Nos períodos de férias, geralmente em janeiro e julho, a escola promove uma discussão mais aprofundada dessas questões, durante uma semana. Agora em julho, a partir do dia 19, está programado um conjunto de 14 painéis, cada um com duração de 20 horas.

No âmbito interno, os educadores da Escola da Vila estão permanentemente envolvidos com o que Zélia Cavalcanti define como "temas de reflexão". No fim do período letivo, geralmente em novembro, realiza-se um simpósio, com a participação de todos os profissionais da escola, quando cada um apresenta o tema sobre o qual refletiu durante o ano. Esses trabalhos são sintetizados em quatro livros que a escola publica anualmente. "Dessa forma, todos podem conhecer as reflexões que ocuparam os demais colegas durante o ano que passou. É uma maneira de construir conhecimento em conjunto, gerir informação e socializar tudo isso", acrescenta Zélia.


Rompendo fronteiras

A exemplo da Escola da Vila, outros estabelecimentos mantêm centros de estudo, como o Prisma, do Colégio Santa Maria, e o Cevec, do Vera Cruz, ambos na capital paulista. O Prisma se define como "um espaço ideal para a capacitação pedagógica e aprofundamento dos estudos de quem se interessa pela educação", enquanto o Cevec defende a idéia de que "o bom professor é um eterno aprendiz". As duas escolas também mantêm uma programação anual de cursos abertos ao público externo (veja os endereços eletrônicos dos centros de estudo no fim da página). 


José Cláudio Terra, consultor: "É preciso trabalhar com outros modelos, especialmente em relação aos métodos de avaliação de professores e alunos"

Alguns estabelecimentos vão mais longe, literalmente, para garimpar experiências bem-sucedidas em outros países. É o caso do Pueri Domus, que possui seis unidades na capital de São Paulo e mais 150 escolas associadas em quase todos os Estados brasileiros, empregando cerca de 6 mil educadores. Segundo Eloisa Ponzio, diretora da área de formação contínua do Pueri Domus, nas mais de dez viagens internacionais já realizadas, buscaram-se "outras referências que forneçam um contraponto para ajudar a refletir sobre a realidade da escola brasileira". Entre outros países, a Itália e a Argentina foram visitadas recentemente pela equipe do Pueri Domus, com o objetivo de analisar um projeto de documentação pedagógica que a escola está implantando. "Em 2006, conhecemos uma escola argentina que também estuda esse tema, inspirada no modelo italiano. Em seguida, montamos um grupo de estudo em São Paulo e convidamos um educador argentino para conduzir um curso intensivo de documentação pedagógica, do qual participaram representantes de algumas das escolas associadas", conta Eloisa.

A partir daí, o grupo de estudo realizou encontros quinzenais para a produção da documentação pedagógica nas escolas. Em setembro, o grupo apresentará a conclusão do trabalho, com as melhores práticas de documentação, em seminário aberto ao público – ou seja, mais uma vez, outras escolas terão a oportunidade de se beneficiar do investimento realizado pelo Pueri Domus. "Temos a pretensão de ser um espaço de produção de conhecimento com o compromisso de socializar, senão não haveria sentido em realizar esse trabalho", argumenta Eloisa Ponzio.

As viagens internacionais, no entanto, são apenas uma etapa do projeto de gestão de conhecimento do Pueri Domus. No dia-a-dia, o trabalho nessa área tem o apoio de um grupo dos assessores pedagógicos que visitam regularmente as escolas associadas e montam um histórico dos temas discutidos em cada unidade. Em geral, depois de cada visita os assessores designam uma atividade para os professores, relacionada ao tema em discussão. "Vamos supor que o assunto tenha sido avaliação. Eles discutem as dúvidas, apresentam uma situação prática e deixam uma atividade, pressupondo-se que os professores devolvam para a assessoria um novo comentário a respeito da avaliação. Então, de avanço em avanço, cria-se um processo muito dinâmico, que sempre resulta em medidas práticas e, muitas vezes, inovadoras", diz Eloisa.

Para a diretora da área de formação contínua do Pueri Domus, todo esse esforço se destina a acumular conhecimento de forma sistematizada e evitar que o professor se torne um "repetidor", como ela define da forma mais pejorativa possível. "A concepção que temos de formação contínua de educadores parte da análise da prática deles e de uma reflexão sobre essa prática. Esse é o nosso foco principal. Entendemos que quando se aborda uma teoria mais ou menos complexa e o professor não a compreende, às vezes por falta de repertório, a tendência é dizer: não entendi, mas me diz como é que faz. Isso é bom, mas, quando o professor se transforma num repetidor, ele o faz sem saber exatamente o que está dizendo, e na primeira situação que escapa do que ele estava imaginando vai tudo por água abaixo", acrescenta Eloisa.


Resultados na rede

No Pueri Domus e na maioria das outras escolas que possuem centros de estudos, a internet é utilizada com eficácia como ferramenta de disseminação do conhecimento. Além de divulgar cursos e outros eventos, a rede abriga fóruns de debates de temas específicos de gestão e relatos de experiências que representam um rico manancial de informações sobre o meio educacional.   

O potencial da internet é destacado por José Cláudio Terra, presidente da TerraForum Consultores, empresa de consultoria e treinamento em gestão do conhecimento e tecnologia da informação. "A grande questão é pensar que, na área da educação, a gestão do conhecimento representa hoje a disposição de mudar completamente a lógica de como acessar o saber, como aprender, levando em consideração o uso de novas tecnologias como a internet, os portais, as comunidades virtuais, as ferramentas de interatividade que não existiam no passado", afirma.

Terra destaca que a internet mudou até mesmo o papel do professor, que, segundo afirma, não é mais o detentor exclusivo do conhecimento: "Os alunos hoje têm acesso a muitas informações a que as gerações anteriores não tinham, pois o meio digital tornou-se um imenso centro de troca de aprendizado. Nesse ambiente, o professor deixa de ser o único depositório do conhecimento para assumir outros papéis, como o de organizador de discussões on-line, por exemplo. Se descubro um site maravilhoso sobre a história do Egito, por que vou guardar isso para mim e não exerço um papel de gestor do conhecimento e transfiro essa informação para a classe, para toda a escola e para outras escolas?".


Eloisa Ponzio, do Pueri Domus: em busca de outras referências que sirvam de contraponto para pensar a realidade brasileira

Conhecimento, segundo Terra, não é um produto, e sim um método, uma abordagem. "No passado as empresas valorizavam a gestão da qualidade, de processos, e agora valorizam a gestão do conhecimento. É uma abordagem de gestão, que deve ser ampliada para as escolas", afirma. "É preciso mudar uma série de movimentos mentais e começar a trabalhar com outros modelos, especialmente em relação aos métodos de avaliação de professores e alunos", acrescenta.

Terra lembra que, na área corporativa, ocorre algo semelhante: "As empresas estão virando grandes escolas, e o desafio é fazer que os funcionários aprendam o tempo todo. Em alguns casos as empresas estão sendo mais efetivas do que as universidades em termos de métodos para que as pessoas aprendam. Por outro lado, na área da educação, várias escolas podem compartilhar um ambiente on-line, utilizado por todos, de forma a potencializar um universo de pessoas muito maior. Se alguém resolver aplicar esse processo, não teremos uma evolução: será uma revolução. Acho que esse é um desafio sério para as escolas, atualmente", completa.


SETE PASSOS PARA COMPARTILHAR OS SABERES

1-
O primeiro passo é avaliar com a equipe pedagógica o real interesse em promover um trabalho sistematizado de gestão do conhecimento. O alcance dessa tarefa deve ser dimensionado de forma realista e relacionar-se diretamente aos recursos disponíveis pela escola.


2-

Conheça os modelos já aplicados em outras escolas – nesse caso, basear-se em experiências bem-sucedidas é mais do recomendável, pois o contrário seria reinventar a roda.


3-

Inspiração não pode, nunca, ser sinônimo de cópia integral. Cada escola tem o seu próprio caldo de cultura, que deve ser respeitado. A palavra-chave é adaptação.


4-

Use e abuse da internet: vasculhe os portais das escolas que saíram na frente e registre as experiências mais bem-sucedidas. Se ainda não o fez, crie um site para a sua escola e tente utilizar todo o potencial que esse espaço oferece, com a participação efetiva de professores e alunos.


5-

Sempre que possível, agende a participação de educadores de sua escola em programas de capacitação e experiência. Depois, permita que eles se transformem em multiplicadores do conhecimento que adquiriram.


6-

Registre tudo o que ocorrer em sua escola, em termos de gestão de conhecimento.


7-

Como recomenda o consultor José Cláudio Terra, tente "mudar os movimentos mentais" e a lógica do acesso ao conhecimento.




ANOTE AÍ


Conheça os centros de estudo
. Escola da Vila:
www.vila.org.br/


. Pueri Domus:
www.pueridomus.br/


. Prisma:
www.colsantamaria.com.br/prisma/index.htm


. Cevec:
http://www.iseveracruz.edu.br/cevec.htm