NOTÍCIA

Edição 223

Inovação sob medida

Especialista no uso de tecnologias móveis na aprendizagem, John Traxler critica a disseminação de métodos globais e afirma que é preciso personalizar o ensino às necessidades de cada escola

Publicado em 04/11/2015

por Marta Avancini

 

© Arquivo pessoal
John Traxler: tecnologia pode promover uma educação mais participativa

 

Os projetos educacionais baseados no uso das tecnologias móveis estão fadados ao fracasso se não se pautarem pelo ambiente social e cultural do público a que se destinam. Essa é uma das conclusões a que chegou o professor John Traxler, da Universidade de Wolverhampton, na Inglaterra, ao longo de mais de uma década de pesquisas sobre o uso de dispositivos móveis na educação.

Além de professor de mobile learning, uma modalidade que utiliza tecnologias móveis como ferramentas educacionais, Traxler também é diretor-fundador da Associação Internacional para a Aprendizagem Móvel e diretor dos laboratórios de aprendizagem da universidade em que atua e da Fundação Half the Sky, que desenvolve programas de assistência e cuidado para crianças órfãs na China. Também é coautor, entre outras obras, dos livros Mobile learning: a handbook for educators and trainers e Mobile learning and mathematics, disponíveis apenas em inglês.

Suas pesquisas, realizadas principalmente em países da África e do Oriente Médio, têm como objetivo desenvolver, com a ajuda de dispositivos móveis, metodologias educacionais enraizadas nas localidades para as quais são concebidas. Além disso, dedica-se a temas como aprendizagem móvel para o desenvolvimento e inovações na educação a distância. Recentemente, Traxler visitou o Brasil para participar de um seminário organizado pelo Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (Lika), na Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe). Durante sua permanência no país, concedeu a entrevista a seguir à revista Educação.

O que é aprendizagem móvel? Consiste apenas em utilizar equipamentos móveis para atividades pedagógicas na escola?
Atualmente, prefiro adotar o termo “aprendizagem com tecnologias móveis” em vez de “aprendizagem móvel”, pois essa é uma expressão que diz respeito a um conjunto de pesquisas e a uma visão bastante difundida nos Estados Unidos e na Europa ocidental. Aprendizagem com tecnologias móveis diz respeito, simplesmente, à utilização de qualquer equipamento que possibilite a conexão do jovem com o conhecimento e promova o compartilhamento de ideias, informações, imagens etc.

É comum associar o uso da tecnologia na educação com equipamentos sofisticados, de ponta. No entanto, alguns dos projetos desenvolvidos pelo senhor se baseiam em equipamentos muito simples. Qual é a sua visão sobre o tema?
Existe uma crença, inclusive em pesquisas acadêmicas, de que quanto mais dinheiro se aplica, melhor a qualidade da educação. No entanto, essa hipótese nem sempre se confirma, inclusive no que diz respeito às políticas educacionais na área de educação a distância. A questão é trabalhar com as tecnologias que estão disponíveis e que atinjam o maior número de pessoas possível, inclusive as mais pobres. É preciso criar estratégias para usar os equipamentos que as pessoas utilizam em seu cotidiano, com o que é sustentável. Na África, procuramos atuar para melhorar a educação, buscando otimizar o uso dos recursos financeiros. Por exemplo, entre 2003 e 2005 participamos do desenvolvimento de um programa de formação de 200 mil professores no Quênia que usava o SMS como meio de transmissão de informações –  desde material e orientações de estudo aos professores até o envio de dados sobre as escolas aos órgãos de gestão. Um dos objetivos era promover o diálogo entre as comunidades, as escolas e as diferentes instâncias do sistema educacional. Se quisermos realmente fazer a diferença, precisamos adotar uma perspectiva mais inclusiva ou, em outras palavras, envolver o maior número de pessoas com a adoção de tecnologias robustas, com as quais elas estejam acostumadas e se sintam à vontade.

Ou seja, o uso da tecnologia na educação envolve mais do que incorporar os equipamentos na prática didática para ampliar o acesso à informação, ou para tornar as aulas mais agradáveis. A questão é aprender a manejar os sistemas tecnológicos e os equipamentos. É isso?
Sim, mas ao mesmo tempo é mais do que isso. O uso da tecnologia na educação não se limita à aprendizagem e ao consumo de informações, mas envolve o compartilhamento de imagens, opiniões e ideias com outras pessoas e comunidades. A tecnologia cria a possibilidade de uma educação mais participativa, mais democrática, na medida em que permite às pessoas se conectarem umas com as outras, e não apenas com seus professores, que durante muito tempo foram as autoridades responsáveis pela transmissão do conhecimento. Ao mesmo tempo, as escolas e universidades devem tentar formar pessoas para o mundo real, para o mundo tal como ele será daqui a 5, 10, 15 anos. Por isso, apenas incorporar os computadores à educação não é uma boa ideia. Precisamos pensar o que mundo real está fazendo com a tecnologia e como podemos preparar as pessoas para viver nesse mundo real. A tecnologia faz a diferença quando está alinhada à cultura local, com os valores locais e com as necessidades e expectativas de seus usuários.

No Brasil, os governos têm feito investimentos significativos em programas de informatização escolar, mas geralmente os equipamentos são subutilizados por deficiências de infraestrutura ou pela falta de conhecimento sobre como incorporá-los. Por que isso acontece?
Como esse tipo de impasse poderia ser solucionado? Provavelmente, esse não é um problema de tecnologia, nem de educação; é um problema de gestão, de organização. Também pode estar relacionado à maneira como tentamos fazer as mudanças. Geralmente, as políticas começam com um projeto-piloto que depois se expande, mas, na verdade, para que os programas sejam implementados com sucesso é necessário o emprego de diferentes métodos, vinculados às diferentes realidades, localidades e escolas. Além disso, muitos projetos que começam como um piloto e ganham escala acabam por se deparar com uma barreira financeira. Por isso, repito: é mais sustentável partir de uma posição que leve em conta as tecnologias que as pessoas têm e usam, analisar se esses equipamentos podem ser adotados na educação e, só então, fazer os grandes investimentos. A partir daí, dessa experiência, pode-se fazer uma avaliação se vale a pena investir grandes quantidades de recursos nos projetos.

O senhor defende então que, embora a tecnologia tenda a ser global, seu uso deve ser local? Como operacionalizar isso?
Há uma tensão para transformar a tecnologia em algo local, alinhado com as comunidades e os diferentes grupos sociais. É muito difícil porque organizações como a Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura], o Banco Mundial, a Usaid [Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional] estão interessadas na escala dos projetos e em iniciativas na área de educação que ajudam a propagar uma forma-conteúdo formatada pelos Estados Unidos e pelos países da Europa do Norte. Essas organizações trabalham com métodos que possam ser traduzidos e difundidos em todo o mundo. No entanto, talvez os métodos globais não sejam adequados às várias realidades que existem num país como o Brasil, por exemplo.  A meu ver, o grande desafio é tomar como ponto de partida os modos como as comunidades e as pessoas aprendem umas com as outras. É uma perspectiva diferente.

O senhor acredita que a tecnologia está, de fato, transformando as políticas e práticas educacionais? Ou se trata de mudanças superficiais?
De maneira geral, a tecnologia tende a permanecer na superfície. Existem pessoas e setores que estão realmente buscando uma transformação dos sistemas educacionais, mas os sistemas de ensino são muito complexos e neles existem professores, dirigentes e gestores conservadores, além de pais que acreditam que o mais efetivo é tornar os métodos tradicionais mais interessantes. Ou seja, essencialmente não há uma revolução da educação, apenas a tornam mais brilhante.

Então seguimos fazendo as mesmas coisas?
Sim, a tendência tem sido essa. A lógica dos grandes projetos, a maneira como eles funcionam ,acaba por induzir à sustentação das práticas mais tradicionais em educação. No entanto, os projetos pequenos, que envolvem um pequeno número de pessoas e não têm tanta visibilidade do ponto de vista da escala podem ser um caminho para que o sistema educacional torne-se, gradativamente, mais confiante no uso da tecnologia.

O que o senhor quer dizer com confiança? Por que ela é importante para o uso da tecnologia na educação?
Há um desafio enorme na compreensão, por parte dos professores das escolas e também das universidades, sobre o papel da tecnologia na educação, pois historicamente os professores ocupam a posição de autoridade. Eles são os detentores do conhecimento e têm a função de transmiti-lo. Mas atualmente muitas pessoas têm telefones celulares, têm acesso ao Facebook, à Wikipedia, ou seja, têm à disposição vários meios para ter contato com as pessoas, com os amigos e com a informação para dizer o que pensam e sentem. Se todos têm celulares e podem discutir com os amigos, aprendem a fazer coisas no YouTube, qual é o papel do professor? Nesse cenário, é fundamental que os professores se sintam mais à vontade com a tecnologia.

Essa falta de confiança está relacionada à resistência ao uso da tecnologia no ambiente escolar, por exemplo?
A mudança vai acontecer e a resistência vai diminuir, pois existem grandes forças sociais atuando para que o mundo siga nessa direção. As pessoas precisam de empregos, os políticos querem manter a economia ativa e a tecnologia está modificando a configuração da economia, do mercado de trabalho. As pesquisas que realizo sobre o desenvolvimento de estratégias de e-learning apontam para a necessidade de cada sistema de ensino criar seu próprio processo de alfabetização digital ou seja, um conjunto específico de habilidades, atitudes e comportamentos para que as pessoas sobrevivam e floresçam no mundo digital. Cada cultura necessita de um plano diferente tendo em vista o desenvolvimento dessas dimensões, pois as necessidades são distintas. As estratégias e ações adotadas nas universidades do Reino Unido não são adequadas para o desenvolvimento da alfabetização digital de refugiados palestinos de dez anos. Uma de minhas pesquisas atuais diz respeito à identificação de um sistema de ensino que possa ajudar crianças em campos de refugiados na Palestina a sobreviver no universo digital. Sobrevivência, aqui, não diz respeito apenas ao desenvolvimento de habilidades digitais necessárias para conseguir um emprego. Estou me referindo especialmente à cultura, às identidades, à arte, à poesia. Ou seja, estou me referindo à identidade e à cultura digital e ao florescimento das pessoas nesse universo. Nesse sentido, acredito que o melhor caminho é o da mudança grande e lenta, não o da mudança rápida.

Autor

Marta Avancini


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