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Lições de humanidade

A poesia cotidiana que se vê por aí


Não vá  por aí, que tem assaltante esperando!


Arrepiei caminho, com um sorriso de agradecimento para o moço que me lançara o aviso. Afagava um vira-lata esquálido, que retribuía, lambendo-lhe o rosto.

Mais adiante, um menino da rua remexia num caixote de lixo e dele retirava um pedaço de carne infecta. Sacudiu-o, para soltá-lo de pedaços de guardanapo de papel. Quando já abria a boca para engoli-lo, um transeunte foi junto do moço, deu-lhe dinheiro e afastou-se, em silêncio…

Cheguei, por fim, à escola que pretendia visitar. As lições de humanidade não cessaram. Retirante baiana, a Antônia chegou à grande cidade só com os andrajos que lhe cobriam o magro corpo. Não foi o amor, mas a fome, que a fez parir dez filhos, a juntar aos oito que o seu homem já fizera em outra mulher. Vai fazer cinquenta anos, mas tem no rosto as marcas de séculos de provações – mais de um século decorrido sobre a Lei Áurea, ainda existe uma cidadania que conhece, possui e tem poder e uma cidadania que nada possui, pouco conhece e nada pode. Há dez anos, o seu homem sofreu três derrames e caiu na cama para não mais se levantar. A Antônia cuida-o com o mesmo desvelo que dedica a um menino que uma jovem nordestina lhe confiou, antes de se perder nos atalhos da vida e da prostituição.


O meu menino é como o meu homem, não fala nem consegue andar dois passos, mas eu peço à senhora que o deixe vir para a sua escola. Vai ver que ele ainda assim consegue aprender…

Comovida, a diretora da escola abraçou a Antônia e garantiu-lhe que o Edilson seria bem tratado e aprenderia tudo o que pudesse aprender. A Antônia abriu no rosto um sorriso terno e desdentado e lá se foi de bem com a vida. E eu ali fiquei, num canto da sala, a voz amordaçada pela emoção, incapaz de responder à diretora, quando me dirigiu a palavra: É como canta o Milton, professor, "há que se cuidar do broto, para que a vida nos dê flor"…

Dizia o mestre Agostinho da Silva que não existem só poetas de verso. A ideia de que a pessoa tem de se dizer poeta, porque faz verso, não é verdade. Poeta é aquele que cria na vida alguma coisa que na vida não existia. Na minha peregrinação pelo Brasil das escolas, encontro poesia nos gestos mais simples, aprendo humanidade, deparo com beleza a todo o momento. E, no dia em que conheci a Antônia, aconteceu uma overdose… A Tatiane deixou uma mensagem no meu computador:
O que me move é o amor, pela vida, pelo outro e por acreditar nisto traço meu percurso enquanto educadora na emoção e no sentimento. Não posso basear minha ação pedagógica no sistema falho, devo baseá-la no ato vivo na emoção e na relação que estabeleço a cada dia. Para resgatar este outro que foi julgado, descriminado e rotulado…

Comenius, na Pampaedia, diz-nos: Nosso primeiro desejo é que todos os homens sejam educados plenamente em sua plena humanidade, não apenas um indivíduo, não alguns poucos, nem mesmo muitos, mas todos os homens, reunidos e individualmente, jovens e velhos, ricos e pobres, de nascimento elevado e humilde. Infelizmente, não parece que vamos nesse sentido. E, como alguém já disse, quando falha a educação, sobe à cena o polícia e o juiz…

Nas minhas peregrinações pelo Brasil das escolas, encontro muita e maravilhosa gente que busca realizar o desiderato de Comenius. A esperança – aquela que Pandora não deixou que saísse da sua caixa e cuja etimologia nos remete para a fé na bondade da natureza – manifesta-se em discretos gestos de educadores, que nos dão lições de humanidade.


José Pacheco


Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)



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