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Tecnicismo NÃO

O educador Jorge Huergo fala dos impasses para incorporar a comunicação na educação argentina

Atual diretor do Centro de Comunicação e Educação da Universidade Nacional de La Plata e diretor de Educação Superior da Província de Buenos Aires, o pensador argentino Jorge Huergo dedica-se a refletir sobre as relações entre esses dois campos. Organizador do livro Comunicação em Educação: Âmbitos, Práticas e Perspectivas (1997), esteve no Brasil em maio, por ocasião da Educar. Já de volta à Argentina, concedeu a entrevista a seguir a Educação.


Que tipo de práticas com utilização de meios como rádio e vídeo acontecem hoje na Argentina?

Diferenciam-se segundo os seus marcos referenciais. Algumas são impulsionadas por grandes empresas multimeios, como o Diario Clarín, que promovem uma suposta leitura ou recepção ativa dos meios. Outras são suscitadas por sistemas educativos formais, geralmente tendo os meios como instrumentos transmissores de conteúdos de ensino.

As mais criativas são as geradas de forma autônoma por docentes ou instituições, com freqüência com o uso do rádio. Nelas, trabalha-se com diferentes ênfases, mas é possível visualizar uma maior consideração da riqueza expressiva do meio e a possibilidade de ele articular-se com os interesses de crianças e adolescentes.

Há também uma grande variedade de práticas ligadas aos meios comunitários e a organizações sociais. Cabe assinalar, finalmente, a criação de um canal de TV educativa oficial: o Canal Encuentro. Ainda que não haja participação direta da audiência na produção, a programação educativa do canal possui grande riqueza de questionamento, expressão e estética.


Houve práticas que foram incorporadas de forma sistemática aos planos pedagógicos?

Houve a intenção de incorporar sistematicamente os meios nas escolas como instrumentos de transmissão ou difusão de conteúdos. Mas esses esforços se enquadram em uma pedagogia tecnicista ligada à reforma educativa neoliberal.


Quando começaram a ser introduzidas?

A partir da reforma educacional dos anos 90. Nesse período, tentou-se introduzir o computador nas escolas, mas em situações contraditórias e paradoxais. Por exemplo, distribuíam-se PCs em escolas que não tinham energia elétrica ou em que os professores tinham menos conhecimentos de seu uso que os alunos.


Qual visão de uso dos meios prevalece, a tecnicista ou as que privilegiam novas práticas educativas?

As práticas impulsionadas pelos governos nacional e das províncias têm um viés mais tecnicista. De um lado, reforçam, através dos meios e das tecnologias, a familiarização com essas novas gramáticas; de outro, acentuam a transmissão de saberes numa época em que os conteúdos educativos têm pouca legitimidade para os alunos. Ainda hoje se concebe esse sentido de distribuição de tecnologias nas escolas ou o incremento da conectividade dessas instituições.

As práticas que se geram a partir de grupos de professores e estudantes, ou por iniciativa do projeto educativo das instituições, geralmente tornam possível o pronunciamento de diferentes vozes e estéticas, dando vazão à expressão de subjetividades e problemáticas que preocupam os jovens. São freqüentes as experiências em que se vinculam esses interesses à história local e regional.


Como a maioria do professorado encara a utilização dos meios de comunicação em suas práticas?

Existe um temor duplo: dos equipamentos tecnológicos e das expressões subjetivas que eles ensejam. Há um interesse crescente por saber usar os meios pedagogicamente e alternativas e projetos governamentais nesse sentido. Mas também há escassez de espaços formativos em que se trabalhem duas questões: as transformações produzidas pela cultura das mídias em crianças e adolescentes, e o aproveitamento expressivo, estético e produtivo dos meios de comunicação e das tecnologias na educação. É freqüente observar estratégias centradas na recepção, mas não se sabe como produzir com riqueza expressiva e estética e com caráter educativo com os meios e tecnologias. O que faz com que se desperdice sua riqueza e que as produções educativas sejam chatas ou demasiado escolarizadas. 

(Rubem Barros)