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Uma fábula para crianças

Bastava que os ricos apagassem metade das suas velas. Mas…



Rubem Alves

No princípio era tudo escuro. Os deuses, sabedores da falta de sabedoria dos homens, trancaram-nos numa caverna . Era uma caverna muito grande, parecia não ter fim. Caverna fechada, sem entradas e sem saídas. Lá dentro era escuro e frio.

Foi então que um semideus chamado Prometeu teve pena dos mortais. Valendo-se da distração dos deuses, roubou-lhes o fogo e deu-o aos homens. Aceso o fogo, a caverna se iluminou e eles viram pela primeira vez. Mas Prometeu advertiu: "Não deixem o fogo morrer. Se ele morrer, a escuridão voltará. E então não poderei ajudá-los porque não sei a arte de fazer nascer o fogo. Somente os deuses a conhecem…"

Ditas essas palavras, Prometeu se foi. Mas os homens atentaram para sua advertência. Trataram de alimentar o fogo sem parar para que ele não apagasse. Fizeram mais: inteligentes e curiosos, acabaram por descobrir o segredo da arte de fazer fogo.

 Aí todo mundo queria possuir o fogo. Para que pudessem ter o seu fogo particular, inventaram as velas. Por onde iam, homens e mulheres levavam velas acesas nas mãos. A caverna se iluminou. Pelo poder do fogo nasceu então a culinária, a cerâmica, o vidro, a fundição dos metais, em resumo, a civilização.

Mas os homens descobriram mais: que o fogo mora em muitos outros lugares que não a madeira. No petróleo, nas quedas d’água, no vento, no carvão, nos átomos, no sol. E o calor do fogo aumentou. Pelo seu poder, as invenções se multiplicaram, trazendo conforto e riqueza para os moradores da caverna.

Passaram os homens então a medir a riqueza de cada um pelo número de velas que gastavam. Os que queimavam muitas eram ricos; os que queimavam poucas (ou nenhuma) eram pobres. 

Mas a caverna, que era muito grande, tinha limites. Era uma caverna fechada, sem saídas. A fumaça que as velas produziam não podia sair. Os mais ricos eram os que produziam mais fumaça.

À fumaça acrescentou-se o calor. Era simples resolver o problema: bastava que os ricos apagassem metade das suas velas. Mas isso eles não admitiam de jeito nenhum. "O progresso não pode parar. É preciso crescer, crescer sempre…"

Reuniram-se, então, num cantinho chamado Kioto aqueles que perceberam que a caverna estava se transformando num forno. Queriam que os que tinham as velas acesas diminuíssem o número de suas velas. Mas o maior consumidor de velas, chamado Bush, bateu o pé e disse: "Das minhas velas eu não abro mão…" (Mas bem baixinho, entre nós, mesmo os que concordaram no papel continuaram a acender velas…)

Só tarde demais os ricos se deram conta de que a caverna virara um forno. Morreram torrados como leitões no forno que eles próprios haviam construído…
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Todo organismo, para viver, tem de ter meios para colocar para fora os resíduos tóxicos que a vida produz: fezes, urina etc. Mas a Terra é um organismo sem ânus… Por isso morrerá.
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Se minha memória não me trai, Noah Gordon no livro O último judeu relata que a inquisição espanhola assava os judeus em fornos parecidos com nossos fornos de barro. Aprendemos deles.