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A autoridade de fora

Os detentores de poderes se distinguem por meio de símbolos consagrados

Publicado em 10/09/2011

por Rubem Alves

Há dois tipos de autoridade: autoridade imposta e autoridade reconhecida. Ambas estão presentes nas escolas. A autoridade imposta deforma a inteligência porque se realiza através do medo. O seu símbolo são as gaiolas. A autoridade reconhecida, ao contrário, liberta a inteligência porque se realiza através da admiração. O seu símbolo são as asas.

Quando eu era pequeno, morava perto da cadeia. Dentro das grades estavam os presos. Do lado de fora, estavam os soldados que os haviam prendido e os mantinham presos. Eu os olhava nas suas fardas e sabia que aquelas fardas os distinguiam das demais pessoas. Eram símbolos de autoridade. Eles podiam fazer o que o comum dos homens não podia fazer. Eles podiam prender as pessoas – ninguém mais tinha autoridade para tanto –  e na minha fantasia infantil, eu pensava que eles poderiam me prender.

Prender um menino por quê? Um menino, sem que eu me desse conta disso, era símbolo daqueles que não têm poder e que, por isso mesmo, estão à mercê daqueles que têm poder.

Acho que, já naquele tempo, suspeitava que o poder tinha algo de arbitrário. Quem sabe de sádico?  A autoridade, pelo poder que possui, pode exercê-lo sem ter razões. Quem tem autoridade pode… A autoridade freqüentemente está associada à impunidade. Eu passava longe dos soldados, com medo…

A autoridade se distingue daqueles que não têm autoridade por meio de símbolos, da mesma forma como os soldados da polícia se identificam por suas fardas.

Os símbolos podem ser materiais ou podem ser simplesmente nomes. Mas a sua função é a mesma: mostrar quem tem poder.  Um capitão do exército se distingue pelas três estrelas que traz no seu ombro. Um juiz do Supremo Tribunal se distingue pela beca que usa.  Anéis com pedras preciosas específicas também são usados por certas profissões para anunciar sua autoridade. Os símbolos-nomes podem ser "doutor",  para os professores universitários que defenderam tese,  "bacharel" para delegados (que também carregam, como símbolos físicos, o distintivo e a pistola), "excelentíssimo" para os deputados e presidentes e "magnífico" para os reitores.    

O dicionário Webster assim define "autoridade": "L. auctoritas, de ‘auctor’, autor. Poder legal ou direito de ordenar e agir".

Essa é uma autoridade que vem de fora, por força de uma lei. Ninguém pode dar autoridade a si mesmo.  O guarda de trânsito que aplica uma multa, o policial que prende um suspeito, um professor que reprova um aluno, um  pai que matricula seu filho numa escola, um médico que  prescreve um medicamento controlado, um carrasco que enforca um condenado, o papa que excomunga um herege, todos fazem o que fazem em decorrência de uma lei que lhes dá autoridade para fazê-lo.

Essa autoridade, tal como definida pelo Webster, não depende do caráter da pessoa portadora de autoridade. Não são as virtudes da pessoa que lhe dão autoridade. A autoridade pertence ao ofício que a pessoa exerce e não a ela mesma. O guarda de trânsito tem autoridade para aplicar a multa mesmo que bata na mulher, e o médico tem autoridade para prescrever a receita mesmo que seja viciado em cocaína. 

O nome "professor" define uma autoridade. Um professor tem poder. Era assim e ainda é em muitas escolas.

(
Leia na próxima edição, o texto

"A autoridade de dentro")


Rubem Alves

Educador e escritor

rubem_alves@uol.com.br

Autor

Rubem Alves


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