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A renovação do espaço

A Biblioteca Mario de Andrade, referência cultural paulistana, em imagens que mostram as interferências arquitetônicas no tradicional prédio art déco

Publicado em 10/09/2011

por Texto e fotos: Gustavo Morita

Como fazer para que um equipamento público com mais de 80 anos, cuja imagem já estava mais do que sedimentada entre a população, pudesse reconquistar sua vitalidade e cumprir a função de oferecer, com qualidade e segurança, acesso a um acervo de 3,3 milhões de volumes para leitura? 

Foi a partir desta questão central que os responsáveis pela Biblioteca Mario de Andrade, a segunda maior do Brasil, só ficando atrás da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, direcionaram a reforma do prédio localizado no centro de São Paulo, na confluência da rua da Consolação com a avenida São Luiz, com os fundos voltados à praça Dom José Gaspar.

Depois de três anos e meio de obras, a principal biblioteca paulista foi reaberta no aniversário da cidade, em 25 de janeiro deste ano. Parte dela, é verdade, já havia sido entregue em julho do ano passado. Justamente uma das áreas que distinguem o edifício "repaginado" da versão que o antecedeu: o espaço circulante, que oferece livre acesso ao acervo e se destina à leitura, pesquisa e empréstimo de obras.

Localizado no nível térreo do prédio, o espaço ganhou um mezanino, aproveitando a amplitude de seu pé- direito, que permitiu aumentar em 100% a capacidade da coleção circulante, que hoje é de 42 mil volumes.  A iluminação foi trabalhada de forma a potencializar a luz natural. Há pufes próximos às estantes para quem está em busca do volume mais adequado.

As áreas de circulação também aumentaram com a criação de um corredor envidraçado que faz com que o interior do edifício e a parte externa, em especial a praça Dom José Gaspar estejam visualmente interligados.


Logística complexa



A reforma exigiu que a etapa de planejamento fosse bem pensada, pois o acervo, além de precisar ser tratado, recuperado e higienizado, também deveria passar pela menor movimentação possível, ação que poderia danificá-lo. Assim, a melhor solução foi deslocar o acervo de periódicos, que ocupava 1/3 do espaço total da biblioteca, para duas outras unidades da prefeitura, a Biblioteca Prestes Maia, em Santo Amaro, e a Adelpha Figueiredo, no Canindé. Parte desse acervo, que no total tem 3 milhões de fascículos, está passando por avaliação e catalogação para que fique disponível no sistema on-line Alexandria, da rede municipal de bibliotecas.  

Uma vez livre o espaço que ocupava essa coleção, os livros puderam ser movidos à medida que cada uma das áreas do prédio era reformada. No processo de diagnóstico, constatou-se que havia falta de espaço útil para que o acervo crescesse, constatação que levou à construção do mezanino para o espaço circulante.

Além da questão logística, a reforma trouxe uma questão mais conceitual para o Piratininga Arquitetos Associados, escritório responsável pela obra: a partir de que parâmetros trabalhar a integração do projeto original do prédio, no estilo art déco,  assinado pelo francês Jacques Pilon, com os parâmetros arquitetônicos e necessidades atuais.

Segundo a arquiteta Renata Semin, que assina o projeto com José Américo de Brito Cruz, a linha adotada foi "a de não tentar mimetizar o projeto original". "Tentamos interpretar as grandes linhas do projeto – proporções, tratamento dos materiais aplicados, espacialidades – e fazer com que os elementos novos fossem justapostos aos de origem, com condições de reversibilidade."

Essa justaposição permite aos estudiosos atuais e futuros distinguir o que é próprio de cada época em termos de projeto e técnicas construtivas, dando-se condição de identificar essas diferenças pelo olhar. Até que os anos e, espera-se, o uso contínuo pelo maior número possível de leitores exijam uma nova reforma.

Crescimento constante

Inaugurada em janeiro de 1926, então com o nome de Biblioteca Municipal de São Paulo, a Biblioteca Mario de Andrade passou por diversas mudanças de endereço, normalmente relacionadas à adequação da estrutura física para receber um acervo sempre crescente.

Seu primeiro endereço foi na rua Sete de Abril e, ao ser aberta, contava com 92 lugares de pesquisa e um acervo de 15 mil volumes. Em 1936, começa a expansão para outras unidades. Eram os tempos em que o escritor Mario de Andrade estava à frente do Departamento de Cultura e Recreação da prefeitura. No mesmo ano, o prefeito Fábio Prado libera recursos para a compra do imóvel atual, onde manda construir o prédio, finalizado em 1942.

Durante esses 85 anos, o acervo da biblioteca cresceu por meio de doações e aquisições. Pautados pela crescente falta de espaço, diversos prefeitos discutiram projetos de intervenção no prédio. Durante a gestão da ex-prefeita Marta Suplicy, por exemplo, o arquiteto Fábio Penteado tentou construir quatro subsolos para abrigar obras excedentes. O projeto nunca saiu do papel.

Autor

Texto e fotos: Gustavo Morita


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