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Daqui a pouco eu faço

As razões da indolência que acomete os adolescentes e as questões escondidas sob esse manto aparente da preguiça

Publicado em 10/09/2011

por Beatriz Rey

As duas primeiras tentativas de estabelecer contato com adolescentes para esta matéria denunciaram a necessidade de escrevê-la. Arthur, 14 anos, e Gabriel, 16 anos, desfrutavam na tarde de uma quarta-feira do famoso sono da tarde. Depois da escola e do almoço em casa, os dois tiravam um cochilo porque estavam cansados. "É melhor você ligar depois das 14h30, porque ele sempre dorme à tarde", disse a mãe de Gabriel.

Dispersos, com pouca concentração e capacidade de memorização, desapegados dos deveres da escola e das tarefas domésticas e, claro, sonolentos. A preguiça pode aparecer sob diversas formas na adolescência. Mas, afinal, quais as causas reais desse conhecido estado de prostração e moleza que parece se apoderar de muitos jovens – especialmente aqueles de classe média, desobrigados de trabalhar – quando chegam a essa fase da vida?

O primeiro passo para entender a preguiça adolescente é aceitar que adolescente não é mais criança, mas também ainda não é adulto. A frase parece óbvia, mas não é. Ela implica compreender a enxurrada de mudanças hormonais e emocionais pelas quais passam os meninos e meninas de 12 a 18 anos. "Não podemos olhar o adolescente como adulto. Ele está em um período que exige uma certa parada, para dar conta de todos esses processos", esclarece a psicóloga Rosely Sayão. Para ela, os momentos em que o adolescente fica quieto, sem fazer nada, podem ser exatamente os momentos em que se processa essa indecisão entre o mundo infantil e o mundo adulto.

Essa fase de transformações aceleradas também se reflete em outro aspecto fisiológico. Há um ano, a psicóloga Mônica Valentim estudou, em sua tese de mestrado pela USP, a possibilidade de a preguiça ser a causa de problemas na adolescência. Mônica entrevistou 125 adolescentes em Botucatu, no interior de São Paulo, e concluiu: 67,3% deles afirmam que ficaram mais preguiçosos depois que se tornaram adolescentes. Quando questionados sobre os motivos da preguiça, 63,4% dizem que a falta de sono é a culpada. "A adolescência é uma fase em que se precisa de mais energia, mas paradoxalmente, é a fase em que se dorme menos", diz Mônica. Além de todos os estímulos tecnológicos que já atraem os adolescentes para um sono tardio, é nessa fase que o pico de melatonina – neuro-hormônio produzido pela glândula pineal, responsável pela regulação do sono – acontece com uma hora de atraso. Na prática, o adolescente precisaria de, no mínimo, mais uma hora de sono para compensar o atraso. Ou duas, como defende a responsável pelo setor de Crianças e Adolescentes do Instituto do Sono da Unifesp, Márcia Pradella. Associada ao pico tardio do hormônio, diz ela, está a necessidade de dormir inerente da fase de crescimento. "O que aconselho é que em vez de os pais dizerem ‘você é preguiçoso’, é melhor dizer ‘vá dormir mais cedo’." Para ela, é necessária uma reeducação dos adolescentes – a maioria dos casos que Márcia atende no Instituto do Sono vem da incompatibilidade dos horários fisiológicos com os horários sociais. "Não pode ficar no computador até tarde. Uma hora antes de dormir, é preciso desligar os aparelhos. Assim, o cérebro não é enganado pela luz clara, que mostra que o corpo ainda está acordado", explica.


Preguiça quando convém?


Katherine é o apelido da adolescente Iasmin Helena Silva, 13 anos, no site AnimeSpirit, um portal de animação japonesa. Iasmin mora em Cruzeiro, no interior de São Paulo, e é administradora de uma comunidade no portal chamada "Preguiçosos…". Criado em setembro de 2007, o grupo já reúne 63 pessoas e foi concebido para abrigar as que dormem na aula ou "ficam no mundo da lua nas aulas de matemática", nas palavras da própria Iasmin. Um dos tópicos de discussão da comunidade responde à pergunta "O que te deixa mais preguiçoso?". Uma adolescente desabafa: "Tenho preguiça de estudar, fazer as tarefas, de lavar a louça. Tenho preguiça de acordar pra ir ao colégio, tipo acordo todo dia às 5h30. Isso é problemático". Em seguida, outra resposta: "Achei o meu lar", em referência à comunidade. Desabafos assim são comuns. Gabriel, o adolescente que dormia numa quarta-feira à tarde, também confessa: "Tenho preguiça de estudar e de lavar a louça". Para Rosely Sayão, essa inércia aparentemente inata à adolescência quando o assunto é escola e tarefas domésticas é fruto de dois comportamentos. O primeiro é do próprio adolescente, ainda indeciso entre a infância e a vida adulta. "Responsabilidades como "lavar a louça" e "estudar" fazem parte da vida adulta. Preguiça de fazer "o que não é legal" mostra uma certa resistência dos jovens de se assumirem como adultos", explica.

O outro comportamento que colabora com a preguiça na hora de encarar tais tarefas é a falta de exigência de pais e educadores quando o assunto é responsabilidade. "A responsabilidade não foi ensinada a eles desde a infância. E mesmo que tenha sido ensinada, nesse momento deve ser cobrada e exigida", lembra. Com a falta do ‘senso responsável’, os adolescentes acabam buscando o prazer imediato. Não é à toa que 62,5% dos entrevistados por Mônica Valentim para sua tese dizem ter preguiça de fazer tarefas domésticas – enquanto 78,8% nunca têm preguiça de namorar e 70,1% dizem não ter preguiça de ficar na internet e comer.


Iasmin, de Cruzeiro, interior de São Paulo: portal de adolescentes preguiçosos na internet já reúne 63 pessoas

O diretor do ensino médio do Colégio Santa Maria, João Luiz Muzinatti, tem contato diário com os 270 adolescentes da escola. A partir de muita observação e diálogo, chegou a outra teoria: preguiça na adolescência é sinônimo de uma busca vazia. Aos olhos juvenis, o mundo seria desprovido de sentido – o que se aplica também às suas tarefas diárias. Ele explica. "Quando o adolescente não vê uma lógica no mundo, e fica sem meios para intervir nele, há uma energia que não tem para onde fluir, e deságua na preguiça", afirma. Nessa visão, quando o jovem diz que "tal tarefa é um saco", está apenas demonstrando que não enxerga sentindo no que está fazendo. Mas essa falta de sentido pode vir, mais uma vez, dos pais. "É comum ver adultos reclamando da vida e de suas responsabilidades. O adolescente pode ser um reflexo disso: se os pais já vivem mal, para que seguir o mesmo caminho?", indaga Rosely Sayão. Para a psicóloga, a preguiça adolescente pode ser também isso: uma maneira de evitar tudo o que esteja associado com a vida complicada dos pais.


Vagabundagem e depressão

Mas e quando a preguiça beira a chamada "vagabundagem"? Quando essa falta de responsabilidade chega a níveis extremos, que resultam num adolescente apático, sem ambição e sem vontades? Antes de qualquer coisa, é preciso adequar os conceitos: vagabundagem é um termo usado apenas para adultos. "Repito: não podemos olhar o adolescente como olhamos o adulto", alerta a psicóloga. O que Rosely identifica também é um tédio generalizado nos jovens, proveniente do fato de que não foram ensinados a conquistar o que querem. "A muitos jovens não se ensinou a batalhar. Eles precisam saber que quem não tem uma batalha não se apropria das coisas. Fica para trás, enquanto a vida vai acontecendo", aponta. Outro cuidado: comparar preguiça adolescente com depressão pode ser perigoso. Para a professora do Instituto de Psicologia da USP Ivonise Fernandes da Motta, a depressão tem um tom pesado de mal-estar, mau humor e indisponibilidade para tudo – já a preguiça nessa idade acompanha uma moleza, uma tendência a dormir mais e se retrair. "Podemos ver a depressão com um tom preto e a preguiça com um tom bem mais ameno", explica.

Autor

Beatriz Rey


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