É urgente que a formação docente seja transformada em estratégia institucional baseada em evidências
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Início de ano letivo. Calendários organizados, auditórios reservados, plataformas abertas. As instituições de ensino superior retomam um de seus rituais mais tradicionais: a formação de professores. Tudo pronto. Mas, em meio a tantos esforços, uma pergunta precisa ser feita, ainda que nem sempre seja confortável: como, afinal, demonstramos o valor e o impacto institucional da formação docente?
Escrevo como formadora de professores e executiva há mais de quinze anos, acompanhando de perto programas de desenvolvimento docente em diferentes contextos institucionais. Vi formações brilhantes em conteúdo, sofisticadas em metodologia, engajadoras em formato, amplamente elogiadas nos feedbacks finais e, ainda assim, incapazes de sustentar seu valor estratégico quando confrontadas com decisões orçamentárias, auditorias, avaliações externas ou reuniões de conselho.
Como formadora, sempre dialoguei com a equipe gestora buscando alinhar expectativas, traduzir necessidades e construir propostas viáveis. Ao longo desse percurso, acompanhei também iniciativas simples, quase invisíveis, que transformaram práticas pedagógicas, reduziram retrabalho e elevaram a qualidade acadêmica de forma consistente.
Mas é da perspectiva executiva que essa inquietação ganha outra densidade. Não basta formar bem, precisamos demonstrar valor. Tempo, dinheiro, energia institucional e capital humano estão em jogo. Em um cenário de crescente pressão regulatória, restrições orçamentárias e cobrança contínua por resultados, a formação docente já não pode ocupar o lugar confortável de “ação necessária, porém intangível”. O que não se sustenta por evidência tende a se sustentar apenas por discurso, e discursos, por mais legítimos que sejam, têm prazo de validade.
Essa preocupação não é apenas prática. Ela é amplamente reconhecida na literatura internacional. A Unesco aponta que a demanda por accountability educacional exige que programas formativos avancem da legitimidade simbólica para a evidência concreta de impacto institucional, mesmo em contextos nos quais os dados finais ainda não estão plenamente disponíveis (Unesco, 2020).
Tradicionalmente, as IES avaliam suas formações a partir de perguntas recorrentes:
• O professor gostou?
• O conteúdo foi relevante?
• O formador foi bem avaliado?
Essas perguntas não são irrelevantes, mas são claramente insuficientes. Elas medem reação, não resultado. Medem satisfação, não impacto. E, definitivamente, não medem valor institucional. Quando a avaliação da formação se encerra no engajamento ou no NPS, corre-se um risco conhecido: transformar o desenvolvimento docente em centro de custo permanente, constantemente defendido por argumentos pedagógicos legítimos, porém raramente sustentado por evidências estratégicas.
Esse diagnóstico é consistente com o que apontam Bothell e Henderson (2004) ao analisarem programas de desenvolvimento docente no ensino superior. Segundo os autores, avaliações restritas à reação dos participantes produzem conforto institucional, mas pouco dizem sobre valor organizacional, pois ignoram a mudança efetiva de comportamento e seus efeitos sistêmicos.
Aqui está uma virada conceitual que muitas instituições ainda resistem a fazer: capacitação docente, assim como qualquer outro treinamento, não gera valor institucional de forma direta. O que gera valor é a mudança de comportamento profissional que a formação provoca e os efeitos dessa mudança nos processos acadêmicos, na qualidade do ensino e na eficiência institucional.
Essa distinção desloca o foco do “evento formativo” para a aplicação real. Ela nos obriga a fazer perguntas mais exigentes, porém inevitáveis:
Sem responder a essas perguntas, não há demonstração de impacto, apenas boas intenções. A literatura sobre desenvolvimento docente confirma que a ausência de instrumentos para monitorar a prática pedagógica pós-formação é um dos principais fatores de fragilidade das políticas de formação continuada, inclusive no contexto brasileiro.
Um equívoco recorrente é supor que demonstrar valor institucional signifique reduzir a formação docente a métricas exclusivamente financeiras. Valor institucional, no contexto educacional, significa traduzir impacto pedagógico em evidências que façam sentido para os espaços de decisão.
Esse valor pode, e deve, ser demonstrado por meio de indicadores concretos, observáveis e defensáveis, como:
A Unesco (2020) é explícita ao afirmar que modelos de mensuração de valor educacional devem considerar benefícios tangíveis e intangíveis, desde que metodologicamente validados e contextualizados ao estágio de maturidade dos dados institucionais.
Porque, no fim, o que não é evidenciado não desaparece, mas se torna indefensável. E, em contextos de escassez e priorização estratégica, aquilo que não se consegue defender tende a ser descontinuado.
Demonstrar valor pode começar com pilotos controlados, testes de premissas e com novos instrumentos que são aperfeiçoados com a análise dos próprios dados.
Cursos novos, trilhas específicas ou programas com forte aplicação prática, como formação em metodologias ativas ou uso pedagógico de inteligência artificial, são excelentes pontos de partida. Não acredito em número ou fórmula perfeita, mas a uma demonstração de valor defensável, construída com premissas claras, escolhas conscientes e transparência metodológica, exatamente como recomenda a Unesco em contextos de baixa maturidade de dados.
Volto, então, à pergunta inicial, agora com mais camadas: se sabemos que a formação docente é essencial, por que ainda temos tanta dificuldade em demonstrar seu valor e impacto institucional?
Talvez porque isso nos obrigue a olhar para o que realmente muda, e para o que não muda, após nossas formações. Talvez porque demanda mais trabalho analítico do que gostaríamos de assumir. Ou talvez porque, por muito tempo, a educação tenha se acostumado a se justificar apenas por sua nobreza, e não por sua efetividade.
Formar professores continuará sendo altamente relevante, necessário e genuinamente imprescindível, mas transformar essa obrigatoriedade em estratégia institucional baseada em evidências é o próximo passo que não pode mais ser adiado.
Demonstrar o valor da formação docente não significa reduzir números. É garantir que aquilo em que intencionamos esteja, de fato, produzindo o impacto institucional que esperamos.
BOTHELL, Timothy W.; HENDERSON, Tom. Evaluating the return on investment of faculty development. In: TO IMPROVE THE ACADEMY. Bolton: Anker Publishing, 2004.
UNESCO. Understanding the return on investment from TVET: a practical guide. Paris: United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 2020.
Por: Thuinie Daros | 07/01/2026