Revista Ensino Superior | Oportunidades da economia azul na educação

Cultura Oceânica

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Cultura Oceânica

Entenda a importância de levar o oceano para a sala de aula

Oportunidades da economia azul na educação

No ensino superior, ignorar o oceano compromete a capacidade do Brasil de competir, inovar e exercer liderança

Economia azul foto: Shutterstock

Por Ana Vitória Tereza de Magalhães*

 

Durante décadas, o oceano ocupou uma posição marginal no planejamento estratégico educacional, tanto no Brasil quanto no mundo. Apesar de ser um pilar essencial para a economia global, para o funcionamento climático do planeta e para os sistemas alimentares, o mar permaneceu por muito tempo distante das políticas educacionais e do imaginário acadêmico.

Nos últimos anos, esse cenário começou a mudar. Iniciativas como a Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021–2030) e o Currículo Azul, liderado pela Unesco em nível global e implementado no Brasil em parceria entre o MCTI e o MEC, reposicionaram o oceano como tema pilar na educação.

A economia do oceano movimenta cerca de US$ 3 trilhões globalmente por ano em valor agregado, envolvendo setores como transporte marítimo, turismo costeiro, energia, pesca, aquicultura e serviços ecossistêmicos. Apesar da dimensão da economia do mar, as carreiras azuis ainda permanecem amplamente desconhecidas da maioria das pessoas e em especial dos jovens. Com exceção de jovens que vivem em cidades costeiras ou têm relação direta com o mar, uma grande parte dos estudantes brasileiros desconhece as possibilidades de atuação profissional ligadas ao oceano, tanto na graduação quanto na pós-graduação. Isso levanta uma questão central para o ensino superior: estamos preparando os jovens para assumir o protagonismo que o oceano brasileiro terá nas próximas décadas?

 

Leia: Por que o oceano precisa entrar nas salas de aula

 

Os dados ajudam a dimensionar o desafio. O Brasil, banhado pelo Oceano Atlântico, possui aproximadamente 7.491 km de litoral e uma Zona Econômica Exclusiva de cerca de 3,5 milhões de km², conhecida como Amazônia Azul, uma área maior que os territórios da Alemanha ou da França. Segundo a Marinha, é pelo mar que circulam cerca de 95% do comércio brasileiro, incluindo commodities do agronegócio, minérios e petróleo, escoados por portos como Santos, Açu, Paranaguá, Itapoá, Portonave, Itaguaí, Rio Grande, Suape e Rio de Janeiro.

Essas cadeias logísticas conectam o Brasil ao resto do mundo, mas em especial com a América do Norte e a Ásia. Grãos como soja, café, arroz, feijão, frutas e até açaí percorrem milhares de milhas até chegar aos nossos maiores consumidores, os chineses, seguidos pelos americanos e argentinos. Ao longo dessas rotas, milhares de pessoas são empregadas e inúmeras cadeias produtivas se interligam, entre terra e mar. O agronegócio brasileiro, por sua vez, é intrinsecamente dependente do oceano, não apenas para o escoamento da produção, mas também para a regulação climática proporcionada pelo Oceano Atlântico, essencial para a estabilidade das chuvas e da produtividade agrícola.

Ao mesmo tempo, setores como o turismo costeiro seguem em expansão. Globalmente, o turismo é o maior setor da economia azul em valor, gerando cerca de US$ 725 bilhões por ano, segundo a UNCTAD. Destinos com praias são geralmente os mais procurados por turistas, tendo uma preferência de 35% de viagem. A combinação de praias extensas e sol presente durante praticamente todo o ano torna o Brasil um destino singular para o turismo internacional, ocupando um lugar de destaque no imaginário dos estrangeiros que escolhem o país como referência para suas férias. Nesse contexto, profissões como turismo, hotelaria, hospitalidade, marketing, gestão e sustentabilidade desempenham papel nas carreiras azuis e precisam de profissionais qualificados quanto à sustentabilidade do oceano, contribuindo para a qualificação da experiência turística, melhoria dos serviços e para o desenvolvimento econômico e social das regiões costeiras.

 

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Todas estas dimensões econômicas do oceano, ainda tendem a crescer mais. De acordo com projeções da OCDE, se mantidas as tendências históricas, a economia azul global poderá ser quase quatro vezes maior em 2050 do que em 1995. Esse crescimento exigirá mão de obra altamente qualificada, profissionais que entenderão os desafios relacionados às mudanças climáticas e atentos às dinâmicas específicas e multipotenciais das carreiras azuis. Caso contrário, países como o Brasil correm o risco de perder competitividade.

Embora, no Brasil, a economia azul represente cerca de 20% do PIB nacional, o equivalente a aproximadamente R$ 2 trilhões por ano gerados direta ou indiretamente a partir do mar, a magnitude desse patrimônio ainda raramente se traduz em políticas educacionais estruturadas voltadas ao oceano e às profissões associadas à economia azul. Mesmo contando com mais de 279 municípios litorâneos, os conteúdos relacionados à cultura oceânica permanecem escassos na educação básica e muitos professores ainda não são suficientemente treinados para ensinar sobre o assunto. Destes mesmos municípios, poucos possuem cursos relacionados ao mar no ensino superior, limitando a formação de profissionais capacitados para atuar de forma sustentável nesse setor tão estratégico para o país.

Segundo o High Level Panel for a Sustainable Ocean Economy, uma economia azul sustentável pode gerar até 51 milhões de novos empregos até 2050, elevando o total global para cerca de 184 milhões de pessoas empregadas direta ou indiretamente. Atualmente, estima-se que pelo menos 133 milhões de pessoas já atuem formalmente nesse setor.

 

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Nesse ponto, surgem perguntas fundamentais que ainda carecem de respostas no Brasil:

Quantos cursos de graduação e pós-graduação estão diretamente ligados à economia azul? Quantas vagas esses cursos oferecem e quantos estudantes se formam anualmente nessas áreas? Quais são as taxas de empregabilidade dos egressos das carreiras azuis? Quais profissões enfrentam maior déficit de mão de obra no setor marítimo e costeiro? E como se comparam os salários dessas carreiras em relação a setores similares em terra? Os alunos que se formam anualmente, continuam a trabalhar com o oceano ou fazem uma transição de carreira para áreas mais rentáveis? Os cursos estão alinhados com uma visão do Brasil, a longo prazo? Para todas estas perguntas, precisamos de respostas se quisermos que o país se estabeleça como uma potência da sustentabilidade. 

Porém, as lacunas não estão apenas aqui. Estudos internacionais apontam lacunas ao redor do mundo, persistentes: descompasso entre competências ensinadas e demandas do setor, baixa articulação entre universidades e indústria, limitada atratividade das carreiras azuis, falta de interesse dos jovens e ausência de uma cultura oceânica consolidada. Na América Latina, essas fragilidades são agravadas por uma governança oceânica fragmentada e falta de visão relativa ao potencial do oceano para uma economia sustentável.

 

Tendências no ensino da sustentabilidade em 2026

 

Para efeito de comparação, a economia azul da União Europeia é tratada como motor central de crescimento sustentável. Em 2023, o setor gerou cerca de € 263 bilhões em valor agregado bruto e empregou aproximadamente 4,9 milhões de pessoas. Desde 2017, a Comissão Europeia mantém um grupo de especialistas dedicado à educação e formação na economia azul, reforçando a importância estratégica desse tema e da cultura oceânica. Não é um nicho de mercado, mas um setor consolidado da economia, e tem a mesma atenção que outros setores como agrícola, tecnológico ou industrial.

Há um recorte de gênero incontornável na economia azul. As mulheres seguem sub-representadas em cargos técnicos e de liderança, recebem salários inferiores e são desproporcionalmente afetadas pelas mudanças climáticas e pela insegurança alimentar, segundo a ONU. Embora haja maior participação feminina em alguns segmentos, a sobrecarga de responsabilidades sociais e familiares ainda limita o acesso equitativo às oportunidades. A falta de dados sistematizados reforça a invisibilidade dessas desigualdades, indicando que a economia azul reproduz disparidades de gênero presentes em outros setores. Integrar políticas do mar com a perspectiva de gênero é, portanto, essencial para promover inclusão, competitividade e avanços na agenda ESG.

O oceano representa uma das últimas grandes fronteiras do conhecimento, do trabalho e da inovação. Ignorá-lo no ensino superior compromete a capacidade do Brasil de competir, inovar e exercer liderança em um mundo cada vez mais orientado para o mar. Preparar as próximas gerações para esse futuro não é apenas uma escolha estratégica, mas uma necessidade para um país com a dimensão territorial e a extensa costa atlântica que possuímos.

 

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Ana Vitória Tereza

 

*Ana Vitória Magalhães é consultora internacional e especialista em cultura oceânica, com trajetória marcada por atuações na ONU, Unesco e Comissão Europeia. Integrou a equipe responsável pela criação do programa global Escola Azul.

Por: Cultura Oceânica | 09/01/2026


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