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Gestão local

Responsável pela administração e pelo orçamento de sua rede de escolas, o município de Helsinque se depara com um novo desafio: os imigrantes


Crianças na escola Itäkeskus, em Helsinque: percentual de famílias multiculturais deve chegar a 25% até 2020

Quando trabalhava como diretora de uma escola, Eeva Penttilä, hoje diretora de relações internacionais do Departamento de Educação de Helsinque, decidiu ligar para a administração municipal para solicitar areia. Queria criar um parquinho em sua escola. Eeva não entendeu quando ouviu um "não" pelo telefone. A justificativa era simples: se dermos areia para você, teremos de dar para as outras escolas também. "Ser diretor naquela época, na década de 70, significava apenas ler os documentos e traduzi-los para a linguagem do professor. Tudo já estava decidido", lembra. Seu trabalho atual é ajudar as escolas que fazem solicitações parecidas – a diferença é que ela pode dizer "sim".

O sistema municipal de administração finlandês tem funções executivas parecidas com as do Ministério da Educação no Brasil. A começar pelo orçamento. A maior parte dos municípios  é responsável por 58% do orçamento de educação. Helsinque é uma exceção: como a densidade populacional é alta, os impostos que recolhe são suficientes para arcar com todo o custo de seu sistema educacional. "O que fazemos com o nosso dinheiro é problema nosso", diz Eeva. Para a diretora de relações internacionais, a lei prevê autonomia do município e da escola – o que, na prática, se resume a uma questão: usar o bom senso. Por exemplo, não há definição nacional ou municipal sobre o número de alunos por sala. Há salas com 30 alunos e salas com apenas cinco. "Nosso departamento não decide isso. Sabemos depois que a escola decidiu", relata.

O mesmo acontece com o currículo. Há um mínimo nacional a ser seguido, mas a organização da grade curricular é responsabilidade da escola. Mais um exemplo: supõe-se que seja obrigatório ensinar 14 assuntos na 1ª e na 2ª séries do ensino fundamental na disciplina "língua materna". Se a escola decide introduzir apenas quatro lições no primeiro ano, precisa ensinar as outras 10 no segundo ano. Ela pode fazer isso sem comunicar o governo municipal ou federal. "Desde que você alcance o mínimo, não há problema. O currículo é realizado pelos professores, em cada escola específica", afirma Eeva. Ela relembra um caso que vivenciou numa região carente de Helsinque, onde havia muitos alunos com dificuldades de aprendizagem na língua materna. "Demos a eles mais aulas do que seria necessário numa determinada disciplina. A escola sabe o tipo de aluno que tem matriculado", diz. 

Nesse contexto, não é estranho pensar que quem contrata os professores é a própria escola.  Em cada uma delas, há um grupo diretor formado por cinco pais, um representante de professores, um representante dos funcionários da escola, um representante dos alunos com mais de 13 anos, o diretor e um secretário. São eles que selecionam os docentes, elaboram o plano político-pedagógico da escola e aplicam punições a alunos desobedientes, o que quase nunca ocorre.

Katariina Wuoristo é uma das mães que integra um dos grupos diretores de uma escola finlandesa. Foi eleita diretora do grupo por quatro anos, e continua no cargo, mesmo depois de suas duas filhas terem saído do colégio. "É muito fácil trabalhar com o diretor. Praticamente não temos discussões", conta. Um dos desentendimentos aconteceu recentemente, por conta de um feriado de primavera. Os alunos queriam cinco dias, mas a escola só queria liberar dois. Na escola em que atua, o processo de contratação dos professores acontece por meio de seleção de currículo e sessões de entrevistas com todos os candidatos. "É papel do pai participar da escola. Aproximadamente 70% deles participam das reuniões de pais", opina.


Suporte e acompanhamento


Há algum tempo, o governo alemão procurou Eeva Penttilä para propor um projeto nas escolas finlandesas que incentivasse o ensino do idioma germânico. A maioria das escolas em Helsinque recusou – apenas três aceitaram. "Seguimos os movimentos das escolas, mas não podemos interferir em suas decisões. Eles tinham boas razões e devemos respeitá-los", diz. Uma das funções do Departamento de Educação é exatamente essa: acompanhar. "Precisamos garantir que todas as escolas estão boas como deveriam", afirma Eeva. Uma das políticas para atingir esse objetivo é o incentivo financeiro oferecido às instituições localizadas em regiões mais carentes. O critério é estabelecido a partir de um índice de vulnerabilidade social calculado pelo município. "Não fazemos a política de ver que a escola está ruim e fechá-la. Se você fizer isso, as crianças precisam escolher outro lugar para estudar. E vão para lá, e o desempenho vai cair em outra escola. Nos concentramos naquela escola em específico", pontua. Essa ajuda financeira pode funcionar de outra maneira. As escolas fazem autoavaliações periódicas. Se for detectado um problema como a falta de alunos, o grupo diretor pode estabelecer metas para resolver o problema. Caso sejam alcançadas, recebem um bônus. "Nesse processo de avaliação da escola não há ninguém de fora, a não ser que eles peçam", coloca.

Outro incentivo do governo municipal é a formação continuada dos professores. Quando os docentes saem das salas de aula para estudar e se atualizar, o Departamento de Educação oferece à escola dinheiro extra para que um substituto seja contratado. O intuito é capacitar os docentes sem onerar a escola. A capacitação de professores se torna cada vez mais importante na cidade, já que o número de imigrantes aumenta a cada ano e o montante de professores capacitados para esse grupo não é tão grande. A previsão é de que até 2020 o percentual de famílias total ou parcialmente multiculturais aumente para 25% (hoje é de 10%). "Temos refugiados que vêm de zonas de guerra, como o Iraque, e nunca foram à escola, não têm sequer o conceito de escola", conta Eeva. Quando chegam à Finlândia, têm um ano de aula preparatória na língua finlandesa. Depois, passam a frequentar a escola, onde aprendem, além do finlandês, a sua língua de origem, religião e cultura materna. Ensinam-se 14 línguas diferentes hoje em Helsinque, uma experiência que tem se comprovado cada vez mais difícil na prática. Não se encontra professor capacitado para ensinar determinadas religiões, por exemplo. "Uma vez, tínhamos de ensinar árabe para um ou dois alunos numa escola. Pensamos que um professor do Marrocos poderia ensinar, mas, quando ele chegou à escola, percebeu que os alunos eram da Arábia Saudita. As línguas têm variações. Não sabíamos disso", conta Eeva.


O que aprende quem ensina
Há muitas diferenças entre a formação docente finlandesa e a brasileira, a começar pela exigência de um diploma de mestrado para o exercício da profissão. A média de anos de estudos dos futuros professores no país é de 5,5 anos. Depois de estudar para obter o diploma de bacharelado (que equivale a 180 pontos estudantis, ou 4.860 horas de crédito), o aluno se empenha em obter o diploma do chamado "master" (equivalente a 120 pontos estudantis, ou 3.240 horas de crédito). Há três tipos de diploma na Faculdade de Ciências Sociais, que realiza a formação de professores: docente de sala de aula, de educação infantil e da educação especial. O docente de sala de aula equivaleria ao professor do primeiro ciclo do ensino fundamental brasileiro. Já o professor da educação especial é treinado para dar aulas a alunos com necessidades especiais de aprendizagem.

Há, ainda, o professor de disciplina (o equivalente às nossas licenciaturas), que ensina alunos de 7ª a 9ª série do ensino fundamental finlandês e do ensino médio. Como no Brasil, esses alunos cursam a faculdade na área que escolheram (física, por exemplo) e complementam seus estudos na Faculdade de Ciências Sociais. Entre as disciplinas que cursam estão os estudos pedagógicos, didáticos e psicológicos, assim como os estudos das bases sociológicas, históricas e filosóficas da educação.
 
Há um componente interessante nos currículos dos cursos de quem pretende ser professor. Juhani Hytönen, do Departamento de Ciências Aplicadas em Educação da Universidade de Helsinque, de based-research teaching (em português, prática docente com base em pesquisa). "Não educamos robôs. É preciso aprender a analisar seus próprios comportamentos e objetivos, assim como desenvolver sua própria maneira de ensinar e inovar", conta. A ideia é criar, a partir de um método científico de pesquisa, subsídios para que o professor seja mais "profissional" em sala de aula. "Eles aprendem a identificar e resolver problemas. Isso os capacita, por exemplo, a planejar e definir o próprio currículo, que não é definido nacionalmente", diz Juhani. Há centros de pesquisa ligados à universidade, com focos diversos: ensino, estudos sociais da educação, matemática e educação científica, primeira infância e escola elementar, entre outros. "Tinha oito alunos de mestrado envolvidos em uma pesquisa sobre a organização e a efetividade da pré-escola em Helsinque, que foi pedida pela própria prefeitura. É melhor estar envolvido em projetos grandes do que ir para a escola sozinho", diz.

Mas, para que toda essa estrutura funcione, é preciso ter bons alunos dentro da universidade. Para o professor Juhani, o diferencial da formação de professores finlandesa começa antes: no vestibular ao qual se submetem os interessados na profissão. "Há um exame, mas realizamos uma entrevista individual, um grupo de discussão e, no caso da educação infantil, uma situação em que o candidato vai até uma escola e discute uma situação real", diz. Dos 1.258 candidatos ao curso de "professor de sala de aula" em 2008, apenas 123 foram admitidos. "Poucas vezes erramos na seleção dos candidatos. É fácil escolher em um grupo que já é selecionado", conclui. 

O que aprende quem ensina

Há muitas diferenças entre a formação docente finlandesa e a brasileira, a começar pela exigência de um diploma de mestrado para o exercício da profissão. A média de anos de estudos dos futuros professores no país é de 5,5 anos. Depois de estudar para obter o diploma de bacharelado (que equivale a 180 pontos estudantis, ou 4.860 horas de crédito), o aluno se empenha em obter o diploma do chamado "master" (equivalente a 120 pontos estudantis, ou 3.240 horas de crédito). Há três tipos de diploma na Faculdade de Ciências Sociais, que realiza a formação de professores: docente de sala de aula, de educação infantil e da educação especial. O docente de sala de aula equivaleria ao professor do primeiro ciclo do ensino fundamental brasileiro. Já o professor da educação especial é treinado para dar aulas a alunos com necessidades especiais de aprendizagem.

Há, ainda, o professor de disciplina (o equivalente às nossas licenciaturas), que ensina alunos de 7ª a 9ª série do ensino fundamental finlandês e do ensino médio. Como no Brasil, esses alunos cursam a faculdade na área que escolheram (física, por exemplo) e complementam seus estudos na Faculdade de Ciências Sociais. Entre as disciplinas que cursam estão os estudos pedagógicos, didáticos e psicológicos, assim como os estudos das bases sociológicas, históricas e filosóficas da educação.

Há um componente interessante nos currículos dos cursos de quem pretende ser professor. Juhani Hytönen, do Departamento de Ciências Aplicadas em Educação da Universidade de Helsinque, de based-research teaching (em português, prática docente com base em pesquisa). "Não educamos robôs. É preciso aprender a analisar seus próprios comportamentos e objetivos, assim como desenvolver sua própria maneira de ensinar e inovar", conta. A ideia é criar, a partir de um método científico de pesquisa, subsídios para que o professor seja mais "profissional" em sala de aula. "Eles aprendem a identificar e resolver problemas. Isso os capacita, por exemplo, a planejar e definir o próprio currículo, que não é definido nacionalmente", diz Juhani. Há centros de pesquisa ligados à universidade, com focos diversos: ensino, estudos sociais da educação, matemática e educação científica, primeira infância e escola elementar, entre outros. "Tinha oito alunos de mestrado envolvidos em uma pesquisa sobre a organização e a efetividade da pré-escola em Helsinque, que foi pedida pela própria prefeitura. É melhor estar envolvido em projetos grandes do que ir para a escola sozinho", diz.

Mas, para que toda essa estrutura funcione, é preciso ter bons alunos dentro da universidade. Para o professor Juhani, o diferencial da formação de professores finlandesa começa antes: no vestibular ao qual se submetem os interessados na profissão. "Há um exame, mas realizamos uma entrevista individual, um grupo de discussão e, no caso da educação infantil, uma situação em que o candidato vai até uma escola e discute uma situação real", diz. Dos 1.258 candidatos ao curso de "professor de sala de aula" em 2008, apenas 123 foram admitidos. "Poucas vezes erramos na seleção dos candidatos. É fácil escolher em um grupo que já é selecionado", conclui.