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Mude!

O que as diretoras fariam se, de repente, o mundo sólido em que vivem se transformasse em espuma?

Queridas diretoras: eu gostaria que vocês lessem o livro Viagem a Ixtlan, do antropólogo Carlos Castañeda. Ele relata suas experiências com os índios Iaqui em cujo meio se encontrava fazendo pesquisas sobre uma planta alucinógena, o peiote. Acidentalmente ele fez amizade com um bruxo, D. Juan, que o tomou como discípulo. No livro não há nenhuma receita de feitiçaria. Nele se encontra a sabedoria de D. Juan. O bruxo dizia que a sabedoria começa quando conseguimos fazer o mundo parar…

Não, não é fazer a Terra parar de rodar e nem fazer os eventos pararem de acontecer. Esses fenômenos  acontecem de fora, e não é aí que mora a sabedoria. A sabedoria mora dentro da gente.

Para D. Juan, todos nós somos presas que caíram dentro de uma armadilha, um poço profundo. De tanto morar ali nos esquecemos de que somos seus prisioneiros e passamos a acreditar que o buraco é do tamanho do mundo. O meu poço pode ser um partido político, o casamento, uma religião, um emprego, a escola… Esse poço engaiola minhas percepções, meus pensamentos, minhas ações. Sou um prisioneiro das suas rotinas.

O primeiro passo no caminho da sabedoria é ver com clareza. E para ver com clareza é preciso fazer parar esse mundo do qual somos prisioneiros. Quando isso acontece, ocorre uma grande transformação: as coisas que nos apareciam como sólidas e fixas se revelam como espuma. As coisas não têm "ser". Elas apenas "parecem ser".

O caminho para essa iluminação é simples: basta deixar de fazer as coisas da forma como sempre as fazemos e começar a fazê-las de um jeito diferente.

Suspeito que a Clarice Lispector tenha aprendido sabedoria com D. Juan. Porque o que ela faz no seu poema Mude é nada mais que trocar em miúdos o conselho:

"Mude! Mas comece devagar porque a direção é mais importante que a velocidade. Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa, mais tarde mude de mesa. Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho. Ande por outras ruas calmamente observando, com atenção, os lugares por onde você passa. Veja o mundo de outras perspectivas. Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Assista outros programas de TV, compre outros jornais, leia outros livros. Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Tome banhos em novos horários. Use caneta de outras cores. Vá passear em outros lugares. Ame muitos, cada vez de modos diferentes. Troque de bolsa, de carteira, de malas. Troque de carro, compre novos óculos. Escreva outras  poesias…"

A poesia é comprida. Tive de fazer cortes. Quem sabe a revista Educação achará um jeito de publicá-la inteira numa outra edição.

Eu transcrevi esses versos pensando em vocês e no mundo em que vocês estão presas. É um mundo feito com regras precisas, ditadas pela burocracia, pela tradição, pelos seus pensamentos costumeiros, pelas teorias pedagógicas e pela linguagem. Ah! A linguagem… "Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo",  escreveu Wittgenstein.

Fiquei imaginando: o que é que as diretoras mudariam se, de repente, o mundo sólido em que vivem se transformasse em espuma?

Mas o espaço acabou e sobre isso falaremos depois…