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Polarização em sala de aula

A polarização tomou conta da sociedade e invadiu faculdades e universidades. Docentes têm um papel fundamental ao estimular troca de ideias com base em dados, não mais no subjetivismo contaminado pelas redes sociais


Por Feferbaum, Klafke e Radomysler*: A polarização da sociedade tem impactos para a prática docente. Entendida como falta de diálogo ou de consideração pela diferença, ela está afetando as relações entre as pessoas, causando desconfortos e provocando isolamentos. Na sala de aula, com e entre os(as) estudantes, não tem sido diferente. Ouvimos a angústia de docentes que temem choque de opiniões e situações conflituosas, ou mesmo discriminatórias, que debates mais acirrados podem gerar. 

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Considerando que a universidade é, por natureza, um espaço para se debaterem ideias e distintos pontos de vista, parece ir contra a sua vocação deixar a polarização de fora das aulas. O espaço universitário ainda é um dos poucos espaços em que as pessoas se encontram fisicamente com indivíduos com os quais não decidiram conviver diretamente para aprender em conjunto. 

A visão do ensino superior enquanto lugar para se confrontar opiniões e divergências, descontruir conceitos e construir conhecimento depende de dar voz a todos(as) e ouvir essas diferenças. Isso é de uma riqueza imensa tanto para o indivíduo quanto para as aulas, e, sobretudo, para a vida em sociedade. 

À luz do ensino participativo, no qual o próprio discente é protagonista e responsável pelo seu próprio aprendizado, esse diálogo deve ser incentivado. Trazer essas discussões para a sala de aula é fomentar o desenvolvimento de habilidades e competências essenciais para os futuros profissionais e cidadãos que estamos formando. 

Conhecimento orienta a construção de uma opinião

Lidar com a diversidade de ideias e de posicionamentos é estimular a reflexão crítica, a capacidade de argumentação e a autonomia dos estudantes. Sob essa ótica, é difícil que o contexto político e social não aflore em sala de aula, porque são importantes para o aprendizado e à reflexão crítica de si e do mundo. Essa não é uma responsabilidade apenas de professores de cursos como direito, ciência política ou ciências sociais. Cursos e disciplinas que, aparentemente, não envolvem debates de temas políticos ou sociais também podem trazer as discussões públicas para a sala de aula. 

polarização
Imagem: reprodução

A divergência em torno de tratamentos médicos, aquecimento global, ou segurança de urnas, dentre outros tópicos, mostra que os tópicos precisam ser debatidos na mnedicina, na biologia, na computação etc. Afinal, o conhecimento orienta a construção de uma opinião. É preciso, contudo, ter regras claras para que esse diálogo se dê sempre de forma respeitosa. 

A mediação docente possibilita a realização de conexões e o aprofundamento de convergências e divergências em uma discussão, costurando uma teia de relações entre as opiniões dos(as) estudantes. Com o emprego de algumas técnicas, é possível endereçar as questões em sala de aula e transformá-las em relevantes oportunidades de aprendizagem. Vamos mencionar alguns métodos que utilizamos em nossas aulas e que podem auxiliar a conduzir certas situações: 

1. Agrupar participantes em pequenos grupos de forma aleatória ou por meio de atividades dirigidas

Muitas atividades envolvem grupos menores, o que pode favorecer debates mais qualifi cados e uma maior participação dos(as) estudantes. Temos, contudo, a tendência de estar sempre perto das mesmas pessoas e de realizar essas atividades com elas, muitas vezes compartilhando as mesmas visões e identidades. Essa relação faz com que nos sintamos mais seguros, em uma zona de conforto. 

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É parte do papel dos professores do curso quebrar essa conformação geográfica ou as “panelinhas” e provocar maior integração e a formação de grupos diferentes desde o início da graduação, com pessoas com as quais os participantes não estão acostumados a interagir. Existem técnicas lúdicas ou dirigidas para formação de grupos, seja, por exemplo, por algum interesse em comum (“quem gosta de praia?”, “quem prefere montanha?”, entre outros), seja por afi nidades de outra natureza (cor preferida, comida favorita etc.). Elas mostram que o “outro” pode ter pontos de contato com você para além da opinião política.

2. Estabelecer combinados para organizar melhor o fluxo da conversa geral

Lidar com as diferenças em sala de aula demanda o estabelecimento de regras combinadas previamente. A organização do debate pode proporcionar um ambiente inclusivo e encorajador, sobretudo para as pessoas que possuem mais dificuldade para falar em público. Quando as regras são realizadas de forma coletiva, com a oportunidade de defi nição de combinados pelos próprios estudantes, todos se sentirão mais à vontade para se manifestar e para zelar pelo respeito. 

Podem ser usadas regras como chamar colegas pelo nome e pronome corretos; levantar a mão para falar, indicando qual é a sua vez na fi la; quem falar menos durante os debates tem direito a passar na frente (técnica do “fura-fi la”); mencionar algo do que foi dito pelo colega anterior (técnica do “telefone sem fi o”); entre outras técnicas, exemplifi cadas neste outro artigo.

3. Usar critérios avaliativos sobre a postura no debate

Desenvolver competências como escuta-ativa e comunicação não violenta, além de uma atitude empática e respeitosa, são relevantes objetivos de aprendizagem para a formação dos(as) estudantes. Deixar claro desde o início que esses são objetivos do curso e incorporar esses critérios na avaliação são interessantes incentivos para que os combinados sejam cumpridos. 

Um dos critérios de avaliação em um debate, por exemplo, pode ser o respeito à opinião alheia. Então, por exemplo, se alguém for desrespeitoso(a) com colegas, a nota será correspondente, independentemente de posicionamentos. É relevante também ter cuidado para não dar preferência para estudantes que falam mais, sem considerar a capacidade de escuta-ativa como um aspecto relevante de um debate em sala de aula.

4. Registrar e sistematizar o que estiver sendo debatido

Ao explorar temas complexos, o registro visual pode ajudar o grupo a ter uma noção melhor do debate e a cooperar. Pode ser um registro na própria lousa, em um bloco de notas ou mesmo a criação de um mapa mental — há diversas ferramentas tecnológicas para a elaboração do último, como Miro, Mural, Kialo, dentre outras. 

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O importante é registrar o que está sendo dito, relacionando as diversas manifestações e mostrando como elas rebatem ou não umas às outras, a fi m de contribuir para a tarefa de estimular o pensamento crítico e a troca entre participantes.

5. Em tempos de polarização política, é importante instruir que a argumentação deve ser fundamentada, sem agressões nem argumentos de autoridade

Dessa forma, os(as) participantes saberão que devem sustentar o diálogo pela via de debates de ideias, não de ataques pessoais. O(a) docente também se sentirá mais confortável para intervir caso entenda necessário. Afirmações empíricas podem ser questionadas solicitando-se a quem opinou que apresente os dados; afi rmações normativas ou de valor podem ser questionadas por apresentação de valores contrários, consequências das decisões ou casos semelhantes que levariam a decisões diferentes.

Após um debate acalorado, uma outra estratégia interessante é realizar momentos de refl exão sobre como os estudantes se sentiram após o debate, o que foi mais signifi cativo, como avaliaram a própria participação e a construção coletiva de conhecimento pela turma. Há diversas maneiras de trazer a polarização para sala de aula de maneira pedagógica, adaptando as técnicas que expusemos ou criando outras. 

Com isso, queremos mostrar que a produção de conhecimento é um processo ativo e sua construção se dá justamente por essas trocas. Assim, o espaço da sala de aula não pode jamais ser o lugar da interdição de distintas ideias e perspectivas. Por fi m, o ato de dialogar se trata de um aprendizado coletivo. 

Expor as próprias opiniões, acolher as de outras pessoas, escutá-las verdadeiramente, discutir e problematizar ideias são todas ações nas quais o ensino participativo se fundamenta. Esse contexto é, portanto, uma valiosa oportunidade de fomentar, com base no diálogo, na cooperação e na escuta ativa, um aprendizado ainda mais signifi cativo e o desenvolvimento de melhores profi ssionais e cidadãos.

Sobre os autores

*Marina Feferbaum é oordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) e da área de metodologia de ensino da FGV Direito SP, onde também é professora dos programas de graduação e pós-graduação.

Guilherme Forma Klafke é líder e gestor de projetos no Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV Direito SP (CEPI), onde também é professor do programa de pós-graduação lato sensu

Clio Radomysler é líder de projetos no Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV Direito SP (CEPI) e Doutoranda pela Faculdade de Direito da USP

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Marina Feferbaum

Coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) e da área de metodologia de ensino da FGV Direito SP, onde também é professora dos programas de graduação e pós-graduação

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