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Sutilezas acerca da verdade

Crianças e adolescentes precisam compreender a diferença entre o real e o imaginário para desenvolver consciência moral

No final dos anos 90, o psicólogo norte-americano Gerald Jellison apresentou o resultado de seus estudos sobre o hábito da mentira em adultos, feito para a Universidade do Sul da Califórnia. Com números impressionantes. Da hora em que acorda até o momento de ir se deitar, uma pessoa escuta ou lê cerca de duzentas mentiras. Uma a cada mais ou menos cinco minutos. Não só escuta: contribui pessoalmente com pelo menos uma dúzia de falsidades.

Na verdade, já na primeira infância, a partir dos dois anos, as pessoas começam a mentir. Mas são atitudes vistas com naturalidade pela psicologia de hoje. "Crianças pequenas não mentem: fantasiam", explica Leila Cury Tardivo, professora livre-docente do Instituto de Psicologia da USP. No seu entender, pais e professores não precisam se preocupar com isso, se a criança tem menos de sete anos. Exatamente como compreendia Jean Piaget (1896-1980), provavelmente o pensador que mais atenção dedicou à questão da mentira na infância e do surgimento da noção de verdade na criança, investigada em obras como O Juízo Moral na Criança (Editora Summus, 1994) e A Construção do Real na Criança (Ática, 1996), entre outras.

Piaget entendia que, nessa fase, a criança ainda é totalmente egocêntrica, ou seja, incapaz de assumir o ponto de vista do outro. Ela mente, portanto, mais ou menos como se estivesse brincando. Sua consciência moral forma-se aos poucos, em etapas. Por volta dos sete anos, ela começa a entrar em outro estágio, no qual compreende as regras de convivência impostas por pais e professores. A autonomia moral (quando se pode falar verdadeiramente que a pessoa é responsável pelos seus atos) só começa a se consolidar, porém, após os 11 anos.

O problema é que, muitas vezes, o educador, enlouquecido com as invenções infantis, não respeita o processo de amadurecimento moral da criança e tenta antecipar as etapas. "O professor acha que basta falar uma vez, que a criança já entende. Não é assim. É um processo contínuo", aponta Ligiane Raimundo Gomes, doutora em Educação Escolar e co-autora, em parceria com Cilene Ribeiro de Sá Leite Chakur, do estudo Crianças e Adolescentes Falam Sobre a Mentira: Contribuições para o Contexto Escolar.
 

Mentiras e mentiras

É só a partir dos sete anos, portanto, que as mentiras infantis devem ser objeto da atenção de pais e professores. Eles devem levar em consideração, segundo Leila Cury Tardivo, a intensidade, a qualidade e a duração das mentiras.

Com intensidade, quer-se dizer que é preciso diferenciar as mentiras sobre questões banais das que dizem respeito a coisas sérias. A duração diz respeito ao amadurecimento da criança ao longo do tempo. Se ela mentia muito aos sete anos e, quatro anos depois, aos 11, às portas da adolescência, continua com o mesmo comportamento, é sinal de que é preciso encaminhá-la a um psicólogo. Finalmente, a idéia de qualidade aponta que mentira é, na verdade, o nome genérico de uma variedade de atitudes que se assemelham, mas não são idênticas. Em outras palavras, há mentiras e mentiras.

Basicamente, são quatro os comportamentos falsos identificados pela psicologia. O primeiro, inofensivo e socialmente aceito, é o da desculpa, quando a pessoa finge concordar com outra para evitar atrito, por exemplo, ou inventa um motivo falso para justificar a ausência numa festa. A segunda forma é a mentira utilitária, usada para se obter vantagem ou evitar desconfortos. É o caso da criança que, diante dos pais, finge ter bom desempenho escolar, para obter recompensas ou escapar de castigos. Outro tipo é a chamada mentira de compensação, por meio da qual a pessoa tenta construir uma imagem própria que não corresponde à sua realidade. Como a criança que conta para os colegas ter passado o dia se divertindo com um brinquedo que sequer possui ou o adolescente que sempre relata conquistas amorosas e feitos esportivos jamais realizados. Finalmente, há a mitomania, isto é, o hábito de mentir compulsivamente, sem motivo.

A mitomania, identificada como patologia pelo psiquiatra francês Ernest Dupré (1862-1921), é o tipo mais grave e exige tratamento psicológico. Mas é pouco comum. Já a mentira utilitária e a de compensação são traiçoei­ras. Aparentemente triviais, muitas vezes são a ponta visível de problemas de outra ordem e muito mais sérios, de acordo com Leila. Quadros de bulimia e anorexia, por exemplo, costumam ser ocultados durante muito tempo com mentiras sobre os hábitos alimentares. "A mentira do adolescente em geral envolve perigo. Costuma indicar outra coisa, que está por trás", alerta. "A internet também facilita, porque é quase um convite para a criação de uma vida paralela."


A descoberta do outro


"A mentira do adolescente em geral envolve perigo. Costuma indicar outra coisa, que está por trás", alerta a professora do Instituto de Psicologia da USP, Leila Cury Tardivo

Raríssimos são os casos em que os pais encaminham o filho a um psicólogo em função de uma preocupação específica com as histórias inventadas por ele. Normalmente, quando chega a um profissional, a criança ou adolescente já desenvolveu um conjunto de atitudes que lhe acarreta problemas sociais. A mentira é só um dos sintomas.

Embora possa haver fatores genéticos no atraso do amadurecimento da criança e em sua insistência em contar mentiras, há consenso entre psicólogos e pedagogos que a influência do meio é que é decisiva em sua formação. A capacidade de enganar é inata no ser humano, mas se desenvolve com estímulos de outras pessoas. Em resumo, a criança imita o que vê. Não adianta o pai insistir para o filho não mentir, se ele próprio permite que ele o flagre enganando os outros. "O exemplo é muito mais importante do que a fala", aponta Leila.

Aos professores, por outro lado, cabe fazer o aluno enxergar que mentiu, ainda que se saiba ser uma criança submetida a maus exemplos familiares. "O desenvolvimento da moralidade começa em casa, mas continua na escola. No fim, com o tempo, prevalece a orientação escolar", acredita Ligiane Raimundo Gomes.

Para tanto, é preciso que o educador não confunda autoridade com autoritarismo. A aplicação de castigos só piora a situação. Faz, segundo Leila, com que a criança se feche em seu mundo de fantasias, receosa de compartilhá-lo com o adulto e ser punida por isso. Se ela não fala, é muito mais difícil para pais e docentes mostrarem a diferença entre o real e o imaginado e as regras que norteiam a vida em sociedade.

Pior ainda é a postura de extrema permissividade do pai que finge não ver a mentira do filho e jamais aponta seu erro. A criança cresce desorientada, privada do conhecimento dos limites que lhe teriam de ser impostos. Leila é taxativa: "Dos sete anos em diante, o adulto tem de intervir". Se Piaget está certo, não com lições de moral, mas permitindo que o pensamento da criança descubra a existência do pensamento do outro, etapa fundamental para que a verdade deixe de ser para ela um mero dever imposto para tornar-se verdadeiramente um bem, que só pode ser compreendido como tal por uma consciência autônoma.



Leves desvios da verdade

É quase impossível, apesar do lugar-comum, pensar na presença da mentira na literatura – de ficção ou não – sem lembrar de imediato de Pinóquio, personagem criado pelo italiano Carlo Collodi no século 19. Mas muito antes disso, já no século 8 a.C., o tema está presente na literatura ocidental. Na Odisséia, de Homero, Penélope não se constrange de enganar os que querem se casar com ela. Diz aos pretendentes que se casará tão logo termine de tecer uma colcha. De dia, ela costura aos olhos de todos; à noite, escondida, desfaz o próprio trabalho. Mente para ganhar tempo, pois acredita que o marido, Ulisses, desaparecido na guerra e tido como morto, ainda irá voltar para casa. E irá mesmo.

Na Ilíada, o outro épico de Homero, mais mentira. Os aqueus fingem ter batido em retirada, abandonando fora da fortaleza de Tróia um gigantesco cavalo de madeira. Quando os troianos cometem a imprudência de recolher o objeto como despojo de guerra, vêem sair de dentro dele os melhores guerreiros gregos, prontos para a batalha.

Não por acaso, o povo grego foi o primeiro a estudar seriamente os mecanismos da enganação. No século de Péricles, com o advento dos sofistas, que vendiam aos políticos técnicas de persuasão, saber distinguir o verdadeiro do falso tornou-se uma necessidade. Sócrates inicia essa distinção, batendo de frente com os sofistas em diálogos imortalizados na literatura por Platão. É o caso de Hípias Menor, obra em que o filósofo alerta que só pode contar mentiras quem conhece a verdade e que melhor mentiroso será aquele que mais sábio for. Mais tarde, Aristóteles reduzirá a pó os instrumentos dos sofistas em seus estudos lógicos, desmascarando a variedade de raciocínios falsos que ele chama de "falácias". Terminará por concluir que a mentira se apresenta sempre em uma dessas duas formas: aumentando a verdade (jactância) ou diminuindo a verdade (ironia).

Na ficção, contudo, a mentira continuou literalmente fazendo história no Ocidente. "As novelas mentem – não podem fazer outra coisa -, mas essa é somente uma parte da história. A outra é que, mentindo, expressam uma curiosa verdade, que só pode expressar-se dissimulada e encoberta, disfarçada do que não é", escreve Mário Vargas Llosa em A Verdade das Mentiras, coletânea de ensaios de crítica literária. Nesses textos e nos de Umberto Eco em Entre a Mentira e a Ironia tem-se um amplo panorama das formas do exagero e da mentira ao longo do desenvolvimento da literatura ocidental. "Às vezes sutil, às vezes brutalmente, a ficção trai a vida, encapsulando-a numa trama de palavras que a reduz de escala e a põe ao alcance do leitor.

Este pode, assim, julgá-la, entendê-la, e, sobretudo, vivê-la com uma impunidade que a vida verdadeira não permite", resume Vargas Llosa.