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Abandono da inovação

Concebidos para aproximar a pesquisa acadêmica e a formação docente, sintonizando-as com novas práticas pedagógicas, os Colégios de Aplicação não têm sido objeto de interesse nem mesmo das universidades

Publicado em 10/09/2011

por Gabriel Jareta





Escola de Aplicação em Nazaré da Mata (PE): isolamento em relação às redes



Um ambiente que propiciasse a formação de professores em contato direto com as práticas pedagógicas, que fomentasse a renovação metodológica alicerçada em pesquisas acadêmicas criteriosas e que estimulasse a circulação de bibliografia inovadora e a retroalimentação de conhecimentos em todo esse processo. Ou seja: uma escola ligada à universidade em que a ação de pesquisadores envolvidos com a formação ajudasse a testar, implementar e analisar criticamente novas ações pedagógicas, de forma que elas retornassem ao ambiente formativo e fossem novamente reprocessadas para formar outras gerações de novos docentes, num processo contínuo.

Em linhas gerais, é esse o espírito que pauta a ideia dos Colégios de Aplicação (CAs), introduzidos no Brasil a partir do processo de redemocratização que marcou a sucessão do até então ditador Getúlio Vargas, na segunda metade dos anos 40 do século passado. Passados quase 65 anos da introdução desse processo inovador, os CAs vivem um momento histórico bem diverso daquele, em que havia ebulição de ideias na educação brasileira. Na mesma época, começava a se formular a proposta da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (que só viria a ser aprovada cerca de 15 anos depois, em 1961) e a educação passara a ser vista como fator-chave para consolidação e desenvolvimento da nação.

Hoje, embora a concepção das escolas de aplicação esteja baseada justamente na relação estreita com as universidades às quais são ligadas, a tônica vigente é a do isolamento e da ausência de projetos consistentes de divulgação científica – que poderiam levar as boas práticas para fora do ambiente experimental e, ao mesmo tempo atrair novas parcerias. Tampouco existem pesquisas acadêmicas sobre o tema ou uma entidade que congregue as experiências existentes no plano estadual. No âmbito das universidades federais, há 17 Colégios de Aplicação em funcionamento no país.

Para o professor Minoru Kimpara, autor de uma das raras pesquisas acadêmicas sobre o tema, realizada em seu mestrado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e hoje docente da Universidade Federal do Acre e ligado ao Colégio de Aplicação da instituição (UFAC), o posicionamento das escolas dentro da estrutura universitária carece de uma definição mais clara. "Os Colégios de Aplicação deveriam ser um campo experimental, mas não é isso que acontece. A maioria das universidades não apresenta um plano articulado e os colégios costumam estar vinculados à reitoria, e não às faculdades de educação", afirma.

Kimpara também aponta um outro fator impeditivo para que os CAs cumpram sua função: a resistência do corpo docente em fazer de sua atividade pedagógica objeto de avaliação e pesquisa acadêmica. "O colégio (da UFAC) foi criado com o objetivo da inovação, mas o professor tem resistência à observação, não gosta de ser avaliado. Temos feito um trabalho para tentar conscientizar, tentar aproximar áreas afins", conta. Na Universidade de São Paulo, a sensação de isolamento da Escola de Aplicação é semelhante. Alguns movimentos de aproximação, no entanto, estão tentando mudar esse cenário. Um deles é o projeto de "pré-iniciação científica", em que, a exemplo de iniciativas realizadas em outros colégios, os alunos do ensino médio ganham bolsa para realizar pesquisas. "Essa é uma tentativa de fazer com que nossos alunos circulem pela universidade, fazer uma aproximação com os institutos. Assim a escola passa a ser também mais conhecida", aponta a diretora Daniela Scarpa. Em outra frente, os institutos da USP são convidados a dar cursos e a realizar atividades de extensão dentro da escola. Um exemplo recente é o "Ateliê de Biologia", promovido pelos docentes de metodologia do ensino da licenciatura em conjunto com professores do Instituto de Biociências. Ministrada por alunos estagiários, é uma atividade que visa aprofundar os temas estudados com a utilização dos laboratórios da graduação, dando dimensão prática às aulas teóricas. As turmas são formadas por estudantes do 8º ano do ensino fundamental até o 3º ano do ensino médio. A ideia da escola é realizar atividades semelhantes em outras áreas do conhecimento.

Na Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará, o isolamento e a falta de estímulo prejudicam não só a realização das experiências, para as quais a escola foi pensada, mas também o desempenho dos alunos, que tampouco se veem estimulados a participar das inovações. "Temos muitas pesquisas isoladas, que a universidade não conhece e que precisamos promover. Mesmo em relação aos estágios, alguns professores da graduação trazem seus alunos, mas não têm acompanhamento efetivo", diz a diretora-geral da escola, Lílian Brito. Segundo ela, a aproximação passou a ser facilitada com a criação de uma coordenadoria especial de estágio, responsável por encaminhar, acompanhar e avaliar as atividades.


Vazio que se reflete nas pesquisas


A discussão sobre a importância dos Colégios de Aplicação no sistema educacional brasileiro é um tema esquecido no ambiente acadêmico. São raros os artigos e pesquisas científicas sobre a dimensão e o papel dessas escolas para a melhoria das práticas nas redes públicas – intenção inaugural que levou à criação da maioria dos colégios do gênero no Brasil. De quatro pesquisadores ligados à questão da inovação pedagógica ou das práticas docentes consultados pela reportagem, nenhum soube mencionar trabalhos recentes relacionados ao tema. Nos principais bancos de dados de pesquisas, como o Scielo e o Banco de Teses da Capes, os resultados são esparsos e restritos a experiências isoladas.

O Scielo traz uma resposta para "colégios de aplicação": um trabalho de 2004 sobre representações democráticas nos colégios da UFRJ e Uerj. Na Capes, são 90 ocorrências, nem todas diretamente ligadas a esse universo. Aquelas que estão de fato relacionadas com colégios de aplicação são pesquisas restritas a um grupo de alunos, amostrais, a respeito de um tema específico. A única que aborda a atuação desses colégios é a de Minoru Kimpara. 


A origem


A criação dos primeiros Colégios de Aplicação no Brasil, ligados a instituições federais de ensino superior, foi autorizada em 1946 por um decreto do presidente Eurico Gaspar Dutra. Na época, essas escolas eram denominadas "ginásios de aplicação" e eram voltadas para a prática dos estudantes de didática das faculdades de filosofia. O mais antigo deles, o Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CAp/UFRJ), foi fundado em 1948.

Sua criação foi acelerada a partir da década de 1950, na esteira do pensamento da Escola Nova. Foram pensados para atender a três demandas da formação de professores:
1) a experimentação; 2) a inovação; e 3) a prática pedagógica.

Já os colégios experimentais tiveram sua morte decretada, ao menos no Estado de São Paulo. Isso ocorreu no primeiro governo Mario Covas, nos anos 90, mas vários outros foram fechados antes, durante o período do governo militar (1964-1985), assim como os ginásios vocacionais paulistas. A própria Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo baixou suas portas no final dos anos 60, época inclusive em que a então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) passou por um racha, com os integrantes do Departamento de Educação saindo para formar a atual Faculdade de Educação da universidade. O colégio hoje rebatizado de Aplicação na USP é, na verdade, o sucessor da Escola de Demonstração do Centro Regional de Pesquisas Queiroz Filho (CRPE), instituição federal criada na época de Anísio Teixeira que passou ao Estado de São Paulo na virada dos anos 60 para os 70.

Em artigo intitulado "Imprensa e ensino na ditadura", Maria de Lourdes Mônaco Janotti, do departamento de História da atual Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH/USP), qualifica como "decisivo o conhecimento que se processava na FFCL/USP nas diferentes disciplinas", análise feita a partir dos textos elaborados por docentes cuja prática estava ligada ao Colégio de Aplicação fundado em 1957.

"O pensamento analítico-crítico das ciências humanas, a divulgação de bibliografia  estrangeira, os novos métodos de ensino de literatura e línguas e o estudo consequente de posições epistemológicas foram decisivos para criar uma escola de alto padrão como o CA", escreve ela. Emprego de dinâmicas para o trabalho em grupo, adoção de atividades extracurriculares como música e teatro, coordenação de atividades de várias disciplinas em torno de um tema (o hoje propalado ensino interdisciplinar ou, em alguns casos, transdisciplinar) e viagens para estudo do meio estão entre as inovações feitas à época.

Minoru Martins Kimpara, da Universidade Federal do Acre (UFAC), lembra que o objetivo inicial dessas escolas era contribuir para a formação dos professores não só como treinamento, mas em pesquisa e inovação das práticas pedagógicas, como consequência das mudanças propagadas pelo movimento da Escola Nova, que previa incentivo à educação pública e maior autonomia de professores e alunos no processo educacional.

As críticas, porém, não tardaram a aparecer. "Na década de 1970, o argumento era de que os alunos em formação deveriam ser preparados para a escola pública, e os Colégios de Aplicação eram uma ilusão. Eles gozavam de situação melhor, espaço mais adequado, melhor remuneração, ou seja, era um ambiente que os futuros professores não iriam encontrar nas redes em que atuariam ao sair da faculdade", explica o pesquisador.


Práticas reproduzidas


Essa diferença entre o universo existente nas escolas de aplicação e a realidade das redes públicas só se agravou desde então. Para Kimpara, os alunos de graduação que passam por um CA federal são privilegiados. "Os quadros dos Colégios de Aplicação federais são altamente qualificados, os professores têm dedicação exclusiva, diferente da rede pública, em que os professores têm de dar conta de duplo expediente", diz. Na opinião do pesquisador, as instituições de ensino superior que mantêm escolas do tipo precisam promover uma aproximação e tentar repercutir as boas práticas na rede pública.

Atualmente, grande parte dessas escolas ocupa um espaço pouco definido na estrutura universitária, principalmente quando vinculadas à administração superior e não aos departamentos de educação. "Sou a favor de que se estabeleça um elo entre os colégios e a universidade voltados para uma política de formação de professores. Que não seja só laboratório, mas também um espaço propositivo. O ideal seria que a prática dos CAs fosse universalizada", afirma Kimpara.

O presidente do Conselho de Diretores de Colégios de Aplicação Federais (Condicap), Romeu Augusto de Albuquerque Bezerra, ligado à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), afirma que não é possível apontar o distanciamento entre os colégios e as instituições como uma regra, afinal a diversidade de práticas e mesmo a localização das escolas influenciam nesse aspecto. Sua expectativa é que a ação do conselho leve a uma maior aproximação com os projetos do Ministério da Educação, como o Ensino Médio Inovador, por exemplo. Ele também espera que os colégios possam contribuir com as redes públicas. "Queremos levar à escola pública práticas e experiências que foram exitosas nos Colégios de Aplicação e que possam ser reproduzidas nas redes", diz.

Na opinião de Bernadete Gatti, pesquisadora sênior da Fundação Carlos Chagas e especialista em formação de professores, a diferença entre as
realidades dos Colégios de Aplicação e as redes públicas de ensino é o principal obstáculo para que as práticas bem-sucedidas sejam expandidas. "Alguns CAs têm papel muito importante como modelos curriculares, mas são pouco conhecidos e acabam saindo da realidade. Eles são muito elitistas, muito específicos, não expandem a experiência. Há pouco impacto nas licenciaturas", afirma. Para a pesquisadora, esses colégios deveriam criar uma maneira de divulgar os trabalhos e investir em convênios com as redes, assim como estreitar as relações com a universidade em que estão inseridos.

A pesquisadora também questiona o tipo de pesquisas realizadas nos Colégios de Aplicação. Para ela, os estudos desenvolvidos são, na verdade, projetos aplicados ao ambiente escolar e estão longe de ser experiências de fato rigorosas. "Para um experimento é necessário haver grupos de controle, comparar com outros grupos para dizer se foi bem sucedido. Hoje há muita pesquisa no plano teórico, praticamente não há pesquisa educacional na prática", ressalta Bernadete.

Autor

Gabriel Jareta


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