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Ascensão truncada

O ensino de matemática começou com os jesuítas no século 16 e só teve um grande impulso modernizador com a criação da Faculdade de Filosofia da USP, nos anos 1930

Publicado em 10/09/2011

por Henrique Ostronoff

Nas primeiras escolas fundadas no Brasil – em 1549, pelos padres jesuítas Manuel da Nóbrega, em Salvador, e Leo­nardo Nunes, em São Vicente – não se ensinava matemática. A disciplina começou a fazer parte de currículos somente em 1572 no curso de Artes do Colégio de Salvador, na Bahia, criado e mantido por jesuítas para formar licenciados e bacharéis. Durante três anos, os alunos freqüentavam aulas de matemática, lógica, metafísica e ética, conta o livro A Matemática no Brasil: Uma História do seu Desenvolvimento (Editora Edgard Blücher, 2003), de Clóvis Pereira da Silva, ex-professor do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “Naquele Colégio, o ensino das matemáticas começava com algarismos ou aritmética e ia até o conteúdo da Faculdade de Matemática (onde se estudava, dentre outros tópicos: geometria euclidiana, perspectiva, trigonometria, alguns tipos de equações algébricas, razão, proporção, juros), que fora fundada em 1757”, informa o livro. Em outro colégio, fundado em 1573 no Rio de Janeiro, o estudo da disciplina também fazia parte do seu curso de Artes. Na mesma cidade, em 1578, não-religiosos como o escrivão Francisco Lopes lecionavam aritmética para “classes particulares”.

As aulas de aritmética foram mantidas nos colégios jesuítas até sua expulsão do Brasil, determinada pelo Marquês de Pombal, em 1759. A partir daí, outras ordens “tais como beneditinos, carmelitas e franciscanos abriram suas escolas de primeiras letras, com permissão da metrópole”, afirma Clóvis Pereira da Silva.

O professor Ubiratan D’Ambrósio aponta em seu artigo A História da Matemática no Brasil que o desenvolvimento da disciplina durante o período colonial é evidenciado pela urbanização, pela construção de igrejas, prédios públicos, pontes e estradas, além das atividades comerciais. No entanto, sua aplicação foi voltada principalmente para a defesa. Segundo D’Ambrósio, “em 1744 temos o primeiro livro de matemática escrito no Brasil, por José Fernandes Pinto Alpoim (1700-1765), o Exame de Artilheiro, seguido em 1748 por outra obra do mesmo autor, Exame de Bombeiro. Ambas foram impressas na Europa, respectivamente em Lisboa e Madri, pois não havia imprensa no Brasil colonial. São livros elementares e metodologicamente inovadores, com o objetivo de preparar para os exames de admissão à carreira militar, como os próprios títulos sugerem”.

Ainda segundo D’Ambrósio, as famílias mais abastadas mandavam os filhos estudar em Portugal, na Universidade de Coimbra, já que não havia universidades no Brasil. Os formados, porém, pouco se dedicavam ao ensino, mas principalmente a funções administrativas de governo ou à carreira acadêmica fora do país.


Ponto de inflexão

Com a chegada da família real ao Brasil em 1808, fundaram-se diversos órgãos necessários ao funcionamento da sede do Reino no Rio de Janeiro, inclusive importantes instituições para as áreas científico-culturais, como a Imprensa Régia, a Biblioteca Real, o Observatório Astronômico e o Jardim Botânico. Ao mesmo tempo eram criados os primeiros cursos superiores – as escolas de Cirurgia do Rio de Janeiro e da Bahia. Em 1811, surgia a Academia Real Militar, com o curso de Ciências Físicas e Matemáticas, informa Ubiratan D’Ambrósio.

De acordo com o Wagner Rodrigues Valente, professor do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação Matemática da PUC/SP, houve um período marcante para a matemática no Brasil, quando sua presença foi estendida a todos os níveis de ensino. “É o momento de definição de que tipo de conhecimentos prévios deveriam ter os candidatos aos cursos jurídicos, criados em 1827, para os quais acorria grande parte da elite brasileira. As discussões no Congresso Nacional, por força de presença significativa de militares como parlamentares, colocam o ensino de geometria como fundamental ao futuro advogado. Nesse momento, o ensino de matemática deixa de ter caráter específico, de formação militar, e passa a cultura geral”, explica Valente, que também é coordenador do Grupo de Pesquisa de História da Educação Matemática (Ghemat) da PUC/SP.

D’Ambrósio conta também que a Proclamação da República trouxe pouca inovação ao país do ponto de vista científico e matemático. O florescimento do positivismo durante o Império marcara o nascimento do novo regime. “O apostolado positivista no Brasil era uma força dominante. Matematicamente, isso significou a consolidação das propostas positivistas já em vigor nas escolas de engenharia”, diz. Mas no início do século 20 inicia-se um movimento de modernização da Escola de Engenharia, com alguns jovens graduados, que passaram a apoiar seus trabalhos em modernas correntes da matemática européia. Um deles foi Theodoro Augusto Ramos. Professor da Escola Politécnica de São Paulo a partir de 1919, Ramos introduziu novos temas nos currículos, com destaque para o cálculo vetorial, que representava uma grande inovação em relação aos cursos de inspiração positivista da época.

Fato curioso do período foi a visita de Albert Einstein ao Brasil, em 1925, durante escala de viagem para a Argentina. O pai da Teoria da Relatividade aceitou convite para fazer uma palestra na Academia Brasileira de Ciências. Sua conferência, no entanto, provocou a crítica de positivistas pela imprensa, procurando ridicularizá-lo. A reação dos modernizadores da matemática foi tamanha que acabou se constituindo em duro golpe nos conservadores. “Iniciava-se uma nova era na ciência brasileira”, diz D’Ambrósio.

Mas, apesar do rompimento com o positivismo, “as inovações no ensino da disciplina fundamental, que era o cálculo diferencial e integral, eram modestas”, afirma D’Ambrósio. A modernização viria mesmo com o fim da República Velha, e após a Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo, com a fundação da Universidade de São Paulo (USP). Na nova universidade seria criada a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL, atual Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, FFLCH), responsável por desenvolver pesquisa pura e ao mesmo tempo formar quadros para o ensino secundário. Um dos encarregados de escolher professores para as cátedras, Theodoro Ramos, que participara da criação da USP, convidou importantes matemáticos para lecionar no Brasil. Para a cadeira de geometria superior, por exemplo, chamou o jovem italiano Luigi Fantappiè (1901-1956), que dominava teorias modernas de álgebra e geometria e era discípulo do matemático e físico italiano Vito Volterra (1860-1940)

Fantappiè deu um impulso definitivo ao ensino da disciplina. Em suas aulas, viam-se as transformações nos cursos básicos de matemática que estavam ocorrendo na Europa, principalmente no cálculo diferencial e integral. Ao introduzir essa disciplina na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, a partir de 1934, Fantappiè criou um novo estilo na matemática brasileira, diz D’Ambrósio. O seu curso de análise matemática se tornou padrão no país e originou o primeiro livro brasileiro moderno sobre o tema: Curso de Análise Matemática, de autoria de Omar Catunda.


Visita de Albert Einstein ao Brasil, em 1925, provocou críticas de positivistas pela imprensa: era o início de uma nova era na ciência brasileira

No entanto, diz ainda o texto de Ubiratan D’Ambrósio, o interesse em uma carreira nova e pouco reconhecida na época era muito pequeno e a primeira leva de matemáticos era formada por estudantes de engenharia. A matemática era um curso freqüentado pelos futuros engenheiros que desejavam aumentar seus conhecimentos da matéria. Ao mesmo tempo, o engenheiro tinha permissão de lecionar matemática. “A exclusividade do licenciado para ser professor de ginásio e colegial só se efetivou em 1950, após uma prolongada greve envolvendo todas as faculdades de Filosofia, Ciências e Letras do país”, conta D’Ambrósio.
Para Wagner Valente, um dos mais importantes renovadores do ensino matemático do país foi Euclides Roxo. Formado em engenharia, exerceu diversos cargos oficiais na área de educação e foi diretor do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, onde implantou uma reforma no ensino da disciplina. Segundo o estudo Euclides Roxo e o movimento de reforma do ensino de Matemática na década de 30, de João Bosco Pitombeira de Carvalho e outros pesquisadores, as idéias que o matemático defendia desde as mudanças que implantou em 1929 no Colégio Pedro II foram aproveitadas nas reformas de renovação do ensino realizadas nos anos 1930 e 1940, e permanecem até hoje, principalmente o ensino de matemática em todas as séries do currículo e a apresentação dos grandes blocos da matemática escolar. No artigo O ensino de Matemática na escola secundária III, publicado no Jornal do Commercio, em 1930, Roxo diz que “nos primeiros anos, os princípios lógicos de organização são de menor importância do que os psicológicos e pedagógicos. Põe, então, em destaque o movimento bem significativo, entre muitos professores progressistas, no sentido de abandonarem a velha divisão rígida em matérias – aritmética, álgebra e geometria – cada uma das quais tinha de ser completada antes que a outra começasse, por um rompimento racional das barreiras que separam esses assuntos no interesse de uma aproximação psicológica e pedagógica mais eficiente”.

Autor

Henrique Ostronoff


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