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Excesso de prazer

António Prole fala sobre o incentivo à prática leitora

Publicado em 10/09/2011

por Renato Mendes, de Lisboa


Há quatro anos, ao aceitar o desafio proposto pela Fundação Calouste Gulbenkian, António Prole, filósofo e assessor da Direção Geral do Livro e das Bibliotecas – órgão do Ministério da Cultura português – concebeu o projeto Casa da Leitura. Portugal começava então a ter consciência sobre a importância do letramento para o desenvolvimento da sociedade. Para o  "arquiteto" da Casa os projetos similares pecam pela ênfase excessiva no prazer da leitura, em lugar do próprio ato de ler.


Como explicar o atraso de Portugal em questões ligadas à leitura?


Não só Portugal julgou que o problema da leitura estava resolvido, mas a Europa, porque os níveis de analfabetismo nos anos 60, após a 2ª Guerra Mundial, eram residuais. Os países do norte do continente tinham de 2% a 3% de analfabetos; a própria França tinha estes níveis. Eram países católicos que tinham problemas de analfabetismo e isso tem a ver com questões religiosas. Enquanto o protestantismo assentava a religião na leitura da bíblia, o catolicismo assentava a sua religiosidade na oralidade. Os altos níveis de analfabetismo aconteciam em Portugal, na Espanha e na Grécia.


Quais as principais deficiências na formação dos mediadores?

Existe um problema grave em Portugal, que é o dos bibliotecários públicos. Eles pertencem a uma rede importante de bibliotecas com grande qualidade do ponto de vista de seus acervos, de sua arquitetura e espaços. Mas continuam a ser aquilo que denomino "Docti": entendem muito de documentação e das tecnologias da informação, mas não têm nenhuma cadeira na sua formação sobre literatura infantil, sobre processos cognitivos de leitura e recepção leitora. Não possuem formação adequada para exercer a mediação de leitura.


Qual o propósito da Casa da Leitura?


A formação dos mediadores de leitura é uma questão central do projeto. Não é um curso de formação, é uma plataforma de informação que se dirige aos mediadores de leitura, aos bibliotecários, professores, estudantes universitários e todos aqueles que vão lidar com as crianças. A nossa função não é entrar na questão da formação, nosso objetivo é dar um contributo nesse sentido.


De que forma isso acontece?


Repare no próprio desenho arquitetônico da Casa. Na maior parte dos portais, até mesmo nos europeus, acontece o seguinte: ou divulgam a literatura infantil e depois sugerem algumas atividades que se podem fazer à volta, como por exemplo o dia mundial do livro, ou então são organizados nas questões sobre os processos cognitivos da leitura. O que é específico na Casa da Leitura é juntar esses dois mundos.


A convergência de informações torna o projeto inovador?


É inovador inclusive do ponto de vista da investigação teórica. No país há uma tendência para haver a separação entre a investigação sobre a literatura infantil  e aquela sobre os processos cognitivos da leitura, que levam à compreensão.


Qual a semelhança  entre esse conceito e o de uma biblioteca itinerante?


Idealmente, gostaríamos que esse projeto fosse uma biblioteca itinerante virtual adaptada às exigências do século 21.


Qual o principal erro cometido nos projetos de incentivo à leitura?


Há um excesso na tônica do prazer da leitura e na animação: a leitura como um êxtase, algo que nos transporta para um mundo ideal, que nos dá felicidade, enfim, como uma festa. É essa falta de sustentabilidade teórica que transforma muitos projetos num amontoado de atividades pontuais, mais ou menos lúdicas, em que sobra animação e falta atividade leitora.

Autor

Renato Mendes, de Lisboa


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