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Língua Travada

Mais da metade das escolas públicas de ensino médio ainda não implantou o espanhol, que se tornará obrigatório a partir de 2010

Publicado em 10/09/2011

por Bartira Betini

Um ano depois da aprovação da lei que determina a obrigatoriedade do espanhol no ensino médio, e faltando quatro anos para o fim do prazo legal de implantação, apenas 38% das escolas públicas brasileiras o colocaram em prática. Segundo o Ministério da Educação (MEC), mais de 6 mil escolas já oferecem o ensino do espanhol, com 12.840 professores da disciplina. "É menos de 50%, mas é um dado positivo porque muitas leis nem mesmo saem do papel", explica Lúcia Lodi, diretora de Políticas do Ensino Médio do MEC. Segunda ela, 40% da implantação já foi efetivada e a lei será cumprida em cinco anos, como o previsto. Lúcia ainda afirma que Sergipe é o único estado brasileiro que ainda não começou a  implantação em algumas escolas para 2007.

O MEC não fiscaliza a aplicação da lei, tarefa que cabe aos conselhos de educação de cada Estado, mas, segundo Lúcia, "apóia o sistema, por exemplo, com aquisição de material pedagógico, escolhido com a ajuda de uma comissão de sete doutores no ensino do espanhol". De acordo com estimativa do ministério, haveria no país um déficit de 13.254 professores para uma carga horária de 20 horas e de 6.627 professores para 40 horas.

O estudo tem como base dados do Censo Escolar de 2003 e leva em conta que o professor de língua espanhola, no ensino médio, teria carga horária mínima semelhante à média atribuída aos professores de língua estrangeira moderna, ou seja, 20 ou 40 horas semanais. De acordo com o estudo, cada professor atenderia a oito turmas num regime de 20 horas semanais, ou 16 turmas no caso de 40 horas.


Lúcia Lodi, do MEC: cobertura de 38% é "dado positivo"

Lúcia aponta três ações atualmente desenvolvidas pelo MEC como parte da estratégia de apoio. "A ampliação da oferta de cursos e matrículas no ensino superior para a formação de professores de língua espanhola, um plano de capacitação e formação continuada de professores de língua espanhola, em exercício na rede pública de ensino, e a produção de material didático para o ensino de espanhol no ensino médio."

Até o final de agosto, 26.280 kits de espanhol (composto de dicionário monolíngüe, dicionário bilíngüe, livro para o professor e gramática) haviam sido distribuídos para escolas públicas de todo o país e para as secretarias estaduais. No início de setembro, o governo de São Paulo assinou com o Grupo Santander acordo de cooperação para impulsionar projetos dirigidos à capacitação de 45 mil professores, envolvendo o Instituto Cervantes, as universidades públicas estaduais e o Universia Brasil.

Pleno entendimento – A expectativa de que o ensino do espanhol apresente melhores resultados que o de inglês divide a opinião de especialistas. O professor Ivan Rodrigues Martins, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), acredita que, por existir maior proximidade entre o português e o espanhol, o aprendizado pode ser mais fácil e os alunos tenham condições de sair do ensino médio com boa verbalização do idioma.

"O próprio aluno tem se mostrado aberto para o aprendizado da língua." Martins é autor de Síntese: Curso de Língua Espanhola, da Editora Ática, um dos quatro livros indicados pelo MEC. Outra vantagem apontada por Martins: o professor pode dar aula em espanhol e ser entendido pelos alunos. "Isso não acontece com o inglês", observa.


Eduardo Murin, da rede Skill: importante é "sair do ensino médio com uma segunda língua"

O professor de literatura inglesa Franciscus Willem De Wiel, também da PUC-SP, acredita que as falhas no ensino do inglês não devem ser repetidas com o espanhol. "A quantidade de alunos dificulta o aprendizado oral. A sala deveria ser dividida em duas, com no máximo 15 alunos em cada uma delas. Outro fator é a carga horária insuficiente. Além de o professor de ensino público ficar muito sobrecarregado, são muitas classes e às vezes ele chega a ministrar 33 aulas semanais", explica De Wiel.

A pressa em formar também é apontada como um problema. "Muitas escolas acham que o importante é apenas ter candidatos aprovados no vestibular e não um aluno que saia do ensino médio com uma segunda língua", afirma Eduardo Murin, diretor pedagógico da rede Skill.

Terceirização – Escolas de idiomas estão auxiliando os estabelecimentos regulares, tanto na formação de professores como na aplicação da disciplina para os alunos. "Estamos também sendo procurados por professores da rede pública que desejam se capacitar para o mercado", conta Murin. "Na unidade da Bahia, em Valença, temos parceria com o Colégio Cetem para capacitar os professores. Em Macapá (AP), nossa parceria é com o governo, capacitando os professores da rede pública."

Murin explica que existem duas formas de oferecer o ensino do espanhol para as escolas. "No modo extracurricular, o colégio cede o local para as aulas, mas todo o trabalho fica por nossa conta, como se estivéssemos na escola oferecendo o curso a um custo 50% menor para o aluno", explica.  No modo intracurricular, "é como se o professor do curso trabalhasse para o colégio".

Outras franquias atuam de maneiras distintas. A rede Fisk, por exemplo, foca seu trabalho na venda dos kits de apostilas para professores e alunos. Já o sistema de ensino CPV elabora uma versão da apostila em espanhol para o ensino fundamental.

Autor

Bartira Betini


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