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O fio da memória

Desde os tempos dos professores régios, passando pelos mestres-escolas e normalistas, a condição da profissão docente mudou muito. E, tal qual a educação, nem sempre para melhor

Publicado em 10/09/2011

por Fabiano Curi


Gabriel Prestes (ao centro), na época em que era diretor da Escola Normal de São Paulo, atual Escola Municipal Caetano de Campos, com professores, em 1895

Existem várias carreiras de futuro. Jovens apostam no estudo de inúmeras vertentes da tecnologia vislumbrando um mercado cheio de demandas. O professor, não. Este trabalha em uma carreira de passado. Qualquer docente iniciante, em contato com as suas primeiras turmas de alunos, discursa que bem vivia o professor de antigamente, com prestígio na sociedade e salário polpudo no bolso. Esse fascínio pelo professor de outrora já virou uma espécie de mito nostálgico que serve à idéia de que o educador do futuro deve resgatar as benesses do passado.

Mas até que ponto esse deslumbramento com um personagem já bastante romantizado pelo passar de muitas décadas tem algum fundo de verdade? O professor já viveu, sim, dias melhores, mas é obviamente impreciso falar em "professor do passado", uma vez que a história do educador brasileiro demonstrou muitas mudanças desde que a educação jesuítica foi escorraçada para dar início aos primeiros modelos educacionais incentivados pelo Estado. Dessa forma, pode-se falar de um profissional que viu a dinâmica de sua vida ser alterada em diversos momentos, mas que jamais esteve no panteão das carreiras.


Dentro de casa


Professoras em foto registrada na década de 60, na Escola Caetano de Campos

Até surgirem as escolas de Primeiras Letras, em 1827 (com a promulgação da Primeira Lei Geral da Educação, em 15 de outubro daquele ano), era comum o professor abrir a porta de sua casa para os alunos. Era o chamado mestre-escola. Os registros desses espaços de aula são praticamente inexistentes e a sua informalidade é exibida eventualmente em descrições literárias. "A gente trabalha com alguns indícios encontrados em relatórios ou em romances de professores", explica Rosario Lugli, professora de pedagogia da Unifesp de Guarulhos. O fato é que era comum uma pessoa com algum domínio da escrita e dos fundamentos matemáticos oferecer seus serviços para uma comunidade e lecionar em casa ou em outro espaço disponível qualquer. Esse ofício tem uma trajetória de quase 70 anos. Desde o momento em que "as Reformas Pombalinas da Instrução Pública organizam, pela primeira vez, em Portugal e nas colônias, um quadro de professores selecionados, controlados e pagos pelo Estado", explica Ana Waleska Mendonça, professora de educação da PUC/RJ. Esses professores, chamados de régios, se dedicavam à educação elementar. Sem os jesuítas, o ensino passa a ser laico, mas, em uma colônia escravocrata e majoritariamente analfabeta, é bastante comum encontrar padres entre os poucos letrados que se dedicam a lecionar.


Aula de caligrafia para meninos na Escola Caetano de Campos, em 1908

Ana Waleska esclarece que no período havia uma hierarquização da atividade. "Isso se reflete tanto no respectivo número de cadeiras oferecidas (os mestres de ler, escrever e contar são os mais numerosos), quanto nos salários diferenciados dos mestres e professores (tanto mais elevados quanto mais próximos dos estudos superiores), ou na própria diferenciação que se estabelece entre os mestres de ler, escrever e contar e os professores de gramática latina, retórica, grego e filosofia."


As primeiras leis

O principal objetivo dessas instituições era escolarizar os futuros educadores brasileiros. É importante lembrar que nesse período a Europa começava a mergulhar na segunda fase da revolução industrial e que as grandes cidades da Inglaterra estavam há quase cem anos recebendo um grande número de trabalhadores do campo em busca de empregos nas fábricas. Essa migração gerava demandas por bens e serviços como educação. O panorama europeu repercutia no Brasil, fazendo governo e elite verem no povo educado um modelo de civilização a ser seguido.


Rosario Lugli, da Unifesp: espaço docente só se abriu para as mulheres por desinteresse dos homens

Para isso, os normalistas foram iniciados no método monitorial, ou lancasteriano (de seu criador, o inglês Joseph Lancaster), em que alunos mais adiantados auxiliavam os outros em rudimentos da escrita, da leitura e do cálculo matemático. Apesar de já ser obsoleto na própria Inglaterra e usado com mais freqüência em suas colônias para educar a soldadesca, esse modelo era visto com bons olhos no Brasil, pois era bastante calcado na hierarquia e serviria para disciplinar e colocar ordem em um país deseducado e atrasado. "Escola Normal, no começo, é ensinar o que os professores vão ensinar: ler, escrever e contar", sintetiza Diana Vidal, professora da Faculdade de Educação da USP. E quem eram os professores dos normalistas? "São os homens letrados do Império, como escritores e advogados", diz a professora.

Com isso, a carreira de professor começa a se consolidar. "No período imperial houve uma evolução da profissão no sentido da profissionalização", conta Sérgio Castanho, professor da Faculdade de Educação da Unicamp. "Na parte final do Império, além da profissionalização, há também a feminização e o surgimento de uma imprensa pedagógica, com revistas específicas para professores."


Domínio das mulheres

O ensino secundário na Escola Normal era ministrado por homens, mas as mulheres são vistas com cada vez mais freqüência como alunas nessas instituições e rapidamente se tornam maioria no magistério. "São mulheres que não conseguiram se casar e também não tinham emprego em casa de família aquelas que assumem a posição de professoras", explica Diana Vidal. A partir de 1860, as novas escolas ofereciam vagas para turmas de mulheres regularmente, mas algumas já as freqüentavam antes disso.

A presença feminina nos bancos escolares gerou problemas na organização das instituições de formação de professores. Acostumadas a trabalhar exclusivamente com público masculino, tentaram ministrar seus cursos para turmas separadas em períodos ou dias diferentes, mas tiveram de ceder: em 1880 o número de mulheres normalistas superava amplamente o de homens.

Com um mercado de trabalho bastante restrito em uma sociedade machista, ainda que o magistério não fosse uma carreira que se equiparasse às mais prestigiosas, era melhor do que as disponíveis até então. A idéia de uma figura materna para cuidar da educação de crianças tinha adeptos em toda a sociedade, e a flexibilidade dos turnos permitia que as mulheres não abandonassem as tarefas domésticas. Além disso, segundo Rosario Lugli, da Unifesp, há estudos que defendem que o espaço se abriu para as mulheres em razão do desinteresse dos homens, que podiam ganhar mais em outras atividades.


Reformas republicanas

Ainda que muitos dos funcionários de educação não tenham mudado com o final do Império e início da República, logo nos primeiros anos republicanos a educação passa por mudanças que alteram o papel do professor. De acordo com Sérgio Castanho, da Unicamp, "São Paulo promove uma reviravolta que se irradia para todo o Brasil". Foi criada em 1890 a Escola-Modelo para homens e mulheres com o objetivo de experimentar novas práticas pedagógicas. Em intercâmbio com educadores norte-americanos, a pedagogia da escola incorporou princípios liberais que direcionavam a educação para a formação de crianças que adotassem rotinas e hábitos presentes no mundo do trabalho.


Diana Vidal, professora de história da educação da Feusp: no início do século 20, professor teve prestígio social em uma sociedade essencialmente analfabeta

A efervescência da educação em São Paulo é alimentada pela Constituição Paulista de 1891, que dividiu o ensino em primário, secundário e superior e tornou a primeira etapa gratuita e obrigatória. Para atender ao alunado desse segmento, inclusive os adultos que não haviam freqüentado a escola, grandes prédios de grupos escolares foram construídos, concentrando o público de até dez escolas isoladas. Um estudo do pesquisador Carlos Monarcha aponta o crescimento de 38 grupos escolares para 160 entre 1898 e 1914 em São Paulo. Isso para atender o aumento de 14.427 alunos para 157.232 no mesmo período. Na capital, alguns desses grupos escolares estão situados em bairros operários e permitem que crianças de famílias mais pobres recebam a mesma educação dada nas unidades fincadas em bairros ricos que atendem o público de classe média.


Prestígio mal pago

O professor do início do século 20 no Brasil sustentava certo prestígio tanto para a sociedade quanto para si mesmo. "Ele se via como um intelectual", sugere Heloísa Villela, professora de História da Educação na Universidade Federal Fluminense. Diana Vidal, da USP, chama a atenção para o contexto desse período: "Ele teve muito prestígio social em uma sociedade essencialmente analfabeta, em que o ingresso na cultura letrada significava inclusive o ingresso na cidadania". E completa:

"Na República, o analfabeto não votava, e isso só mudou em 1988. Aquele que detinha um lugar nessa sociedade, lidando diretamente com a cultura letrada, tinha um prestígio social grande".

Quando questionada se essa auto-percepção do professor mudou muito nos últimos cem anos, Heloísa diz que sim. Apesar de deixar claro que não pesquisa o perfil desse profissional nos dias de hoje, a convivência com alunos que serão os novos docentes revela as diferenças. Ela diz que o professor do ensino básico de hoje se vê como um técnico e que apresenta algumas deficiências de formação bastante significativas. Heloísa indica que, com a grande proliferação de cursos superiores, as instituições estão recebendo um alunado cada vez mais oriundo das classes populares, que em sua maioria teve uma educação pública de baixa qualidade. Esse grupo fica fechado em um ciclo de educação e formação bastante aquém do razoável.

Ana Waleska Mendonça, da PUC-RJ, concorda: "Nas grandes cidades, o professor das séries iniciais possui formação em nível superior, o que, entretanto, não é garantia de uma melhor qualificação. Até porque, com a expansão indiscriminada das instituições de ensino superior, a qualidade do ensino oferecida é muito heterogênea".

Muitos dos normalistas do início do século 20 também não vinham das classes mais altas, mas a docência permitia a ascensão social. Não se ficava rico, mas era bem comum encontrarmos a consolidação de famílias de professores em uma classe média bastante confortável. Heloísa, contudo, relembra que nesses outros tempos as ambições sociais eram consideravelmente diferentes das contemporâneas, nas quais o consumo é muito mais estimulado e perseguido. Ela acha que o professor tinha mais acesso a bens culturais e uma formação mais rica, mas considera difícil precisar detalhes dessa vida social pela falta de registros.

De qualquer forma, apesar de um cenário aparentemente melhor do que o visto nos dias de hoje, o profissional que optava pelo magistério começou cedo as suas reivindicações por condições de trabalho e remuneração mais dignas. "No final do século 19 já temos mobilizações de professores pedindo melhores salários", conta Sérgio Castanho, da Unicamp.


Estado Novo

A articulação de professores como uma categoria profissional, apesar de começar a se manifestar no século 19, se estrutura de fato apenas no século 20, principalmente com a concentração de escolas em grandes centros urbanos que se formam. O papel do docente ganha um novo status a partir da década de 1920: mais do que ensinar os iletrados a ler e escrever, ele deve civilizar seus alunos. Ganha ênfase o modelo da Escola Nova, influenciado pela modernidade importada dos Estados Unidos e adaptada aos valores brasileiros.


Quando os professores se organizam como categoria, nos anos 50, os salários se achatam, lembra Ana Waleska Mendonça, da PUC/RJ

O ideal republicano do final do século 19, que esbarrou nas condições materiais precárias e na parca oferta de instalações físicas, era agora uma meta nacional. Esse movimento enaltece uma educação das elites por meio da criação de institutos de pesquisa e de universidades. A escola primária, assim, se desenvolveria de acordo com o pensamento produzido por essas elites.

Enquanto isso, até que se edite a primeira Lei de Diretrizes e Bases, em 1961, o ensino secundário vai obedecer aos decretos estabelecidos pelo ministro de Educação e Saúde dos governos Vargas, Gustavo Capanema, segundo os quais se destinará à preparação para o ensino superior, responsável por gestar a elite pensante do país. Para as classes populares, o modelo será um prolongamento profissionalizante do primário.

É também nesse período que o aluno passa a receber atenção e a se tornar um agente em sala de aula. O ensino enciclopédico, com conteúdo normalmente originário da Europa, dá lugar aos assuntos nacionais e regionais.


Deterioração da categoria

Não é possível identificar um fato único para o declínio do prestígio e das condições de trabalho do docente. Muitos autores consideram que a década de 1960, por causa da grande expansão das escolas e dos problemas econômicos enfrentados no país, inclinou a ladeira em que a profissão começou a descer. "Em São Paulo, desde o final dos anos 50, os professores se movimentam por melhores salários e isso se intensifica nos anos 60", cita Paula Vicentini, professora de educação da PUC-SP. "Em 70, aparecem os primeiros professores contratados a título precário, sem vínculo com o Estado ou concurso."

Ainda que gozasse de algum prestígio, o professor primário nunca se viu largamente remunerado. Segundo Paula, há registros de que na década de 1920 alguns docentes trabalhavam em outras atividades em busca de renda extra, e de outros que enfrentavam dois ou até três períodos nos grupos escolares. Nas décadas seguintes, de acordo com a professora, essas práticas se tornaram cada vez mais rotineiras.

Ana Waleska Mendonça, da PUC-RJ, adiciona que é apenas na década de 1950 que a categoria docente se profissionaliza verdadeiramente. "O que é, de certa forma, perverso é que, nesse momento, os salários desses professores começam a sofrer uma forte desvalorização, o que vai levar ao fenômeno, hoje comum, de o professor trabalhar em duas, três, às vezes quatro instituições diferentes", afirma.

Ainda que a profissão de docente esteja definhando, não é de hoje que o professor clama por prestígio e salário honrado. O fato é que o docente brasileiro nunca foi verdadeiramente bem remunerado e, em algumas regiões, provavelmente trabalha de maneira semelhante à do mestre-escola. Diana Vidal, da USP, lembra que os diferentes modelos de ensino que foram sendo introduzidos no Brasil não acabaram completamente com os já existentes. "Se você for para a Amazônia, ainda encontrará escolas em que o professor mora na parte de trás."



Ensino missionário

Antes de o Estado se preocupar com a educação dos brasileiros, o ensino foi comandado por mais de dois séculos pelos jesuítas da Companhia de Jesus. Ao desembarcarem no Brasil em 1549, esses padres tinham como objetivo propagar a fé católica e promover a educação elementar. Nas primeiras escolas jesuíticas, meninos filhos de colonos eram ensinados a ler e a escrever.

Os jesuítas também formaram os futuros educadores: os melhores alunos da colônia davam seqüência aos estudos na Europa para voltarem como pregadores e professores que trabalhariam na conversão dos índios. Além disso, os "colégios jesuítas forneciam um ensino que se poderia considerar equivalente ao ensino secundário", explica a professora do curso de Educação da PUC-RJ, Ana Waleska Mendonça.

A secularização da educação em Portugal e nas colônias, promovida pelo Marquês de Pombal, tirou das mãos jesuíticas o monopólio do ensino público no Brasil em 1759, mas a formação de educadores por professores régios enviados de Portugal não vingou. Os estudantes continuavam fiéis aos antigos métodos e não se conseguiu atrair novos alunos. Assim, com a falta de professores, os padres acabaram sendo reabsorvidos, cobrando pelo ensino rudimentar como mestres-escolas.

Autor

Fabiano Curi


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