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O que é poesia

Grau intenso da linguagem, ela sugere reflexões sempre que a relemos. Por isso a relemos

Publicado em 10/09/2011

por Braulio Tavares

A poesia é praticada há milhares de anos, em todas as regiões do mundo, nos idiomas e contextos culturais mais diferentes. Se fosse possível reunir exemplos de tudo que já foi considerado poesia em seu tempo (e fosse possível examinar eqüitativamente todo esse material), encontraríamos elementos constantes que seriam a medula da poesia? O que há em comum entre a poesia dos rapsodos gregos da Ilíada e a de futuristas russos do século 20? Podemos comparar um salmo do rei Davi e um soneto de Rimbaud? O que há em comum entre um poema concreto da vanguarda paulista dos anos 1960 e um romance ibérico do século 15? E entre as sextilhas do cordel nordestino e um poema épico de Dante ou Virgílio?
Além disso, a poesia tem uma história de ziguezagues. Muitos movimentos poéticos, como os de vanguarda ou contestação estética, afirmam-se pela rejeição ao que era até então poesia. Vou propor uma definição que uso. Algo a aplicar-se ao que poetas brasileiros escrevem e leitores brasileiros lêem em 2008.

“Poesia é uma forma de criação literária em que se busca linguagem auto-referencial, mais condensada do que a da prosa, sujeita a mais nuances de interpretação, e na qual ritmo, repetições e aspectos sensoriais e visuais do texto têm maior importância.”

É boa definição? Nem tanto. É longa, cheia de cláusulas e condições, difícil de memorizar. Quero usá-la só para indicar elementos que, hoje, no mundo em que vivo, são considerados importantes para a poesia. Vamos examiná-los um por um.

Nenhum poema contém todos os elementos dos quadros desta página na mesma medida. Não é preciso. Ninguém faz poesia seguindo receita. Fazer é ler, viver, pensar, escrever, para que cada frase pareça ser a soma de uma vida inteira.   

Braulio Tavares é compositor e autor de livros como Contando Histórias em Versos – Poesia e Romanceiro Popular no Brasil (Editora 34, 2005) e ABC de Ariano Suassuna (José Olympio, 2007)

UMA CRIAÇÃO LITERÁRIA

Primeiro: é uma forma de criação literária, algo feito com palavras. Dizemos muitas vezes que “esse filme é muito poético”, “este quadro tem uma poesia muito grande” etc. A poesia a que nos referimos nesse caso não é a poesia literária. É uma espécie de emoção estética que pode ser proporcionada por outras artes. Dizemos que algo é poético para dizer que aquilo nos toca a sensibilidade e não o intelecto. O vínculo que estabeleceu conosco não foi por meio do entendimento, e sim da afetividade. Nada de errado com esse uso, contanto que a gente não perca de vista que poesia, mesmo, se faz com palavras.

Auto-Referancial ?
Porque a poesia não quer ser uma vidraça transparente que quanto menos for vista melhor, para que possamos ver algo que existe além dela.  Nada disso. A poe­sia é uma linguagem que quer ser vista, quer ser saboreada, degustada, apalpada, usufruída. Não por exibicionismo, mas porque a poesia é o grau mais intenso da linguagem. Ela exige do poeta uma consciência muito aguda do que escreve, e exige o mesmo do leitor que lê.  “Poiesis”, em grego, quer dizer isto: coisa feita com capricho, criação que é fruto da habilidade técnica. A interferência transformadora da ação humana sobre a massa informe
da realidade.

A POESIA É “MAIS CONDENSADA” DO QUE A PROSA?
Tudo se dá numa escala que vai do mínimo ao máximo. Nossa linguagem cotidiana, de mera troca de informações e redundâncias, é o estágio mais diluído da linguagem. A prosa literária está bem acima dela; e a poesia está por cima de tudo.

Claro que isso varia de autor para autor, de obra para obra, e até de trecho para trecho dentro de uma mesma obra. Há prosadores (Guimarães Rosa, James Joyce) cuja prosa atinge com freqüência um grau de concentração equivalente à da maioria dos poemas. 

A poesia precisa, também, de “mais nuances de interpretação”.  É uma linguagem alusiva (que se refere a muitas coisas de maneira indireta) e elusiva (que nos escapa por entre os dedos quando pensamos que conseguimos agarrá-la). Daí o desconforto que ela produz em leitores muito apegados à clareza, à precisão, ao sentido único. Ela é o contrário disso. Não porque seja feita de obscuridade, desleixo, falta de sentido, mas por ser feita de zonas entrelaçadas de luz e sombra, e da presença simultânea de noções que se contradizem e se enriquecem. Um poema nos sugere interpretações diferentes sempre que o relemos. E é por isto que o relemos.

O VALOR DO RITMO
Qual a importância de “ritmo” e “repetições” (como rima, repetição organizada de sons) para a poesia?
Primeiro, isso nos lembra a origem oral da poesia. É feita de sons, e temos prazer em manipulá-los como se fossem música. É bom combinar cadências, explorar as sonoridades de vogais e consoantes, fazer com que palavras se associem por som, criando sentidos inesperados. Ritmo é uma simetria auditiva que produz tanto prazer quanto a harmonia visual.  

SENSORIAL E VISUAL
As palavras podem criar imagens vívidas, surpreendentes, marcantes, imagens que valem pelo que têm de imagem. Nada explicam, e parecem nunca parar de nos dizer algo. Por outro lado, o próprio aspecto visual do poema é importante. Quando abrimos a página, a primeira coisa que vemos, antes de ler, é o formato do poema, a mancha gráfica estendendo-se diante dos olhos, antes de decifrarmos a primeira sílaba.  Sentimos a presença visual do poema, no espaço da página, antes de saboreá-lo no tempo.

Autor

Braulio Tavares


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