NOTÍCIA

Edição 279

PUC-Campinas cria reitoria de inovação

Instituição investe em inovação, com olhar mais profundo e produtivo acerca das tecnologias digitais na educação

Publicado em 26/10/2023

por Ensino Superior

ATIV10 Sala de multipráticas do Ativ10 (foto: divulgação/PUC-Campinas)

O uso da tecnologia digital na educação é um caminho sem volta e abriu um horizonte de possibilidades e questionamentos. O quanto ela é aliada do aprendizado e o seu impacto na educação da criança e do jovem são dúvidas com as quais os gestores e educadores se defrontam. Avaliar as novas ferramentas e preparar-se para a sua utilização em sala de aula também são um desafio constante daqui para a frente. É em meio a esse cenário de transformações profundas que a PUC-Campinas se prepara para inaugurar o seu Ativ10, um espaço para pesquisa e desenvolvimento de metodologias e tecnologias inovadoras, o braço acadêmico de seu programa de inovação.

“Vamos colocar um olhar mais profundo e produtivo para o uso da tecnologia, tentar entender melhor o que está acontecendo. Vamos formar professores que de fato olhem para os benefícios que a tecnologia pode trazer, sem a ilusão de que vai resolver todos os problemas”, afirma Camila Campos, pró-reitora de inovação da PUC-Campinas.

Primeira universidade de Campinas, criada há 82 anos – um pouco antes da Unicamp – a PUC-Campinas já formou 200 mil profissionais. Oferece 69 cursos de graduação, com previsão de novos cursos para 2024. São mais de 100 de atualização e de curta duração, 30 especializações e 10 programas de mestrado e doutorado. Atualmente, circulam pelos três campi da universidade cerca de 15 mil alunos e 700 docentes.

 

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Camila Campos

Camila Campos, pró-reitora de inovação da PUC-Campinas (foto: divulgação/PUC-Campinas)

Camila é professora, “é assim que me apresento”. Ingressou na PUC-Campinas como professora de administração para a área de negócios, há 17 anos, e se especializou em educação com doutorado na Unicamp. Veio, então, construindo sua trajetória como gestora. Iniciou nas atividades administrativas, fez parte do Grupo de Apoio Pedagógico, atuou na pró-reitoria de graduação com ênfase no apoio pedagógico, em projetos específicos, foi diretora adjunta do curso de comércio exterior, diretora do centro de economia e administração.

“Tive a oportunidade de dar aulas em todos os centros, em várias áreas do saber – na saúde, humanas, economia e negócios, engenharias. Cada curso com professores e alunos com olhares específicos para suas áreas, diferentes dos demais.” Essa experiência, diz Camila, é a base para sua atuação na inovação, um setor que as IES já não podem mais ignorar. Seu cargo foi criado este ano. “É difícil pensar a inovação dentro da rotina”, explica. “O Ativ10 é a inovação do ponto de vista acadêmico, é uma das minhas atribuições. A inovação vem no sentido de tornar a universidade cada vez mais relevante para a sociedade e para as organizações, neste momento de grandes mudanças.”

 

O Ativ10 e a capacitação de docentes

 

Uma área de 1.300m2 abriga dez espaços para atividades diferentes e simultâneas. Entre os ambientes estão a sala multipráticas, destinada à pesquisa de novas metodologias de ensino, e a sala de atividades híbridas, para orientação de estudantes, defesa de bancas com participação remota, reuniões entre instituições e grupos de pesquisa. “A ideia, aqui, é aumentar a sensação de presencialidade”, explica Camila. A integração com outras universidades também é um objetivo, com a realização, por exemplo, de aulas-espelho. “Um professor da PUC-Campinas ministrando uma parte da aula e um professor do Brasil ou do exterior ministrando outra parte.”

Uma arena imersiva com capacidade para 120 espectadores abrigará palestras nacionais e internacionais em holograma, seminários pitchs e teatro imersivo, com transmissão em tempo real. O prédio tem, ainda, espaço reservado para co-studying e outro, de convivência, interativo, para a recepção e assistência de estudantes. Há pelo menos duas dezenas de projetos já desenhados para a utilização do novo espaço, com inauguração agendada para fevereiro de 2024. O principal objetivo do Ativ10 é formar e capacitar estudantes da própria universidade, de licenciaturas e docentes da região metropolitana de Campinas, numa tentativa de confrontar o que Camila aponta como o paradoxo no contexto atual da educação brasileira.

“Falamos muito da educação como um pilar importante, inclusive para o futuro do país, mas estamos com muita dificuldade de formar professores. Os cursos de licenciatura são pouco procurados, por conta da desvalorização da profissão. Na PUC-Campinas, aqueles que ainda querem e vêm, têm dificuldade de se manter no curso; outros acabam considerando fazer outras atividades, não têm realmente o desejo de ser professor. É preciso observar muito esse movimento porque estamos formando cada vez menos professores.”

 

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A capacitação de docentes da rede pública contará com parceria do poder municipal e capital social privado. “Há capital filantrópico que quer investir na educação. Nós conseguimos dar uma destinação correta para essa demanda. Temos o programa, a capacidade de trazer os professores, capacitá-los, acompanhá-los em sala de aula e avaliar o resultado por meio de pesquisa.” Camila destaca que a PUC-Campinas já atua na comunidade, por meio de projetos de extensão, inclusive na formação de professores. Com o Ativ10, “a ideia é a formação de redes para os grandes desafios da sociedade. Educação é um dos grandes desafios. Estamos aqui para ajudar e abertos quanto à maneira de participar”.

“Outro objetivo com esse espaço é aproximar as universidades corporativas”, conta Camila. Empresas e entidades criam suas universidades corporativas para treinar aspectos técnicos específicos daquela área ou profissão. O ensino, entretanto, não é apenas o conteúdo técnico. “Vamos integrar metodologias e tecnologias educacionais, expertise da universidade. O ensino por competências, como desenvolver o currículo, como fazer as atividades com os alunos, tudo isso podemos colaborar com as universidades corporativas, e elas podem usar o nosso espaço também.”

Os estudantes dos cursos de TI serão estagiários em meio aos desenvolvedores e designers de jogos educativos. “Os games são muito conhecidos para entretenimento, mas são muitas as possibilidades de utilizar esses jogos para a educação.”

 

Pesquisa x Alarmismo

 

A tecnologia digital na educação traz frentes de pesquisas múltiplas e desafiadoras. O ensino híbrido é uma delas. “O ensino híbrido pode ser pensado de várias formas, por exemplo, trazer a tecnologia para dentro da sala de aula, e usar um pouco do que é virtual, em ambiente presencial. No Ativ10 vamos utilizar metodologias em que mesclamos a possibilidade de fazer atividades presenciais e virtuais. Ou ao mesmo tempo, ou intercaladas, dependendo da metodologia”, detalha Camila. Acompanhar o movimento mundial em torno do uso da tecnologia digital na educação é outra tarefa. Camila cita o Relatório GEM 2023 da Unesco, publicado em julho, e destaca que o documento chamou a atenção para a falta de evidências sólidas e robustas quanto ao valor agregado da tecnologia na educação. A questão “Tecnologia que serve a quem?” reverbera. “Realmente, um grande campo de discussão.”

Recentemente, outro fato alardeado pela mí-dia causou sobressalto. A Suécia, que utiliza educação digital desde os anos 90, deu um passo atrás em seu programa e está investindo, ao longo deste ano de 2023, 45 milhões de euros em livros didáticos impressos. “A decisão foi fundamentada nos resultados da avaliação do Pisa, que apontou uma queda na capacidade leitora dos estudantes. Daí a Suécia resolveu mudar e faz todo o sentido.” Para Camila, o que não faz sentido são as posições alarmistas.

“A tecnologia muda muito rápido, e muitas vezes será difícil avaliar o impacto. Um aspecto que já percebemos é a falta de estudos sérios. O Ativ10 também será destinado à pesquisa e ao levantamento de dados.”

 

Esta reportagem sobre inovações acadêmicas na PUC-Campinas faz parte da edição 279 (outubro/2023) da Revista Ensino Superior. Assine.

Autor

Ensino Superior


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