Educação

Colunista

Thuinie Daros

Diretora de planejamento acadêmico na Vitru Educação

Reimaginando a educação superior com pensamento antecipatório

Gestores e professores que adotam o pensamento antecipatório podem não apenas transformar suas instituições, mas também criar um impacto positivo e sustentável na sociedade

Pensamento antecipatório Estratégias de pensamento antecipatório permitem a identificação de oportunidades

Ensinar o futuro é urgente. Em um mundo onde as discussões ainda se fixam no curto prazo — limitadas a cenários econômicos e políticos — surge um novo paradigma: o dos pensadores de futuros antecipatórios. Com 258 milhões de jovens ainda fora das salas de aula e uma crise climática ameaçando a nossa existência, o papel das instituições educativas nunca foi tão crucial. Como afirma Wendell Bell, “Sem pensar no futuro podemos REAGIR, mas não AGIR, porque agir exige antecipação.”

Mas, como podemos preparar nossos estudantes e instituições para enfrentar as incertezas e a inevitabilidade das mudanças? Estamos prontos para adotar uma mentalidade que acolha a ideia de futuros alternativos, projetando e experimentando diferentes cenários para garantir uma educação mais relevante, inovadora e sustentável? Ou iremos seguir vivendo em realidades não idealizadas por nós?

É hora de abraçar a antecipação e transformar a maneira como pensamos e ensinamos o futuro. Ao fazê-lo, não só nos preparamos para o inesperado, mas também moldamos ativamente um futuro mais desejável e impactante para todos.

 

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Vivemos em um momento histórico onde a incerteza e mudanças aceleradas são constantes. No entanto, é precisamente neste contexto que o pensamento antecipatório se torna uma habilidade essencial. Ele nos capacita a aprender, preparar e agir diante dos cenários exponencializados, promovendo uma mentalidade orientada ao futuro com potencial de modificação dos modelos de oferta da educação superior presentes.

Vale destacar que o pensamento antecipatório não é uma ferramenta para prever o futuro, pois isso não é possível. Em vez disso, é uma abordagem para projetar e experimentar futuros alternativos usando a projeção e a imaginação. Ciência e imaginação trabalham de mãos dadas para a criação de novos produtos e serviços, moldando nosso caminho a seguir. Ao adotar esta mentalidade, rompemos com a visão predominante de curto prazo e abraçamos a inovação em um contexto social dinâmico.

Como gestora educacional e estudiosa no campo de futuros acredito que é imprescindível usar metodologias de projeção, como a análise de tendências, a identificação de sinais fracos e a consideração de eventos inesperados. Essas ferramentas permitem explorar e entender as diferentes possibilidades futuras, tornando-nos mais preparados para lidar com as inevitáveis mudanças e, até mesmo, co-criará futuros desejáveis. Isso impacta diretamente o portfólio de produtos, abrangendo tanto a continuidade e a descontinuidade quanto o lançamento de novos produtos e serviços com foco na sustentabilidade. 

 

Mudanças marginais não são mais suficientes

A maioria das instituições de educação superior estão mergulhadas em mudanças marginais, pensando apenas em transformação digital e inovações pontuais. Focam apenas em melhorias de processos e na resolução de problemas a partir de dores cotidianas. Embora isso seja importante, precisamos olhar de forma sistêmica e também a longo prazo, aliando a prospectiva estratégica.

Para verdadeiramente transformar a educação superior, é necessário adotar uma abordagem integrada que vá além da digitalização. Isso envolve a criação de um ambiente acadêmico que valorize a experimentação, a reflexão, criatividade, a mobilização da imaginação e a antecipação de futuros. 

Ao ultrapassar as mudanças marginais e adotar uma estratégia de transformação profunda, a educação superior pode realmente se preparar para os desafios do futuro, oferecendo uma experiência educacional que é não apenas resiliente, mas também profundamente inovadora e relevante.

 

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A transformação na educação superior não é possível da forma tradicional como imaginamos. Dentre os estudos que destacam a necessidade de uma mudança radical está a pesquisa Class of 2030, que busca compreender como estudantes, professores e especialistas veem o modelo de educação atual, a fim de encontrar respostas para transformação dos modelos para uma geração em rápida e constante mudança.

Embora o relatório “Class of 2030” da Microsoft e McKinsey não seja recente, ele continua a oferecer insights cruciais que ainda não foram plenamente superados. Um dos temas mais destacados na pesquisa é a importância de desenvolver e aplicar competências comportamentais e emocionais na aprendizagem. De acordo com o relatório, 50% dos estudantes entrevistados priorizam essas competências, enquanto apenas 30% dos professores compartilham dessa visão. Além disso, competências digitais, criatividade e habilidades de relacionamento e estabelecimento de vínculos com os professores foram fortemente valorizadas pelos alunos.

Os estudantes também expressaram um desejo claro por um estudo mais personalizado: “os estudantes querem ser criativos e acreditam que aprendem mais quando têm mais voz e escolha e recebem feedback personalizado” (Microsoft, McKinsey, 2018).

 

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Esta demanda por personalização no aprendizado reflete a necessidade de reformular as abordagens pedagógicas que se alinhem às expectativas e necessidades dos alunos e hoje a Inteligência Artificial generativa pode oferecer isso, desde que utilizada de forma ética e responsável. 

A pesquisa destaca ainda que a incorporação de tecnologias no ambiente educacional, tanto dentro quanto fora da sala de aula, é extremamente benéfica. Com inteligência artificial, por exemplo, os professores podem economizar até 30% do seu tempo, permitindo uma maior dedicação à educação de qualidade. 

Portanto, para uma verdadeira transformação na educação superior, é crucial adotar o pensamento antecipatório e metodologias de projeção, como a análise de tendências, a identificação de sinais fracos e a consideração de eventos inesperados. Ao fazer isso, podemos explorar e entender as diferentes possibilidades futuras e estar mais preparados para lidar com as inevitáveis mudanças, co-criando futuros desejáveis que impactem positivamente os portfólios de produtos e serviços educacionais.

 

Futuro como possibilidade

Para ajudar na criação de cenários e praticar o pensamento antecipatório, precisamos de estratégias que ajudem a organizar o pensamento sistêmico. Uma das mais conhecidas é o “Cone dos futuros”, um conceito desenvolvido pelo futurista Joseph Voros. Este recurso visual ajuda a ilustrar a gama de possíveis futuros, mostrando como diferentes trajetórias podem se desenrolar a partir do presente. O cone se expande à medida que avançamos no tempo, simbolizando o aumento da incerteza e a diversidade de futuros possíveis.

Ao considerar o Cone dos Futuros, por exemplo, e as diferentes categorias de futuros que ele engloba, torna-se evidente que o futuro não é um destino fixo, um ponto final ou mesmo algo que não há o que se fazer, mas sim um lugar de possibilidades. É crucial que estejamos preparados para explorar e nos adaptar a essas diversas trajetórias, pois elas podem influenciar significativamente nossas vidas e as organizações da educação superior.

Cone de futuros

Fonte: cone de futuros adaptado por Daros e Tomelin na obra Pedagogia de Futuros (2024)

Ao adotar o cone dos futuros e outras metodologias de pensamento antecipatório, as instituições de educação superior podem não apenas se preparar para um futuro incerto, mas também moldá-lo de acordo com suas visões e objetivos estratégicos. Isso cria uma educação superior mais resiliente, inovadora e alinhada com as necessidades e expectativas de um mundo em constante mudança.

 

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No contexto da educação superior, gestores e professores que adotam o pensamento antecipatório podem não apenas transformar suas instituições, mas também criar um impacto positivo e sustentável na sociedade. Implementando estratégias de pensamento antecipatório, eles são capazes de identificar oportunidades e projetar inovações que promovam um futuro sustentável e resiliente.

Como costumo afirmar, se o futuro é uma possibilidade, há inúmeras oportunidades de futuros desejáveis que ainda não conhecemos. Manter nossas mentes abertas e considerar uma variedade de futuros nos posiciona de forma mais resiliente e preparada para inevitabilidade das mudanças que estamos vivendo.

Ao explorar e imaginar diferentes cenários, não apenas nos preparamos para o inesperado, mas também moldamos ativamente o futuro, transformando desafios em oportunidades e construindo um caminho mais inovador e sustentável para a educação superior.

 

MICROSOFT, MCKINSEY. The class of 2030 and life-ready learning: The technology imperative. Microsoft, McKinsey. [S.l.], p. 31. 2018.

 

Por: Thuinie Daros | 29/05/2024


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