NOTÍCIA
A escola constitui a principal — e por vezes a única — circunstância estruturante capaz de alterar trajetórias
Publicado em 13/01/2026
Ilustração: Shutterstock
Por Miguel Copetto, de Portugal*
As biografias excecionais tendem a ser lidas como narrativas de mérito individual absoluto. A história consagra o talento, a disciplina e a força de vontade, frequentemente dissociando esses atributos do contexto social, institucional e histórico que os tornou possíveis. No entanto, uma análise mais atenta revela que nenhum percurso extraordinário se constrói no vazio. A grandeza é sempre o resultado de uma interação entre potencial individual e condições estruturantes.
Os casos de Pelé e Cristiano Ronaldo — dois dos maiores atletas da história contemporânea — permitem ilustrar, com particular clareza, essa relação entre talento e contexto. Mais do que exemplos desportivos, são metáforas sociais sobre mobilidade, oportunidade e o papel decisivo das instituições na transformação do destino humano.
Pelé nasceu em Três Corações, no interior de Minas Gerais, em um Brasil marcado por profundas desigualdades, escassez material e limitada mobilidade social. Sua infância, vivida em Bauru, foi atravessada pela necessidade, pelo trabalho precoce e por um cotidiano em que o futebol de rua funcionava como espaço de expressão e pertencimento, não como um projeto de vida estruturado.
Cristiano Ronaldo, por sua vez, nasceu décadas mais tarde, mas também longe dos centros de privilégio. Cresceu em um bairro modesto da ilha da Madeira, em um contexto familiar simples, em um território periférico em relação aos grandes centros econômicos e desportivos europeus. Assim como Pelé, não escolheu o lugar onde nasceu, nem as condições iniciais de sua existência.
Esses pontos de partida revelam uma verdade essencial: ninguém escolhe as circunstâncias iniciais da própria vida. A origem social não é mérito nem demérito — é um dado estrutural. O que distingue trajetórias comuns de percursos excepcionais é a capacidade que uma sociedade tem de transformar a origem em ponto de partida, e não em destino final.
O talento, por si só, é insuficiente. Ele pode existir em abundância e, ainda assim, permanecer invisível. Pelé poderia ter seguido uma vida anônima de trabalho manual, como tantos outros jovens do interior brasileiro dos anos 1940, não fosse a existência de clubes locais, treinadores atentos e um mínimo de organização institucional capaz de reconhecer, acolher e desenvolver aquele potencial extraordinário.
O mesmo se aplica a Cristiano Ronaldo. Seu percurso só se tornou possível porque existiram estruturas de formação, redes de observação, clubes organizados e uma cultura desportiva que valorizava o desenvolvimento sistemático do talento. Em ambos os casos, o mérito individual encontrou um enquadramento institucional favorável.
Essas circunstâncias não surgem por acaso. São construídas socialmente. Resultam de decisões políticas, de investimentos coletivos e da existência de instituições que acreditam que o talento pode emergir em qualquer lugar — e que, por isso, deve ser identificado, cultivado e acompanhado.
O percurso de Pelé ilustra de forma exemplar essa lógica. O menino que, não fossem determinadas circunstâncias, provavelmente teria permanecido no interior do Brasil, veio não apenas a tornar-se o maior símbolo do futebol mundial, mas também a assumir funções públicas ao mais alto nível, como ministro nacional. Essa trajetória não se explica apenas pelo talento desportivo, mas pela capacidade de compreender o seu tempo, reconhecer o valor simbólico da própria experiência e projetá-la para além do campo de jogo.
Algo semelhante ocorre com Cristiano Ronaldo. Nascido no bairro de Santo António, no Funchal, poderia ter seguido um percurso errante ou precário, como tantos outros jovens de contextos sociais semelhantes. No entanto, à excelência desportiva somou-se uma notável argúcia estratégica e intelectual, que lhe permitiu construir uma carreira, uma identidade pública e um projeto de vida que ultrapassam largamente o futebol. Ambos souberam transformar circunstância em oportunidade — e oportunidade em percurso.
Se o futebol foi, para Pelé e Cristiano Ronaldo, o grande elevador social, a educação é — ou deveria ser — o verdadeiro elemento transformador para a maioria das pessoas. Ao contrário do desporto de alto rendimento, que inevitavelmente seleciona poucos, a escola é a única instituição com capacidade para alcançar praticamente todos.
A escola constitui, para milhões de crianças e jovens, a principal — e por vezes a única — circunstância estruturante capaz de alterar trajetórias. É nela que se ampliam horizontes, se constroem competências, se desenvolve pensamento crítico e se cria a possibilidade real de mobilidade social. Uma escola de baixa qualidade não é apenas um problema pedagógico: é um mecanismo silencioso de reprodução da desigualdade.
Quando a qualidade da educação varia em função da renda, do território ou da origem social, a sociedade abdica de parte de seu próprio futuro. Talentos permanecem latentes, capacidades são desperdiçadas e a exceção substitui a regra. Pelé e Cristiano Ronaldo tornam-se mitos precisamente porque são raros — mas uma sociedade justa não pode depender do acaso para produzir excelência.
No percurso educativo, o ensino superior representa a última grande circunstância estruturante antes da plena inserção social e profissional. Universidades e instituições de educação superior não são apenas espaços de transmissão de conhecimento técnico; são instâncias de legitimação social, de ampliação de possibilidades e de consolidação de projetos de vida.
Por isso, a responsabilidade do ensino superior é dupla. Internamente, deve assegurar qualidade acadêmica, exigência intelectual e rigor científico. Externamente, deve garantir que o acesso ao conhecimento avançado não se converta em privilégio restrito, mas em instrumento efetivo de coesão social e desenvolvimento humano.
Uma universidade que exclui sistematicamente em função da origem social não é apenas injusta: é ineficiente do ponto de vista civilizacional. Perde-se inteligência, diversidade e capacidade de inovação. A excelência acadêmica não se opõe à inclusão; ao contrário, depende dela.
Pelé e Cristiano Ronaldo recordam-nos que a grandeza não nasce pronta. Ela emerge quando o talento encontra circunstâncias adequadas para se revelar. Essas circunstâncias não são dons naturais: são construções sociais, institucionais e educativas.
A educação — da escola básica ao ensino superior — é a mais poderosa dessas construções. Não garante resultados iguais, nem elimina todas as desigualdades, mas amplia o campo do possível. Em um mundo marcado por origens desiguais, oferecer educação de elevada qualidade ao maior número possível de pessoas não é apenas uma política pública: é um imperativo ético.
Talvez o verdadeiro desafio contemporâneo não seja produzir mais gênios excecionais, mas criar sistemas educacionais capazes de não desperdiçar talento. Porque, em última instância, o que distingue a modéstia da grandeza não é apenas o dom individual, mas a circunstância coletiva que permite transformá-lo em destino.

*Miguel Copetto é diretor-executivo da Associação Portuguesa de Ensino Superior Privado. Na coluna Cartografias do setor, trará um olhar lusófono e global sobre políticas, diálogos e transformações da universidade no século 21.