Revista Ensino Superior | A bússola da aprendizagem 2030

Educação

Colunista

Alexandre Gracioso

Especialista e consultor em ensino superior e gestão educacional

A Bússola da Aprendizagem 2030 e o desenvolvimento de competências

Projeto da OCDE oferece framework de implementação que poucas IES brasileiras exploraram

Bússola da aprendizagem Imagem: Shutterstock

Visualize uma cena que conhecemos bem: uma reunião de NDE, ou de colegiado de curso, para debater mudanças no currículo. Para ser mais concreto no exemplo, vamos pensar em um curso de Administração. A coordenadora abre a sessão agradecendo aos presentes e lembrando a todos do objetivo da pauta para o dia: identificar as melhores oportunidades de renovação curricular.

Neste momento, um professor da área de exatas diz que “precisamos de mais Excel, principalmente agora que a ferramenta integra Python e IA”. Outro colega, da área de humanas, afirma que o principal é desenvolver o pensamento crítico e as capacidades de comunicação e liderança. Uma professora fala em literacia financeira e uma colega psicóloga lembra da importância da saúde mental para toda a vida. Todas essas, os professores asseguram, são competências em alta demanda no mercado de trabalho agora e no futuro previsível. Ótimo, pensa a coordenadora, podemos partir para a implantação. E é aí, muitas vezes, que a coisa emperra. Ninguém sabe exatamente como traduzir essas ideias em termos curriculares e o currículo fica como está.

Essa cena, que acontece em instituições em todo o Brasil, mostra que o problema não é o diagnóstico. Os professores identificam corretamente as necessidades. O problema é a operacionalização. Como transformar a ideia de desenvolver competências transformadoras em currículos e planos de aula? Isso é mais difícil.

A Bússola da Aprendizagem 2030 da OCDE (OECD, 2019d) oferece não apenas a lista de competências, mas um framework de implementação que poucas IES brasileiras exploraram. E o relógio está correndo: 2030 está a menos de cinco anos de distância.

 

O problema que ainda não foi solucionado

Segundo o relatório Future of Jobs 2025 (WEF, 2025), o desenvolvimento de competências é uma questão crítica e urgente.

“As lacunas de competências são categoricamente consideradas a maior barreira para a transformação empresarial pelos respondentes do Future of Jobs Survey (Pesquisa sobre o Futuro do Emprego), com 63% dos empregadores identificando-as como um obstáculo principal para o período de 2025 a 2030. Consequentemente, 85% dos empregadores entrevistados planejam priorizar a requalificação (upskilling) de sua força de trabalho. Além disso, 70% dos empregadores esperam contratar pessoal com novas competências, 40% planejam reduzir o quadro de funcionários à medida que suas qualificações se tornarem menos relevantes, e 50% planejam realocar (transicionar) funcionários de funções em declínio para funções em crescimento”. (p.6)
—OCDE

Portanto, esse é um problema mundial, as instituições brasileiras não estão sozinhas na dificuldade de desenvolver as competências de seus estudantes. Considerando a realidade brasileira, no entanto, identifico três problemas fundamentais que impedem o avanço dessa pauta:

1. O conforto do planejamento: os PPCs normalmente mencionam o desenvolvimento de competências como sendo um objetivo importante, até porque os instrumentos do MEC levam esse aspecto em consideração explicitamente. No entanto, a realidade da sala de aula muitas vezes ignora os planos traçados;

2. Fragmentação curricular: competências socioemocionais, as soft skills muitas vezes são tratadas como um “puxadinho” no currículo e acabam sendo encostadas de lado;

3. Falta de sensibilização e de capacitação docente: ambos podem ocorrer. Alguns professores não perceberam a importância do desenvolvimento de competências que vão além das técnicas envolvidas diretamente no curso, enquanto outros talvez não saibam como esse desenvolvimento pode ocorrer.

 

A Bússola 2030

Visualmente, a Bússola da Aprendizagem 2030 (Learning Compass 2030) foi desenvolvida para se distanciar da ideia de um mapa rígido e sugerir uma navegação rumo a uma meta, um norte, um propósito (OECD, 2019g). Além disso, há a ideia de que a aprendizagem, de agora em diante, deixa de ser linear e não tem um fim determinado, tratando-se, pelo contrário, de um ciclo contínuo (OECD, 2019a).

A Bússola da Aprendizagem pressupõe uma aprendizagem ativa que integra conhecimento, habilidades, atitudes e valores, com um propósito claro, potencializar o bem-estar dos jovens e da sociedade. A OECD alerta que os jovens precisam de competências que as máquinas não replicam: inovar e criar valor, reconciliar tensões e dilemas, e assumir responsabilidade pelo coletivo (OECD, 2019g).

O desenvolvimento dessas competências só é possível com o fortalecimento da autonomia estudantil (student agency) (OECD, 2019f), definida como a habilidade de definir metas, refletir sobre ações e influenciar positivamente o próprio caminho e o mundo ao redor.

A concretização da Bússola 2030 se dá por meio do ciclo Antecipação – Ação – Reflexão (AAR), que coloca os estudantes no papel de protagonistas ativos não só na construção do conhecimento como no direcionamento de sua própria aprendizagem. Implantar o ciclo AAR nos currículos é um processo que pode ser pensado em vários níveis. Por exemplo, em níveis mais amplos, o estudante pode escolher algumas ou várias das disciplinas que irá cursar, de acordo com seus próprios objetivos, ou escolher entre fazer um projeto de conclusão em grupo, ou individual, empreendedor ou científico, ou voltado para trabalho comunitário. Em um nível micro, está o plano de aulas, que pode ser reformulado de tal forma que cada aula seja planejada para oferecer momentos de Antecipação, de Ação e de Reflexão. Vamos ver como isso pode ser feito na prática.

 

Dos conceitos ao currículo ao protagonismo do estudante

Sabemos que nenhuma ação de mudança significativa pode ser realizada sem um mapeamento da situação atual. Neste caso, o mapeamento consistiria em compreender, para cada disciplina do currículo, como cada uma delas contribui para o desenvolvimento de pelo menos uma das três principais competências da Bússola 2023. O principal produto desta primeira fase é uma matriz de correlação Disciplina x Competência x Método avaliativo. Cuidado com o currículo oculto, ou seja, com as competências que os professores afirmam que desenvolvem, mas não sem qualquer comprovação.

O segundo passo é a implantação, para a qual é recomendado um piloto. Identifique os professores que querem fazer parte da mudança e escolha três disciplinas, uma bem técnica, uma mais voltada para humanidades e uma terceira que seja intermediária – se isto fosse um modelo estatístico, diríamos que queremos variância na variável observável X. As aulas, ou experiências de aprendizagem, dessas três disciplinas devem ser reescritas:

  • 20% do tempo da aula dedicado à Antecipação (perguntas antes do conteúdo)
  • 60% Ação (aprendizagem ativa, não exposição)
  • 20% Reflexão (metacognição, não apenas “revisão”)

 

Leia: Economia da aprendizagem e as competências esquecidas

 

O terceiro passo é criação de momentos de escolha deliberada em que o estudante serás forçado a fazer escolhas significativas. É assim que se desenvolve autonomia cidadã. Por exemplo, escolher entre formatos diferentes de TCC, escolher entre fazer estágio no formato padrão ou construir um portfólio de microexperiências, escolher entre participar de um projeto de pesquisa com um professor ou participar de uma ação de impacto comunitário.

Finalmente, vem a aprendizagem dos próprios professores. Com o andamento do piloto, os professores envolvidos podem atuar como replicadores da experiência e uma comunidade de prática pode ser estabelecida para ampliar o alcance deste movimento. Algum treinamento formal pode ser necessário, mas o que talvez faça mais diferença será a aprendizagem por pares dos próprios docentes. É isso que irá convencer os outros integrantes da comunidade das possibilidades de sucesso e da importância da ação.

 

O custo de não mudar

Todos que trabalham com educação estão envolvidos no processo de construir uma sociedade melhor. Desconheço qualquer professor que não queira isso, que não se motive por esse objetivo. Mas, com uma taxa de desemprego entre os jovens mais do que o dobro da média nacional (IstoÉ Dinheiro, 2025), é preciso cuidar constantemente da aproximação do sistema do ensino superior com o mercado de trabalho.

Aqui na revista Ensino Superior, o colega Raul Galhardi (2025) já alertou sobre o déficit de mão-de-obra nas engenharias. Em uma pesquisa recente, o ManpowerGroup (2025) relata que a escassez de talentos afeta 3 a cada 4 empresas em nível mundial e 81% das empresas brasileiras que participaram da pesquisa. Esse indicador independe do porte da empresa e é mais elevado em áreas de maior concentração econômica como a cidade de São Paulo, onde a escassez atinge 88% das empresas participantes.

Portanto, há um campo enorme de aproximação com o mercado de trabalho esperando para ser ocupado. A Bússola 2030 oferece um caminho que equilibra a formação profissional com a formação cidadã, ou seja, é o melhor dos dois mundos. Não deve haver um dilema entre desenvolver competências para o mercado e desenvolver competências para a cidadania e para a vida.

 

Referências

Por: Alexandre Gracioso | 18/11/2025


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