Gestão

O caminho apontado por Paul LeBlanc

A transformação da educação superior ocorre em várias frentes numa IES. O aluno tem que ser considerado em primeiro lugar para o crescimento das organizações. LeBlanc, com suas credenciais de ter criado um ‘case’, vai falar com os gestores brasileiros

O livro “Students First: Equity, Access, and Opportunity in Higher Education”, de Paul LeBlanc, foi o que inspirou a concepção do 24º Fnesp. A partir da leitura do livro passamos a buscar outras referências de leituras, evidências e experiências de IES que possuem estratégias que priorizam o aprendizado e a experiência memorável do estudante. E aí, chegou-se ao título “É sobre o estudante, sim”.

Não basta oferecer conteúdo, infraestrutura, professores e outros serviços em um evento da magnitude do Fnesp. E por isso vamos debater que é preciso de fato cuidar do aprendizado, do conjunto de experiências e vivências sociais, do bem-estar, da saúde mental e do sucesso do estudante. Fazer gerenciamento de uma IES se tornou uma atividade ainda mais complexa e exige do gestor competências que extrapolam a administração executiva. Paul LeBlanc, por exemplo, é um especialista em educação baseada em competência. Transformou-se num estudioso da ciência da aprendizagem. 

Por que ter o estudante como tema central do Fnesp e por que o livro nos influenciou? Ao responder, esperamos que haja motivação para participar dessa experiência nos dias 29 e 30 de setembro. A constatação é óbvia: atuamos no setor da educação e somos responsáveis pela formação de estudantes. Eles precisam ser o centro da organização e da dinâmica administrativa e acadêmica da IES. Tudo, na instituição, deve ser pensado para melhorar a experiência de aprendizado.

Falha de comunicação e insustentabilidade financeira

Vivenciamos um contexto em que o valor da educação superior é questionado. Há evidente queda das matrículas, especialmente dos cursos presenciais, a taxa de natalidade diminuiu, e os alunos que concluem o ensino médio, em sua maioria, não acessam o superior. O gap entre as competências dos egressos das IES e as competências sociais, profissionais e digitais requeridas pelo setor produtivo se amplia.

Temos dificuldades para nos comunicar com os jovens, e, pior, os modelos acadêmicos são convencionais, inflexíveis e não engajam e nem despertam interesse dos estudantes. Enfim, estamos em um cenário de crise, marcado pelas incertezas. As matrículas em nossas IES podem diminuir de forma contínua até chegarmos a uma situação de insustentabilidade financeira. 

O livro “Students First” aponta caminhos para superar a crise anunciada. LeBlanc é o reitor da Southern New Hampshire University (SNHU), desde 2003. A universidade tem cerca de 170 mil estudantes, destes, apenas 5 mil são presenciais, na cidade de Manchester, no Estado de New Hampshire. O sucesso da SNHU se explica pela qualidade do modelo acadêmico, resiliência dos seus gestores e capacidade de conduzir um processo de transformação cultural e de percepção sobre a dinâmica do ensino superior. 

proposta de LeBlanc é que o ensino superior promova a equidade, amplie o acesso e promova oportunidades de emprego e melhoria da qualidade de vida para a população de baixa renda
Proposta de LeBlanc é que o ensino superior promova a equidade, amplie o acesso e promova oportunidades de emprego e melhoria da qualidade de vida para a população de baixa renda

IES e competências

A proposta de LeBlanc é que o ensino superior promova a equidade, amplie o acesso e promova oportunidades de emprego e melhoria da qualidade de vida para a população de baixa renda. O perfil predominante dos estudantes da SNHU é formado por trabalhadores, que precisam de flexibilidade de tempo e de acesso às aulas, para completar seus estudos.

Na leitura do livro ficou claro que as decisões na SNHU são tomadas com base em diversas informações sobre o perfil dos estudantes. Suas demandas, hábitos de estudos, perfil socioeconômico e sobre as formas de aprender e se engajar nos estudos. Se de fato o estudante deve estar em primeiro lugar em nossas IES, é preciso que as instituições tenham gestores que sejam especialistas em jovens e em aprendizado. A universidade possui equipes de análise de dados, que geram informações estratégicas e arranjos institucionais, que facilitam as decisões estratégicas. 

No livro, LeBlanc defende que as IES precisam desenhar modelos acadêmicos baseados em competências. Os primeiros capítulos são dedicados a explicar o que ele pensa e o que a SNHU aplica em relação à educação baseada em competências. Apresenta alguns modelos de rubricas que servem de referência para desenhar este modelo, em nossas IES. 

A sua argumentação é que ao focarmos as competências, estamos preparando os estudantes para a vida social, em um cenário em que precisamos aperfeiçoar nossa comunicação. E intensificar a convivência social para estar alinhados com a formação focada nas competências profissionais. Precisamos considerar o contexto de transformação digital e de avanço dos paradigmas da 4ª Revolução Industrial.

Modelo de avaliação do estudante

Em média, uma formação de graduação na SNHU requer em torno de 120 competências. Para atingir isso se exige capacidade de um desenho acadêmico consistente, já que é preciso estabelecer quais são as competências, integrá-las ao curso e avaliar a sua efetividade. 

LeBlanc faz críticas ao desenho de cursos estruturados em “crédito horas”, não em crédito por competências e aprendizagem. Para ele, temos disciplinas e currículos organizados em horas que medem a frequência do estudante na disciplina ou em sala de aula, não na competência adquirida e no aprendizado efetivo.

Estamos acostumados a dividir nosso currículo em um conjunto de disciplinas com um determinado número de horas que precisam ser cumpridas pelos estudantes. E para saber se o aluno domina o conteúdo da disciplina é convencional aplicarmos um modelo de avaliação em que ele precisa demonstrar que pode repetir discussões realizadas em sala. E que memorizou regras ou que sabe resolver problemas que foram apresentados anteriormente. 

Em “Sudents First” somos provocados a repensar o modelo de avaliação. A educação baseada em competências requer um processo contínuo de avaliação, de verificação com métricas ou indicadores que demonstrem que o aluno adquiriu a competência requerida.

Estudantes no centro

LeBlanc induz a refazermos os modelos acadêmicos usuais e o próprio modelo de negócio da instituição. Ao ter o estudante no centro das ações institucionais, o planejamento e respectivos projetos precisam estar alinhados ao seu perfil, demandas e aprendizado. A organização curricular é estruturada em créditos de competências e aprendizagens e as competências adquiridas fora da SNHU são incorporadas. Ou seja, a universidade reconhece os cursos extras que tenham sido concluídos ou realizados durante a graduação. Os créditos são computados na sua carga horária, o que permite ao estudante utilizar os que estão em seu percurso curricular.

Esta forma de organizar torna a graduação flexível. E pode diminuir o tempo do estudante na universidade. Permite que siga a sua trilha de aprendizado, conforme a disponibilidade para estudar e realizar atividades acadêmicas propostas nos créditos de competências. Isso exige outro modelo de concepção de currículo e capacidade de gestão, já que o modelo foge do convencional. Os currículos tradicionais estão desenhados em disciplinas com horas e sequencias predeterminadas.

No Brasil, temos tantas amarras burocráticas que corremos o risco de impedir que o estudante se transfira de uma IES para outra. E não consiga fazer um aproveitamento da disciplina, porque ela exige 80 horas e o aluno possui, por exemplo, 60 horas cursadas em outra IES. Ou porque a disciplina não tem o mesmo nome ou há algumas diferenças no conteúdo. O livro trata da legislação e de suas dificuldades, o que para o cenário brasileiro, de fato, é um fator que cria burocracia, mas não impede a inovação. A SNHU age para atender os estudantes e respeitar as regras do jogo.

Aprendizagens para o futuro

Há um capítulo em que LeBlanc escreve sobre um futuro melhor e nos convida a realizarmos a transformação institucional. Há também um capítulo sobre financiamento, em que propõe um modelo flexível, estruturado nos créditos realizados pelos estudantes. O livro apresenta caminhos para reestruturar as IES, com exemplos concretos e que já foram testados.

Paul LeBlanc é um reitor em evidência nos Estados Unidos, porque teve a coragem de conduzir um processo de transformação na SNHU e refez o modelo de negócio, em que a prioridade é o estudante. 

Ao colocar o aluno em primeiro lugar, estamos fazendo o óbvio. Mas ainda não priorizamos o estudante como deve ser. É nesta perspectiva que reitero o convite para lerem o livro “Students First” e assistam à palestra de LeBlanc no 24º Fnesp, com mente aberta para aprender.

Artigo originalmente publicado na edição 267 (junho/julho) da Revista Ensino Superior. Assine.

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