Como uma faculdade isolada pode se diferenciar?

Como se sustentar com 700 alunos? Essa é a realidade da Faculdade Dom Bosco, no Rio Grande do Sul. Foco em alternativas inovadoras tira TCC e estágio das exigências obrigatórias

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Faculdade Dom Bosco
(Foto: reprodução / Rede Salesiana)

A fundação da Faculdade Dom Bosco, de Porto Alegre, há 17 anos, gerou muita polêmica na congregação salesiana. Para quê mais uma IES católica numa cidade que tem a poderosa PUCRS, a maior do mundo dos maristas, e a Unisinos, dos jesuítas? A justificativa foi que os salesianos têm curso superior no mundo todo. Prevaleceu quem defendia uma escola para formar bons cristãos e honestos cidadãos. E, convenhamos, não é pouco. A faculdade está situada no Jardim Leopoldina, na zona norte de Porto Alegre, uma região com muitas comunidades pobres.

E isso foi determinante, segundo o institucional da faculdade, “para colocar em prática o sistema pedagógico que antes de tudo vê na pessoa humana suas potencialidades e qualidades, trazendo-as como elemento vital para extrair o máximo potencial de cada educando e auxiliando-os a fazer uma experiência de ser único e capaz de se antepor às necessidades e desafios do cotidiano”. Quem fala com muito orgulho disso é Letícia Silva Garcia, uma das fundadoras, e coordenadora do Núcleo de Apoio e Inovação Pedagógica, e coordenadora de cursos. “Não somos responsáveis por quem entra na faculdade, mas somos por quem sai.”

Isso significa acompanhar passo a passo o desenvolvimento da aprendizagem dos estudantes. Quando chega, o aluno é submetido a um exame para saber suas deficiências e imediatamente entram em ação aulas de reforço. Vale lembrar que todos são oriundos de escolas públicas da capital e da região metropolitana, como Alvorada, Gravataí, e a qualidade do ensino é muito diversa. Para incentivar a permanência na faculdade – há alunos que ficam até 8 anos para concluir direito – é comum eventos para ajudar na organização dos estudos. “A gente leva em conta que esse aluno gasta 2 horas no transporte, 10 no trabalho e 4 conosco. Se não se organizar vai complicar.”

Sem TCC, nem estágio: foco em alternativas mais inovadoras

Recentemente realizaram um evento online com um egresso (Como a faculdade mudou minha vida), com um aluno (Como está mudando minha vida) e com um professor (Como pode mudar). A Dom Bosco sofre as agruras de ser uma faculdade isolada. A burocracia é tanta junto ao MEC que chegou a ameaçar a sua continuidade. O Inep demorou quatro anos para autorizar o curso de psicologia, três anos para permitir a educação a distância – EAD. Mas, vencidas essas dificuldades, estão em andamento oito cursos: direito, psicologia, ciências contábeis, sistema de informação, logística, engenharia de produção, engenharia ambiental e sanitária e análise e desenvolvimento de sistemas.

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A grande inovação se deu de forma efetiva no bacharelado de sistemas de informação. “Eliminamos o estágio e o TCC e colocamos na grade agência de negócios, startup e inovação, estratégia disruptiva em tecnologia e estratégia construtiva em tecnologia. Na primeira fase ele constrói a sua ideia, em seguida vai desconstruir para ver que tecnologia disruptiva vai aplicar e depois a tecnologia construtiva, cada fase num semestre, em laboratórios. Com isso estamos recuperando um curso que vinha perdendo mercado para os tecnólogos.

A Dom Bosco faz parte da IUS – Instituição Salesiana de Educação Superior. São doze IES no Brasil que, embora independentes, têm a cooperação entre si – hoje, todas as faculdades somam 25 mil alunos. Em Porto Alegre são 700 estudantes e 65 professores, com um tíquete de 500 reais. A faculdade é autossustentável e essa foi uma das condições colocadas para que fosse autorizada pela direção dos salesianos. A rede de colaboração entre essas IES proporciona formação de professores, desenvolvimento de projetos, presença de professores de outras cidades para acompanhar algumas experiências em outros campus.

Próximo passo: avançar com cursos EAD

Embora tenha 700 estudantes, as instalações comportam até 2.000. “Estamos preparando o crescimento para atingir esse número. A outra aposta é o EAD, porque nos posicionamos diferentemente na criação dos cursos, como gestão da produção industrial, de olho na região portuária de Itajaí, em Santa Catarina, onde temos polo, e de Rio Grande, aqui no estado, e gestão de processos escolares, com foco nas 30 mil escolas brasileiras que têm essa necessidade.” Embora esteja fixado em 300 reais, o EAD tem um tíquete médio de 120 reais.

Para a execução do EAD houve um investimento da congregação por ser um projeto novo e com possibilidade de retorno. Sobre o curso tecnólogo de gestão de processos escolares, em EAD, Letícia Garcia diz que, embora haja alguma resistência nas escolas, isso vai ser vencido porque somente com a criação de processos pode-se manter a qualidade. “O diretor da escola de educação básica deve receber o relatório de matrícula e não ficar se preocupando com o processo de matrícula.” As escolas salesianas testaram a real utilidade de um profissional nos colégios com essas habilidades. Foi aprovado.

Em busca de inspirações

Como serve para escola pública e privada, a Dom Bosco vai ao mercado para oferecer para as prefeituras. Letícia Garcia é uma das quatro integrantes do núcleo de inovação, cuja missão é buscar exemplos de sucesso para implantar na escola. Além de ostentar no site a marca Sthem Brasil, ela diz com muito orgulho que dos 11 trabalhos premiados recentemente pelo Sthem, dois foram da Dom Bosco – o Consórcio Sthem Brasil tem parceria com o Programa Acadêmico e Profissional para as Américas – LASPAU, afiliado à Universidade Harvard, que tem se dedicado à missão de fortalecer o ensino superior no hemisfério ocidental desde sua fundação em 1964.

“Nós também acompanhamos a Monterey, do México, porque são muito inovadores. E nos inspiram.” A doutrina de Dom Bosco, um italiano que viveu quando a Itália não era unificada, está focada em jovens carentes, o que ele chamava de jovens operários. Na época, segundo Letícia Garcia, ele cuidava de profissionalizar meninos de 9 a 16 anos. “Hoje cuidamos de 18 a 30 anos”, diz ela. Coordenadora de cursos, além do núcleo de inovação, diz que a profissionalização é a busca para propiciar um emprego com salário maior. “Somos uma instituição de acesso, normalmente nosso aluno é o primeiro da família que cursa o ensino superior. É comum depois chegarem irmãos, primos e amigos.”

Embora trabalhe com os salesianos há 20 anos, portanto antes da fundação da faculdade, Letícia Garcia é leiga e fez doutorado em informática na educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A busca por resultado se faz necessário para que possam enviar recursos para a mantenedora, que abrange Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, a Inspetoria Salesiana São Pio X, que o remete para os países mais pobres. O superior geral dos salesianos fica em Roma e é o reitor-mor.

Aluno volta como professor

faculdade isolada
(Foto: Envato Elements)

Aos 44 anos de idade, um dos hobbies de Lianderson Franco Brum é dar aula toda segunda, terça e quarta-feira à noite na Dom Bosco. “Procuro mostrar para os alunos os caminhos do mercado de trabalho.” Ele dá aula de inteligência artificial, programação Java e engenharia de software. Como trabalha numa empresa durante o dia, atualiza-se com frequência. Brum foi aluno da Faculdade Dom Bosco. Terminou a graduação aos 34 anos.

“Depois de bater cabeça na vida, resolvi me firmar e terminar o curso.” A opção pela escola foi, no começo, por questões financeiras. Era aluno com Fies na Ulbra, em Canoas, mas não tinha dinheiro para o ônibus. Ganhou uma bolsa de uma instituição sueca para estudar na Dom Bosco, e hoje tem uma situação confortável. Para dar aula, fez um mestrado em docência para ensino superior. “Sempre gostei de ensinar. Isso eu verifiquei quando dei aula em autoescola.”

Garoto rebelde, hoje vive feliz com a mulher e uma filha de 9 anos, e tem muitas atividades: trabalha das 8 às 18 horas de segunda a sexta; ministra aula à noite e ainda mantém um site sobre viagem. “A partir da minha decisão de estudar, todos os meus irmãos resolveram trilhar esse caminho. Não tenho tu- do que quero, mas tenho o que preciso para viver bem”, completa Lianderson Brum.

Matéria originalmente publicada na Edição 258 da Revista Ensino Superior

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