Formar o estudante curador e o pensamento nexialista

“Em 2050 não apenas a ideia de um emprego para a vida inteira, mas até mesmo a ideia de uma profissão para a vida inteira parecerão antediluvianas”

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Devemos como instituições de ensino, retomar o protagonismo que tínhamos quando a informação e o conhecimento era quase que um monopólio da academia

Por José Carlos de Souza Jr*: Antes mesmo da pandemia, o historiador Israelense Yuval N. Harari em seu livro intitulado “21 lições para o Século XXI” (2018), já desafiava o status quo: “… em meados do século XXI, mudanças aceleradas e a vida mais longa tornarão o modelo tradicional [de educação] obsoleto”. É fato consumado que a pandemia acelerou esse processo e qualquer previsão de futuro traz grande dose de incerteza, mas algumas coisas já se consolidaram.

Entre elas temos a questão da informação (no sentido de conteúdo) que se torna quase onipresente devido à internet. As instituições devem focar mais no desenvolvimento de um estudante “curador” da informação, do que propriamente na transferência da mesma, bem como na competência deste estudante em combinar os muitos fragmentos existentes.

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Uma releitura do campus, seja físico ou virtual, torna-se premente. As aulas, embora sem dúvida importantes, são apenas parte do processo de ensino e aprendizagem. Uma IES de excelência vai muito além de salas de aula e laboratórios bem equipados (sejam remotos, virtuais ou presenciais), trata-se da criação de um ecossistema de oportunidades (meio líquido[1]) que fomente as melhores e mais profícuas conexões entre os diversos elementos da sociedade.

Mentalidade nexialista

Devemos, enquanto insitituição de ensino, retomar o protagonismo que tínhamos quando a informação e o conhecimento era quase que um monopólio da academia (o que já não existe mais), mas agora podemos representar o ponto focal de um sistema de conexões (mentalidade nexialista[2]) que permite conectar, em um ambiente de cooperação, profissionais das mais diversas áreas, empresas, entidades governamentais e do terceiro setor. Essa mentalidade nexialista só pode ser alcançada se expandirmos nosso compromisso para além da formação técnica do profissional.

Embora muitas IES já tenham quebrado o domínio exclusivo do conhecimento e adentrado terreno das competências específicas, que aqui traduzo como a adequada aplicação do conhecimento técnico na resolução de problemas, ainda temos muito que avançar nas competências genéricas (por vezes denominadas soft skills), essenciais para a formação da mentalidade nexialista e adequada cooperação.

Metacompetências

E talvez o maior desafio resida no desenvolvimento do que aqui denominarei por metacompetências e entendo como o domínio do nível de suas competências (específicas e genéricas) e a capacidade de desenvolver competências naqueles que o cercam. Exemplifico: posso ter as competências necessárias para liderança, sejam elas específicas ou genéricas, mas tenho a competência de abrir mão de minha liderança para que outros líderes se formem?

As metacompetências são primordiais para o aprimoramento do “todo”. Nesta escalada é essencial que as IES se vejam como entes de “educação continuada”. Para fechar, retomemos as provocações com as quais Harari nos inquieta. Enquanto muitas IES ainda se adequam para preparar um egresso que dificilmente terá um único emprego durante sua vida, ele dispara: “Em 2050 não apenas a ideia de um emprego para a vida inteira, mas até mesmo a ideia de uma profissão para a vida inteira parecerão antediluvianas”.

*José Carlos de Souza Jr é reitor do Instituto Mauá


[1] Em contraponto metafórico ao meio sólido (ordem), cuja estrutura enrijecida dificulta a inovação (surgimentos de novas conexões), e ao meio gasoso (caos), cuja estrutura muito livre dificulta o empreendedorismo (perenidade das novas conexões).

[2] Termo cunhado por A. E. Van Vogt em 1950, com origem no latim nexus (conexão), que no contexto aqui abordado traduz a importância de se conectar diferentes profissionais para a resolução de problemas complexos.

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