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O  perfil do professor numa proposta de educação disruptiva

As novas tecnologias trouxeram grandes mudanças econômicas, culturais e pessoais e os sistemas educacionais precisam assumir o compromisso com essa transformação


Ser educador é um grande desafio nesses tempos de transição. Com a pandemia, foi preciso um reposicionamento das ações das instituições de ensino e, consequentemente, da prática pedagógica dos docentes. As circunstâncias exigiram, de todos, o ato de desconstruir conceitos e de refletir sobre essa educação disruptiva, que necessitou ser construída e adaptada. 

Nesse processo, criar novos conceitos foi uma tarefa exaustiva tanto para as instituições como para professores – afinal, boa parte do setor não tinha a estrutura adequada para a educação a distância, enquanto muitos docentes não reuniam, na ocasião, as devidas habilidades para usar as plataformas de aprendizagem ou mesmo um pleno conhecimento das ferramentas digitais que atendessem às demandas das aulas online.

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O que se viu, então, foi uma verdadeira “corrida contra o tempo” para ajustar a prática pedagógica. Hoje, o ensino híbrido – que distribui a carga horária dos cursos em atividades de aprendizagem presenciais e remotas com o uso da tecnologia – deixou de ser uma promessa de tendência, ganhando espaço nas instituições de ensino. Vimos, ainda, a progressão dos cursos na modalidade a distância. 

Segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), “entre 2010 e 2020, as matrículas de cursos de graduação a distância aumentaram 233,9%, enquanto na modalidade presencial o crescimento foi apenas de 2,3% nesse mesmo período”. 

professor mudanças
Foto: reprodução

O sentido da formação educacional

Quando nos referimos ao conceito de educação, cabe observar, pretendemos considerar seu propósito maior, que é preparar nossos alunos integralmente e isso significa prepará-los para a vida, para o reconhecimento da  realidade e o contexto real da sua função ao ingressar na sua área profissional. 

Obedecendo a essa concepção, a educação disruptiva parte do princípio de que precisamos romper com tendências tradicionais, que não evoluíram com o mundo digital e adequar a prática pedagógica docente para o desenvolvimento das competências que os discentes precisam dominar na atual conjuntura. 

Afinal, as novas tecnologias trouxeram grandes mudanças econômicas, culturais e pessoais e os sistemas educacionais precisam assumir o compromisso com essa transformação e implementar ferramentas digitais coerentes com as necessidades atuais requiridas pelo mercado de trabalho.  

 

Numa proposta de educação disruptiva, portanto, a reformulação, atualização curricular dos cursos e do planejamento é essencial

Como sabemos, todo planejamento é reflexivo, estratégico, dinâmico e, principalmente, flexível. Desse modo, é fundamental reorganizá-lo, utilizando as  metodologias que  incorporam dinâmicas, problematizações, estudos de casos referentes às áreas e recorrer a essas atividades no dia a dia da sala de aula. 

O norte deve ser planejar estratégias que coloquem o aluno no centro da aprendizagem, como autônomos, protagonistas e fomentem a sua participação nas atividades e pesquisas  direcionadas pelos docentes das disciplinas. Cabe aos professores, por sua vez, a busca pelo aperfeiçoamento nas ferramentas digitais disponíveis, de modo a incorporá-las na sua prática de sala de aula. 

Importância das metodologias ativas

É essencial que utilizem as chamadas metodologias ativas, cujos processos de aprendizagem trazem experiências reais, problematizações ou simulações com o objetivo de  motivar os discentes a solucionarem tarefas  que são desafiadoras e essenciais para a sua  preparação profissional. 

As metodologias ativas ou aprendizagens ativas são estratégias, práticas educativas que, utilizadas em sala de aula, colocam o discente como agente ativo da sua aprendizagem garantindo, dessa forma, uma aprendizagem significativa. 

Dewey (2002) afirma na sua teoria que a educação se baseia reconstruir e reorganizar as experiências do aluno já adquiridas, através de atividades que envolvam análise, compreensão, construção de novas experiências e isso abrange teoria e prática, “o aprender fazendo”. 

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A aprendizagem, para ser significativa, precisa ter coerência e contexto; nela, o aluno é estimulado a refletir, aprender e pensar as formas de como, porque e para que ele realiza tal atividade.  

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Simone Bergamo. Foto: divulgação

Nessa nova era, o docente que pretende desenvolver uma educação para o futuro, disruptiva, deve buscar o aprimoramento sistemático do seu fazer pedagógico reconhecendo-o como algo dinâmico, conhecer os novos conceitos e as novas abordagens teóricas necessárias à sua trajetória, à sua construção. 

Ele tem o dever de considerar as diferentes formas com as quais o seu aluno aprende, criar situações de aprendizagem que transformem o ambiente da sala de aula numa integração de saberes antigos e novos, que são articulados a partir de momentos de compartilhamento, cooperação e interação ampliados para a vida.

O professor precisa, sobretudo, ressignificar seu papel, ou seja, refletir, investigar, questionar as tendências. Só assim ele será capaz de construir formas de ensinar e aprender, gerando novas aprendizagens.

*Simone Bergamo é diretora-acadêmica do grupo Ser Educacional

Referências Bibliográficas:

BACICH, Lilian; MORAN, José (org.). Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem teórico-prática. Porto Alegre: Penso, 2018.
DEWEY, John. A escola e a sociedade: a criança e o currículo. Lisboa: Relógio D’Água, 2002.

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Censo da Educação Superior 2020: notas estatísticas. Brasília, DF: Inep, 2022. 
http://www2.eca.usp.br/moran/wp-content/uploads/2013/12/metodologias_moran1.pdf Acesso em 03/05 / 2022


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