Coluna Ana Valéria Reis

Capacitação de professores: tempo e oportunidade para enriquecer a ação docente

2022! Logo nossos alunos estarão de volta ao ano letivo, mais uma vez conturbado quanto ao retorno presencial ou continuidade do ensino remoto. Mas antes deles, voltamos nós, professores.

A maioria das instituições já se mobilizou e definiu como será a semana, ou período de formação, receptividade e acolhimento dos docentes. Nesse momento, questiona-se sobre o que foi feito e se preveem as melhorias para o que está por vir. Nesses encontros, muitas das vezes os temas se repetem com nova roupagem, com pessoas diferentes tratando os mesmos assuntos e, ainda assim, pairam sobre muitos professores dúvidas sobre como fazer, por que fazer e para que fazer o que lhes pedem.

Regidos por orientações curriculares institucionais nacionais, estaduais e municipais, os professores não estão livres para fazer o que quiserem e de qualquer forma. Além disso, as IES já têm definidos seus modelos de ensino.

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Diante do cenário que se impôs com a pandemia, o modelo ideal para o tão debatido ensino híbrido também estará na pauta das formações, uma vez que professores novos chegam, e conhecer o que a IES já propôs, o que faz e ainda vai fazer é importante, bem como continuar as capacitações sobre o fazer docente, o uso dos recursos tecnológicos, as ferramentas digitais e as metodologias ativas de ensino e aprendizagem.

Planejar, executar e avaliar também são um trio constante nas formações.  A estrutura do planejamento reverso aparece como um recurso que favorece projetar resultados a serem alcançados, para daí se definirem os melhores métodos e recursos para alcançá-los. A eficácia dos planos em geral corresponde ao alcance de seus objetivos, assim como a eficácia dos currículos, do ensino e da avaliação corresponde ao alcance da aprendizagem planejada.

Avaliação não preza pela qualidade do aprendizado

Professores são constantes planejadores, no entanto, alguns não são bons executores tampouco bons avaliadores. Nossas aulas devem ser inferidas dos resultados buscados e não de atividades ou métodos com os quais nos sentimos mais à vontade.

Desse trio, o tema da avaliação ganha destaque sempre. Mesmo que aqui no Brasil Cipriano Luckesi tenha se tornado uma referência sobre o tema, há muitos anos defendendo a avaliação diagnóstica e inclusiva, o ato de avaliar continua classificatório e seletivo.

Instrumentos de qualidade duvidosa aprovam, reprovam, em uma tradição antidemocrática e autoritária.

O sistema de reprovação não existe em sistemas escolares de países que investem na qualidade da aprendizagem.

Recentemente, Paul LeBlanc, reitor da Southern New Hampshire University,   participou do 8º Congresso Internacional de Inovação em Educação (CIIE) organizado pela Tec de Monterrey, no México, e em uma conversa sobre seu último livro Students First, com Juan Pablo Murra, reitor da Professional and Postgraduate, declara que as notas são um ato de poder imoral em que se julga com um poder de hierarquia a jovens estudantes, em vez de se pensar nas avaliações como um ato de aprendizado.

O renomado Eric Mazur, professor de Havard, mais conhecido como o pai do Peer Instruction, em entrevista ao Observatório del Instituto para el Futuro de la Educación, declara que buscar uma solução para melhorar o aprendizado depende do metódo da aula. Depois que passou a estimular a interação entre os estudantes, concluiu que “a avaliação é um assassino silencioso da aprendizagem” uma vez que ela se torna um castigo para o aluno e não mais uma oportunidade de aprendizado. Nas metodologias ativas, a avaliação é constante, processual, formativa.

Avaliação autêntica

Felizmente o tema da avaliação não se esgota. E cada vez mais buscam-se condições para que uma avaliação dê certo. Daí a expressão avaliação autêntica. Uma avaliação autêntica contempla informações por meio de instrumentos baseados em situações reais, propondo tarefas complexas que requerem padrões de desempenho e critérios específicos com a finalidade de proporcionar feedback aos alunos, a fim de ajudá-los no desenvolvimento dos objetivos de aprendizagem ou das competências específicas.

Nosso plano de avaliação deve contemplar requisitos essenciais que atribuem validade, confiabilidade, objetividade, praticidade e flexibilidade aos instrumentos eleitos e autenticidade, com claras evidências de que os alunos alcançaram seus objetivos de aprendizagem.

Aprofundar-se nesse tema vai exigir a experiência de profissionais que praticam esse tipo de avaliação e que comprovem seus resultados. Sua IES já rompeu com os paradigmas dos processos avaliativos?

Nota-se que não faltam assuntos para serem debatidos nos encontros de capacitação docente proporcionados pelas IES. No entanto, nem todos os docentes retornam com mente aberta e receptivos para eles.

Por experiência, posso dizer que, quando remota, a maioria dos professores sequer abre suas câmeras.

Continuidade é indispensável

Levar o docente a refletir sobre como pode progredir e permitir que sua instituição progrida vai ao encontro de como ele pode otimizar seu tempo, sem pular etapas, não confundir responsabilidade laboral com excesso de trabalho e não deteriorar sua qualidade de vida.

E qual a melhor forma de um profissional buscar excelência na sua docência universitária? O professor precisa gerir esse processo e ser orientado pedagogicamente. Investir na autoformação tem sido um caminho para muitos, mas não para todos.

Outro caminho tem partido das próprias IES que aprimoram seus setores ou núcleos de acompanhamento dos docentes com contínuos programas de formação e desenvolvimento de suas competências, visando a melhoria da qualidade de seus cursos de graduação e pós-graduação. Também, e principalmente, com a finalidade de valorizar o próprio corpo docente de modo que enriqueça suas atividades e sirva de motivação ao trabalho que realiza. A formação pedagógica deve ser inerente à profissão docente. A relevância do professor lidera o processo de ensino com foco na aprendizagem do aluno.

A formação pedagógica deve ser inerente à profissão docente

Aclarar a importância da capacitação para aprimorar as competências docentes, o uso de tecnologias digitais, para planejar visando a resultados significativos de aprendizagem, para compreender que metodologias ativas de ensino são estratégias que andam de mãos dadas com os processos avaliativos formativos e que os estudantes são o foco de todos os nossos objetivos comprova nossas habilidades de adaptação ao novo, de flexibilidade frente aos desafios, de criatividade frente à morosidade das coisas.

Aceitar o risco de ser professor

Em 2003, o então ministro da educação Cristovam Buarque, depois que participara da Segunda Reunião dos Parceiros da Educação Superior, em Paris, quando publicou  A Universidade na Encruzilhada, fez um apelo declarado aos professores que vem ao encontro do contexto que estamos vivendo hoje, para que percebessem que seus métodos de ensino deviam incorporar as imensas possibilidades de equipamentos que permitissem o maior número possível de alunos atendidos, estivessem onde estivessem.

Que aceitassem o risco de serem professores em um tempo em que o conhecimento muda a cada instante, exigindo deles dedicação e profissionalismo para acompanhar as contínuas mudanças. Que aceitassem com audácia esse desafio e seguissem rumo à criação de novas maneiras de conhecer, por mais efêmeras que fossem.

Já voltamos nós, professores! Assumamos nosso lugar, apesar das dificuldades e dos desafios que se impõem e que sempre estarão à espreita. Aperfeiçoar e enriquecer nossa ação docente afina a relação de ensino e aprendizagem em uma universidade mais efetiva.

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