“Storytelling garante engajamento dos estudantes”, diz Tas

Estratégia começa a mostrar sua força na educação para criar não apenas narrativas, mas também experiências

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Marcelo Tas - storytelling
O apresentador e professor Marcelo Tas. “O que aconteceu na pandemia foi apenas a evidência da necessidade de novas formas de praticar a educação” Foto: reprodução

É um mágico poder que faz a mensagem chegar ao destinatário, fazendo frutificar o desejo por ouvir atentamente, saber mais e converter o conhecimento em fermento de transformações. Multiplicam-se pelo país os que estudam ou atuam profissionalmente sobre essa nova face das narrativas, agora sob o nome inglês storytelling, ou o bom e velho conhecido hábito dos humanos: contar histórias. Entre esses profissionais, alguns já andam pelo mundo das celebridades há algum tempo, como é o caso do comunicador e escritor Marcelo Tas, que mais recentemente se tornou professor do Ibmec.

Para Tas, o objetivo principal do uso de estratégias de storytelling é garantir o engajamento dos estudantes, conceito que a seu ver está bastante desgastado, mas cujo significado realmente importa. “O engajamento é muito diferente do fascínio, por exemplo, das redes sociais. As redes sociais trabalham com o encantamento, com uma atração, cientificamente estudada para a sedução”, explica.

Leia: O lugar do lúdico no ensino superior

Para ele, a partir da certeza da qualidade do seu conteúdo, o professor deve pensar qual a melhor maneira de criar o engajamento, quais são as ferramentas, as metodologias para se criar não apenas narrativas mas também experiências (cada vez mais valorizadas, e com razão), ou seja, problemas a serem selecionados pelos alunos. “E não estou falando apenas da pandemia. O que aconteceu na pandemia foi apenas a evidência da necessidade de novas formas de praticar a educação”, considera.

Narrativas implicam curadoria

A atual geração de crianças e adolescentes, na avaliação de Tas, já está mais acostumada com a formulação de diversas formas de narrativas. Não apenas games, mas também construção de protótipos, invenção de artefatos novos, soluções para problemas antigos ou que ainda nem existem, o que teria fortalecido, por exemplo, a cultura maker.

Para ele, as narrativas implicam curadoria. “Podemos usar a metáfora do técnico de futebol. Não adianta juntar as crianças e adolescentes e dar a bola para jogarem. Precisamos do técnico, que orienta, diz que o jogo tá bom ou ruim, pede mais. O técnico é o cara que tem a experiência, já percorreu a jornada, tem estratégia, sabe aonde quer chegar. Mas, ele tem de estar aberto a aprender, pois vai aprender bastante”, diz.

Nesse exemplo, as narrativas assumem novos contornos. “Na vida acelerada e conectada em rede, todos participam da construção das narrativas. Não é que todos fazem o que querem. A era digital não deve ser um vale-tudo. A construção é colaborativa e em rede, mais democrática e aberta. Mas precisa ser organizada, estruturada na educação pelo professor”, conclui.

O poder das boas histórias

Para compreender o universo do storytelling, é preciso separar o fundamental ato de contar histórias de um processo algo mais complexo, que é justamente criar narrativas. As narrativas encadeiam acontecimentos, atribuem sentidos aos fatos aparentemente desconexos, conduzem o pensamento para um modo mais integrado de compreensão da realidade.

O psicólogo Jerome Bruner, que lecionou nas universidades Harvard e de Oxford, estudou o poder que há por trás de uma boa história. Segundo Bruner, as chances de lembrarmos algo que foi narrado assim pode ser 22 vezes maior, pois a mente humana processa mais facilmente as histórias. Isso tudo vem sendo transformado em técnicas apropriadas pela indústria do entretenimento, pelos comunicadores, pelos políticos.

Kiriku e feiticeira
Trecho do filme Kiriku e a feiticeira

No campo do cinema e da TV, trata-se de um velho conhecido, e o sucesso das séries, tão populares hoje em dia, são evidências de uma audiência ávida por boas histórias, mas cuja atenção é cada vez mais difícil de capturar. “Hoje, ninguém consegue ficar mais do que cinco minutos sem checar mensagens ou navegar em redes sociais, mas quando vemos um filme bom, ficamos duas horas sem olhar para o celular”, lembra Bruno Scartozzoni, cofundador da StoryTalks e autor de um procurado curso sobre o tema no qual é especialista.

Da mesma forma, argumenta, todos dizem não ter tempo pra nada, mas, quando uma série é muito boa, criamos um tempo que não existia. Scartozzoni diz que esse poder de manter a atenção do público passa pelo uso de técnicas em busca de resultados engajadores, que ajudam a contar boas histórias. Para ele, são habilidades cada vez mais importantes para os educadores. “Os professores têm muita dificuldade de conseguir a atenção dos alunos, seja na sala de aula física, seja na sala de aula virtual”, ele lembra.

Lidando com a concorrência: o celular

Para o especialista em storytelling, o maior concorrente pela atenção das pessoas é o celular. “No smartphone, os alunos encontram temas mais interessantes que a aula, desde a conversa no grupo de amigos até um filme da Netflix. Nas aulas remotas, nem precisa do celular…é só abrir mais uma aba no navegador de internet no computador”, diz.

Hoje, ninguém consegue ficar mais do que cinco minutos sem checar mensagens ou navegar em redes sociais, mas, quando vemos um filme bom, ficamos duas horas sem olhar para o celular.

No entanto, pela experiência de Scartozzoni, não se trata de uma concorrência invencível. “Quando alguém começa a contar uma história cativante, as pessoas param para prestar atenção. Você consegue transformar seu conteúdo em histórias, ou empacotar seu conteúdo com histórias, ou mesmo ilustrar seu conteúdo com histórias, e aí há uma chance de vencer o celular ou outras distrações”, diz.

Uma das estratégias, claro, passa por temperar os conhecimentos com a emoção das narrativas. “As pessoas se lembram quando se emocionam. A cada tópico de conteúdo que você trabalha, o que o aluno sente? Esperança, medo, nojo, amor, um quentinho no coração… Toda vez que a pessoa sente algo, aquilo se torna memorável”, destaca o cofundador da StoryTalks. Por isso, aconselha, cada bloco de conteúdos deve estar associado a uma emoção. Há várias formas de trazer essa emoção à tona: contar algo pessoal, trazer para o contexto a trajetória de uma figura histórica, utilizar filmes, encenar peças, entre outras estratégias.

Como contar boas histórias

Tudo bem: o princípio é familiar a todos: histórias encantam, explicam, ensinam, produzem sentido e engajam. Mas como fazer isso em sala de aula? Para apoiar os professores a preparar suas aulas neste fim de ano e (respire fundo) já pensar nos desafios de 2021, vale a pena ouvir os conselhos dos especialistas no assunto. Para o especialista em técnicas de storytelling Bruno Scartozzoni, os recursos são muitos e dependem da criatividade de cada professor. Ele propõe uma escala do que é mais lúdico para as estratégias menos lúdicas.

No campo da gamificação, Bruno Scartozzoni observa que muitos professores vêm utilizando cada vez mais o Role Playing Game (RPG), principalmente na história e na geografia. “Toda partida de RPG é, em si mesma, uma história que está sendo desenrolada e que está sendo interpretada pelos jogadores”, diz. Há, ainda, a possibilidade de se utilizar games educativos. Outro recurso que considera interessante para aprimorar a narrativa são as animações. “Não são palestras, mas vídeos animados, muito bons para utilizar nas histórias. Conseguem transformar conhecimento em entretenimento com qualidade”, acredita.

Contar histórias é pelo menos tão antigo como o uso cotidiano do fogo, portanto, o prazer humano pelas narrativas: elo entre o passado e o presente, ponte para o futuro.

Por fim, Scartozzoni sugere que se use e abuse de mídias e conteúdos já existentes, como livros, histórias em quadrinhos, filmes. “Isso já existe, mas ganha especial importância numa época de aulas remotas”, considera. Mas, para o especialista, o que vale é o uso de técnicas de contar histórias mesmo nos assuntos mais específicos. “O docente pode contar uma história pessoal relacionada ao assunto, como muitas vezes fazem os professores de cursinho, usar metáforas. Já vi um professor que associava cada tipo de reta a uma história de amor”, lembra.

Rede de compartilhamento das estratégias

Além de usar recursos de cultura, arte ou gamificação, em diferentes mídias, é importante também que os professores compartilhem estratégias entre si – e é o que o educador João Jonas Veiga Sobral viu acontecer nos últimos meses. Entre elas está a estratégia de abrir cada aula com um vídeo curto, trechos de filmes, música ou mesmo aulas do YouTube, como forma de capturar a atenção dos alunos para a aula remota desde o início. Por isso, também é possível iniciar a atividade abrindo para a participação dos alunos, para apresentar questões ou fazer comentários.

Bruno Scartozzoni - storytelling
Bruno Scartozzoni Esse poder de manter a atenção do público passa pelo uso de técnicas em busca de resultados engajadores (Foto: arquivo pessoal)

Quebrar a monotonia é essencial. Nas aulas presenciais, até uma caneta caindo no chão chama a atenção. A monotonia da transmissão online também deve ser evitada, por diferentes recursos. “Pode até parecer uma ideia ruim, mas ajuda a despertar quem está distraído”, lembra Sobral. Atividades em grupo continuam essenciais, no ensino remoto. Além de movimentar a aula, geram afinidade entre os alunos, que, muitas vezes, tendem a se perder sem as aulas presenciais.

“No estudo da literatura, por exemplo, cada grupo pode ficar responsável por um tema ou por um personagem.” Depois, pode haver intercâmbio entre os grupos, com a troca de materiais criados na primeira etapa. Vale a pena também conversar com os próprios alunos para ouvir deles sobre as melhores maneiras de se assistir a uma aula online. Com o maior protagonismo e a autonomia crescente dos estudantes, eles precisam cada vez mais saber assistir à aula. “O professor pode convidar os alunos a assistir diferentes aulas do mesmo tema da internet e reconhecer semelhanças e diferenças entre as estratégias utilizadas”, sugere, a partir de experiências que conheceu.

Por fim, faz parte das técnicas de um bom contador de histórias prestar atenção no seu público. É possível – e necessário – entender melhor como diferentes alunos se apropriam do conhecimento, alguns mais vendo e ouvindo, outros mais lendo, ainda aqueles mais ligados às discussões, e assim por diante.

Além disso, João Sobral busca estimular um processo solidário de retenção dos conteúdos das aulas, em que um ajuda o outro com o que sabe melhor. Faz todo o sentido: entre as propriedades das boas histórias está, justamente, promover a cooperação e o sentido de pertencimento a um grupo. Mais uma vez, é uma boa ocasião para lembrar da riqueza desse recurso ancestral, que atravessa a jornada humana e nos ajuda a construir esse misterioso futuro em que viveremos.

Com a colaboração de Fernando Leal

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