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Gestão

Conselho Regional não aceitará inscrições de fisioterapeutas formados em EAD

Autarquia acredita que o formato não oferece as competências necessárias para os profissionais

Publicado em 25/11/2022

por Gustavo Lima

Close up of Physiotherapist working with patient in clinic Foto: Freepik

Em nota assinada junto a quatro universidades públicas do Estado de São Paulo (Ufscar, Unesp, Unifesp e USP), o Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da 3ª Região (Crefito-3) se posiciona de forma contrária à formação de fisioterapeutas no modelo EAD. No documento, as instituições alertam sobre “os riscos para a saúde da população por uma formação precarizada”. À Ensino Superior, o fisioterapeuta e presidente do Crefito-3, Raphael Ferris, explica os principais pontos que levaram à posição.

De acordo com Raphael, no formato digital os estudantes não desenvolvem a humanização necessária, que poderia ser adquirida ao longo das aulas presenciais. Ele evidencia que o ensino a distância foi implantado no Brasil antes mesmo da internet, “quando foi sendo popularizado e o MEC (Ministério da Educação) quis utilizá-lo para cobrir defasagens educacionais nos lugares afastados dos grandes centros urbanos”, diz. “Mas no ensino superior, principalmente na área de saúde, sua implantação se deu sem a devida segurança à sociedade de que seria mantida a qualidade de formação que as práticas assistenciais em saúde exigem”, afirma.

Leia: O acesso ao ensino superior depende de regulação e qualidade

O presidente do Crefito-3 alega que, de 2016 a 2018, os ministros da Educação, Mendonça Filho, e da Saúde, Ricardo Barros, trataram do tema “sem colher opiniões publicamente”. Para o fisioterapeuta, Mendonça e Barros decretaram normas sem dialogar com os docentes e com as corporações organizadas.

“O que se começou a perceber foi uma parte da rede privada recebendo autorizações de milhares de vagas para a modalidade EAD e demissões seguidas de professores do formato tradicional. Não se percebeu a argumentada evolução no ensino, mas a fragilização da formação de profissionais de saúde de imensa relevância social”, salienta.

“Concorrência desleal”

Em sua avaliação, “os Conselhos reagiram na única alternativa que lhes restou, a de se posicionarem contrariamente a um desmonte de um ensino tradicionalmente consagrado. A tecnologia não veio como um ‘plus’, mas como uma supressão do que dava certo, quando deveria ser adicionada, acrescentada e ofertada para enriquecimento do processo educacional”.

Raphael indica que, na prática, a oferta se transformou em uma “concorrência desleal” das IES que aderiram ao projeto pela diferença de preço e condições. “Ao invés de se tornar ensino a distância no sentido original, passou a ser demissão em massa de professores, descaracterização da relação professor e aluno, e autodidatismo para um tipo de estudante não habituado ao formato”, declara. O profissional aponta que, em São Paulo, nenhuma instituição pública aderiu ao modelo EAD.

Pontos negativos do formato

Até o momento, nenhuma justificativa foi apresentada formalmente aos coordenadores de curso, docentes, associações ou conselhos responsáveis pelo julgamento de erros profissionais, no entanto, o presidente do Crefito-3 destaca a percepção do não desenvolvimento humanitário, aspecto que os alunos de fisioterapia requerem, enquanto estudantes de EAD. Raphael atribui a competência ao formato presencial:

“seja no convívio com docentes preparados para serem esses modelos, seja na interação dos alunos entre si e o amadurecimento que essas relações provocam. Isso sem falar na ausência de convivência com os usuários, não apenas no momento assistencial curricular, mas no acompanhamento em atividades extracurriculares”.

Os argumentos contra uma formação 100% remota em fisioterapia são corroborados por Eliana Vileide Guardabassio, diretora geral de seis unidades do Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi). Embora oferte o curso de fisioterapia EAD, o mesmo se encontra na modalidade semipresencial, assim como os demais cursos de graduação e técnico profissionalizantes. “A gente defende os cursos de saúde na modalidade semipresencial e analiso todos da mesma forma: precisa da parte técnica, prática, presencial. Eu preciso preparar o meu aluno para ele ir a campo de estágio, não adianta nada eu conseguir os campos para ele estagiar em um hospital, por exemplo, se ele não sabe o que tem que fazer. Eu tenho que prepará-lo para ter uma boa formação e, sobretudo, uma empregabilidade, que esteja capacitado e tenha segurança em atuar na profissão que escolheu”, exemplifica.

Graduação x Pós-graduação

“Não tem como o estudante aprender no modelo 100% EAD para os cursos de saúde. Precisa e requer a parte prática, e entender como faz. No caso de enfermagem, por exemplo, é necessário aprender a puncionar, a pegar um acesso. Isso ele faz com treino e necessita do professor para ensinar”, acrescenta a diretora.

Eliana enfatiza que, nos cursos de graduação, faltam maturidade e habilidade para que o aluno estude sozinho, um cenário diferente dos cursos de pós-graduação. “Na pós-graduação eu defendo 100% EAD pelo fato de o aluno ser formado, já saber pesquisar e ter mais protagonismo”, pontua. Nos cursos de graduação EAD e semipresenciais oferecidos pelo Uniasselvi, o aluno conclui uma disciplina a cada quatro semanas e estuda uma disciplina por vez. O acadêmico conta com estudos online e encontros presenciais, com pelo menos um encontro semanal que, a partir do 2º módulo, passam a ser dois encontros. 

“No aspecto técnico, chega a ser uma aberração”

Raphael reconhece que a era da internet veio para mudar o mundo: “É irreversível e muito bem-vinda, mas requer atenção quanto ao aspecto de socialização. A timidez excessiva, a apatia, a indiferença com a dor dos seres humanos, a falta de vínculo com os outros, entre outros bloqueios, podem não ser superados na rotina remota e é no ensino presencial que se pode desbloquear, amadurecer, preparar para a formação de um ser resolvido emocional e tecnicamente para se responsabilizar pela vida ou pela qualidade de vida dos indivíduos”.

O fisioterapeuta é direto: “No aspecto técnico, chega a ser uma aberração”. Ele menciona que, nas redes sociais, é possível encontrar depoimentos de alunos que estudam anatomia por tela de computador. “Não tocam em peças anatômicas devidamente preparadas, ou modelos que as imitam”, ilustra. “Paciente não é cobaia de estudante mal preparado. Conselhos defendem os direitos humanos, pois a sociedade espera uma atuação  profissional”, completa.

Questão jurídica 

Procurado para avaliar o peso da posição do conselho, o advogado José Roberto Covac sinaliza que o órgão responsável por autorizar e avaliar efetivamente o ensino superior é o MEC. “O papel do conselho passa a ser em relação ao exercício profissional. Não cabe ao conselho federal discutir modalidade, currículo ou diretrizes, porque tudo isso é competência do Ministério da Educação”, afirma.

Covac garante que, com a autorização do MEC, os cursos de fisioterapia EAD podem ser continuados. “Ele só é paralisado ou suspenso se o ministério interromper a sua oferta. Caso contrário, não. O veto do conselho em relação ao curso tem uma função de natureza política, mas pode criar obstáculos no registro. Assim, o aluno prejudicado tem ingressado contra os conselhos em função dessa deliberação, não só equivocada como ilegal”, diz.

Questionado sobre uma possível medida tomada por parte do conselho, Raphael aponta que, embora autarquias profissionais não sejam órgãos de fiscalização da área educacional pública ou privada, por seu papel fiscalizador do exercício profissional, “podem e devem levar os problemas detectados na assistência”.

O presidente do Crefito-3 informa que foram enviadas cartas e comunicados aos cursos de São Paulo e assegura que o conselho não aceitará inscrições de profissionais do modelo EAD. “Pois não há garantia de que tenham sido preparados para a responsabilidade exigida”.

Leia também: Educação digital em pauta no ‘Admirável futuro da educação superior’

Autor

Gustavo Lima


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