NOTÍCIA

Edição 273

ESG é esforço antigo de poucos com nova roupagem

Flávio Hourneaux Jr., professor da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA/USP) e atual presidente do Capítulo Brasileiro do PRME, conta que a maioria das IES não tem uma visão estratégica e a participação é liderada por professores já engajados nos temas da sustentabilidade. Priscila Claro, especialista em sustentabilidade, aponta: ESG é um dos aspectos de um imenso guarda-chuva chamado sustentabilidade corporativa

Publicado em 21/03/2023

por Sandra Seabra Moreira

ESG "Maioria das IES não tem uma visão estratégica" (Foto: Freepik)

O mercado financeiro acordou há alguns anos para os complexos problemas contemporâneos da humanidade e começou a pressionar as empresas para ações voltadas às questões ambientais, sociais e de governança. E cunhou a sigla-conceito ESG – Environmental, Social and Governance –, em português, Ambiental, Social e Governança. Nem adiantou aportuguesar a sigla, ficou ESG, soletrada em inglês ou português, como preferir o falante.

Para as IES, a preocupação é preparar o profissional para essa nova realidade. Investidores pressionam as empresas e estas querem profissionais com noções, se possível com experiências em ações, no âmbito do ESG. Nada aqui é novidade propriamente, mas a onda provocada pelo mercado financeiro é grande oportunidade para que essas questões avancem. 

A bússola para orientar as empresas nas questões da sustentabilidade é o Pacto Global da ONU, criado em 2004. Entretanto, não parecia tão eficiente a conscientização de empresas, se os profissionais não tomassem contato com os valores preconizados pelo Pacto já na faculdade. “Depois de velho é mais difícil de aprender”, brinca Flávio Hourneaux Jr., e explica: “De fato, tecnicamente, o aluno cria seu modelo mental a partir do que lhe é ensinado. Se esses assuntos não forem tratados na escola, ele vai criar um modelo mental sem eles”. Hourneaux é professor da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA/USP), atual presidente do Capítulo Brasileiro do PRME – Principles for Responsible Management Education, ou Princípios para Educação Executiva Responsável, órgão criado em 2007. “O PRME é para as IES o que o Pacto Global é para as empresas”, explica. 

 

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Flávio Hourneaux

Flávio Hourneaux Jr (Foto: divulgação)

O Capítulo Brasileiro do PRME surgiu em 2013. Concebido para as escolas de negócios, o PRME preconiza seis princípios: propósito, valores, metodologia, pesquisa, parceria e diálogo. Em 2015, a Agenda 2030 do Pacto Global elencou 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os ODS. Nas IES, a ideia é desenvolver os valores do PRME em sintonia com os ODSs.

No mundo, há 900 escolas signatárias do PRME. No Brasil, das cerca de 2.700 instituições com cursos de Administração, apenas 28 são signatárias. “É pouco”, diz Hourneaux. Ele conta que a maioria das IES não tem uma visão estratégica e a participação é liderada por professores já engajados nos temas da sustentabilidade. “De novo, o problema do modelo mental”, diz o professor, acerca do desinteresse dos docentes e das próprias instituições, “fenômeno que acontece no mundo todo” afirma.

Hourneaux pensa as questões da sustentabilidade há pelo menos 20 anos. Suas pesquisas de mestrado e doutorado analisaram o desempenho das empresas e ele percebeu que havia um foco muito grande nos indicadores financeiros. “E não pode ser só financeiro”, afirma. “A visão tradicional, mais antiga, dizia que ou você trabalhava de maneira responsável ambientalmente e socialmente ou ganhava dinheiro. É justamente ao contrário. Além da redução de risco, existe a valorização por parte do consumidor.”

 

Opinião: A difícil busca da sustentabilidade

 

ESG é um dos aspectos de um imenso guarda-chuva chamado sustentabilidade corporativa, ensina Priscila Claro, especialista em sustentabilidade. Ela é coordenadora do Núcleo de Sustentabilidade e responsável pelas atividades do PRME e do Pacto Global no Insper, onde trabalha desde 2006. ESG é tema transversal nos cursos de graduação e pós. “Especialmente este ano estamos fazendo revisão curricular nos cursos de Administração e Economia. Estou numa força-tarefa para identificar em quais disciplinas da grade obrigatória temos a possibilidade de colocar mais desse conteúdo”, conta. 

Priscila participa, por exemplo, da disciplina de Estatística. “Na econometria, quando os professores estão ensinando regressão, participo para falar de problemas complexos como o clima. Exemplifico como a regressão pode ser uma técnica usada para identificar drivers de mudanças climáticas.”

 

SSIR Brasil: As diferenças entre ESG e investimento de impacto

 

Priscila Claro

Priscila Claro (Foto: divulgação)

No curso de Administração, a disciplina estratégia competitiva, obrigatória, é integrada a outras disciplinas como liderança, comportamento organizacional, finanças, operações e marketing. Nela, acontece a atividade chamada oportunidade de novos negócios. “A partir de uma empresa real – média, pequena ou startup –, os alunos, em grupo, vão buscar uma oportunidade de negócios relacionada aos ODSs. Eles aprendem a fazer um plano de negócios para essas empresas com o objetivo de gerar emprego e renda. Trabalha ESG porque o aluno identifica uma dor da sociedade e terá de desenvolver produtos ou serviços para tentar resolver o problema. No plano de negócios, também trabalha governança”, detalha.

Priscila afirma que a visão do ESG é sistêmica. “Por exemplo, pobreza é causa e consequência da mudança climática. Fico muito desconfiada quando vejo cursos estruturados a partir de letrinhas separadas. Não faz sentido!” Quanto ao engajamento dos professores, praticamente não há como escapar. “O Insper é uma instituição sem fins lucrativos, mas que funciona como um banco de investimentos. Aqui há governança. Se vira política, desdobra-se em metas, cada um terá que fazer a sua parte.”

Autor

Sandra Seabra Moreira


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