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Burnout Digital: onde você está agora? Indo para um computador ou voltando dele?

Quanto mais tempo de tela, maior a perda de concentração, prejuízo na qualidade do sono, irritação, maior tendência ao sedentarismo, maior produção de cortisol e sobrecarga mental

Publicado em 08/05/2023

por Danielle Rodrigues

Burnout digital "Precisamos desconectar para conectar" (Foto: Freepik)

O mundo está enlouquecendo. Como é um movimento coletivo, parece normal. Assim como é cada vez mais comum a não distinção entre o real e o simulado; um desinteresse crescente pelo real (principalmente pelas novas gerações) e a hipótese que o virtual se tornou mais real do que a própria realidade.

Bem-vindo(a)! Estamos na tecnocracia, ou seja, o governo da tecnologia: mais do que uma era de mudanças, uma mudança de era que tem promovido grandes facilidades nas nossas vidas e aberto caminhos para um progresso além da imaginação.

Por outro lado, conferimos e-mails, fazemos reuniões e enviamos mensagens de WhatsApp pelo celular enquanto estamos presos em engarrafamentos de trânsito, a caminho de um computador onde vamos conferir mais e-mails e enviar mais mensagens, presos em engarrafamentos de dados. O esgotamento é crescente, a síndrome da fadiga crônica é comum, a ansiedade é cada vez maior e se até pouco tempo não sabíamos quais as causas, hoje estão atreladas ao Burnout Digital: a exaustão provocada pelo excesso de exposição a dispositivos eletrônicos. O número de profissionais que sofre com isso só aumenta e a maioria nem se dá conta do que está acontecendo.

De acordo com o relatório da We Are Social, publicado em janeiro, 9 horas e meia de tela por dia é a média que o brasileiro passa conectado à internet. Estamos acima da média global, de 7 horas por dia, e atrás apenas da África do Sul. Diante de uma média tão expressiva, temos computadores e celulares ou na verdade temos aparelhos de hipnose coletiva?

 

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A questão é: quanto mais tempo de tela, maior a perda de concentração, prejuízo na qualidade do sono, irritação, maior tendência ao sedentarismo, maior produção de cortisol (hormônio do estresse), sobrecarga mental. Larry Rosen, professor da Universidade Estadual da Califórnia e pesquisador da chamada psicologia da tecnologia, publicou que 20% é a perda de foco quando o seu celular está ao seu lado. Mesmo se ele não estiver em uso.

Imagine esses efeitos no processo de aprendizagem?

 

Podemos considerar três novas grandes fobias do século 21:

1ª. O medo de escolher, já que que o número de opções é cada vez maior;

2ª. O medo de não ter tempo, já que temos listas e mais listas de e-mails, mensagens para responder e informações para consumir, vindo de todos os lados. Nós navegamos pela internet ou “naufragamos” na internet? Informação ou infoxicação?

3ª. O medo de ficar off-line. Você pode sair de casa e esquecer qualquer coisa e tudo bem, mas se você esquecer o celular, com certeza você vai voltar para buscá-lo. É como se as máquinas se tornassem extensão de nossos membros e sentidos. Carros, aeronaves e bicicletas ampliam nossas pernas. Microscópios ampliam nossos olhos. Telefones ampliam nossas vozes. Computadores ampliam nossas mentes.

 

Qual é a última coisa que você faz antes de dormir e a primeira ao acordar? Se a sua resposta for “checar o celular”, reflita: “nos tornamos ferramentas das ferramentas?”

É no excesso da conectividade, na supervalorização da tecnologia, no excesso de tempo de tela que cruzamos a fronteira entre humanidade e máquinas. Já não somos nós quem ligamos as máquinas, mas somos ligados por elas. É a Tecnologia comandando as pessoas e não o contrário.

 

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A constante evolução da tecnologia em geral traz uma percepção de poupar tempo, muitas vezes ilusória: a velocidade de uma aeronave no deslocamento de um lugar para outro nos poupa o tempo das antigas viagens, mas tornando possível tantas outras que não existe tempo para todas.

Lou Marinoff, escreveu em sua mais recente obra, “Pergunte a Platão”:

“Os computadores nos poupam tempo? Não quando são infectados por vírus. Tornam nosso trabalho mais fácil? Não, quando nos bombardeiam com curvas de aprendizado cada vez mais íngremes para ser possível dominar atualizações incessantes de tecnologias. Melhoram nossa vida? Não, quando facilitam o roubo da identidade. Eliminam o trabalho braçal? Sim, substituindo-o pelo trabalho mental.” E quando em excesso, o burnout digital.

Jaron Lanier, criador do conceito de realidade virtual, declarou recentemente que o maior perigo de certas novas tecnologias não é o seu potencial destrutivo, mas a possibilidade de nos deixarem loucos.

As pessoas têm fascínio pela tecnologia. A IA, por exemplo, ajuda os indivíduos a ter resultados rápidos, informações precisas, a agilizar negócios variados. A máquina lida muito bem com um grande volume de informações. O que é complexo para nós é fácil para a máquina e vice-versa, mas dada a presença em excesso das máquinas em nossas vidas, devemos considerar o fato que evoluímos em inteligência, não necessariamente em consciência. E é justamente o nível de consciência humana que vai determinar o impacto positivo ou negativo das máquinas.

Os antigos filósofos acreditavam que a ciência e a tecnologia seriam usadas para liberar as pessoas para trabalhos mais importantes, como educação, artes, uma saúde melhor, métodos mais evoluídos para governar pessoas, sociedade e política e não que as máquinas colocassem as pessoas em um processo de mecanização.

 

Leia: Saúde mental precisa da diversidade

 

Atingimos um patamar que para não evoluir para uma possível obsolescência humana, precisamos evoluir em consciência, ocupar o nosso lugar como humanos e deixar a máquina no lugar dela: como meio e não como fim.

A lógica do mito da caixa de Pandora: “uma vez aberta, seu conteúdo não pode mais ser contido”, vale para as novas tecnologias. A notícia boa é que podemos decidir o que fazer com isso a partir da consciência desse movimento.

Precisamos desconectar para conectar:

Desligue o celular, TV, smartwatch, Alexa. Evite o excesso de reuniões virtuais. Você sabia que desligar a câmera em certas reuniões de trabalho já não é tido como uma quebra de etiqueta virtual? Faça uma reunião caminhando. Evite acionar as pessoas na hora do almoço ou após o horário. Converse olhando nos olhos. Faça arte: desenhe, pinte, esculpa, leia, escreva, crie. Coloque os pés na grama. Dê um abraço demorado. Compre um despertador analógico. Afinal, existe vida fora das telas.

 

A autora

Danielle Rodrigues é vice-reitora na UNIFEOB. Integrante do Conselho Editorial da Revista Ensino Superior, é também estrategista em Futuros e Felicidade no Trabalho, escritora e voluntária no Instituto ELA, Educadoras do Brasil.

Autor

Danielle Rodrigues


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