Revista Ensino Superior | Tecnólogos: Oportunidades perdidas

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Formação

Tecnólogos: Oportunidades perdidas

Apesar do alto potencial de empregabilidade, a formação superior tecnológica acumula mais de 7 milhões de vagas no Brasil

Publicado em 05/01/2026

por Raul Galhardi

Tecnólogos foto: Shutterstock

Os cursos superiores de tecnologia, também conhecidos como tecnólogos, existem no Brasil desde a década de 60 do século passado, mas encontram-se atualmente diante de um desafio estrutural: preencher uma imensa oferta de vagas ociosas que resulta em milhões de oportunidades desperdiçadas todos os anos.

De acordo com o Censo da Educação Superior de 2024, no ano passado foram oferecidos mais de 9,2 milhões de vagas em cursos tecnológicos. Porém, o total de matrículas não ultrapassou 2,05 milhões. Dentro deste universo de alunos matriculados, a maioria está na rede privada (91%) e optou pela modalidade EAD (82%).

Esse desequilíbrio entre oferta e demanda com uma quantidade alarmante de vagas não preenchidas não pode ser atribuído apenas ao desinteresse dos jovens. Existe no Brasil uma barreira cultural e histórica. Erik Hörner, doutor em História, especialista em Gestão Escolar e diretor do Colégio Humboldt, afirma que no Brasil existe aquilo que na sociologia se tratou como “bacharelismo”, uma hipervalorização do diploma de bacharel que remonta ao século 19, quando os bacharéis em direito concluíam o curso defendendo uma tese e tornando-se doutores.

“Viramos uma terra de doutores em contraposição a uma massa de escravizados, cujo trabalho braçal era desvalorizado”, explica Hörner, apontando que essa herança gerou uma desvalorização dos trabalhos de níveis básico e intermediário.

 

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Ele conta que esse é um cenário que não acontece na Alemanha, por exemplo, onde desde o século 19 a educação básica era acessível à maioria da população e a taxa de analfabetismo nessa época já era mais baixa do que a brasileira dos anos 60 do século 20. Naquele país, a educação básica consegue cumprir com seus objetivos dando conta de uma série de competências fundamentais da plena alfabetização, inclusive matemática, pensamento lógico e resolução de problemas.

“No contexto alemão não existe essa educação tecnóloga como no Brasil e, quando se acrescenta uma formação técnica ao indivíduo, as habilidades e competências da escola básica se somam com a especificidade do mercado de trabalho oriunda do técnico, não sendo preciso necessariamente que a pessoa tenha diploma de nível superior”, explica.

Segundo o diretor, em alguns casos, o mercado brasileiro demonstra um descolamento das suas próprias necessidades e acaba contratando bacharéis na esperança de que a universidade tenha suprido as falhas da educação básica na formação dos profissionais, ao invés de valorizar o profissional tecnólogo. “Quando existe uma educação básica que não cumpre plenamente o seu papel junto a uma desvalorização do nível tecnológico e uma valorização desproporcional do bacharelado, temos a equação brasileira na qual sobram vagas para tecnólogos ao mesmo tempo que se continua precisando de profissionais de melhor qualidade porque o nível da mão de obra básica no Brasil é muito baixo”, analisa.

Para reverter esse cenário, afirma Hörner, é preciso que os setores econômicos entendam que o tecnólogo é o profissional ideal para muitas funções e que essa mão de obra deve ser valorizada com o devido reconhecimento financeiro.

Para além da questão cultural e histórica, o mercado pode estar sem mira. Para Wagner Sanchez, pró-reitor da Fiap, “vemos IES oferecendo muito mais vagas do que a demanda real comporta sem levar em conta fatores como localização, perfil socioeconômico da população e até o tipo de profissional de que o mercado local precisa. Em muitos casos, é uma oferta superdimensionada e malplanejada, o que naturalmente resulta em vagas ociosas”. E acrescenta que muitos programas de cursos tecnólogos permanecem com currículos antigos e desconectados das novas competências digitais e habilidades socioemocionais exigidas pelo mercado.

 

Ensino a distância

Analisando o enorme contingente de alunos que optaram por esta modalidade de ensino, o diretor do Colégio Humboldt avalia que uma explicação para essa busca pelo EAD pode ser atribuída ao fato de universidades venderem cursos EAD sem uma muita regulação. “Elas são um negócio e querem vender cursos”, pontua.

Outro fator para a procura levantado por ele é que existe o interesse na requalificação e na mudança de carreira, o que leva algumas pessoas a procurarem cursos mais práticos e mais rápidos. “Especialmente no Brasil, que possui dimensões continentais, o EAD não deixa de ter a função de atender áreas de difícil acesso a cursos presenciais. A procura por esse formato é uma questão de preço, comodidade, mas em alguns casos se dá pela necessidade de respostas rápidas às exigências do mercado para o indivíduo se manter relevante. Portanto, o diploma importa”, analisa.

 

O foco na prática

Apesar das barreiras culturais, o ensino tecnólogo é um caminho eficaz para quem busca agilidade e relevância profissional no mercado de trabalho. “O curso tecnológico é ideal para quem busca uma formação mais rápida, com menor investimento e entrada imediata no mercado. Essa formação tem uma natureza mais prática, focada em competências técnicas e de rápida atualização, o que é essencial em áreas como tecnologia, dados e inovação, nas quais tudo muda em questão de meses”, destaca Wagner Sanchez, pró-reitor da Fiap, instituição que oferece 16 cursos de graduação, sendo 11 cursos superiores de tecnologia e 5 bacharelados.

De acordo com o pró-reitor, a percepção do mercado está mudando com o preconceito em relação aos cursos tecnológicos diminuindo ano após ano, especialmente nos departamentos de recursos humanos das empresas, que passaram a valorizar mais as competências e experiências práticas do que apenas o título. Ele afirma que na Fiap o cenário de procura é positivo e a instituição, na qual os cursos tecnólogos correspondem a 65% da receita da graduação, sustenta sua estratégia em um modelo de ensino moderno, prático e conectado às transformações do mercado.

 

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“Trabalhamos com a metodologia Challenge Based Learning (CBL), em que o aluno aprende resolvendo desafios reais propostos por empresas e por situações concretas do mundo profissional. Além disso, nossa prática é hands on, ou seja, o estudante aprende fazendo. Ele participa de projetos, hackathons e experiências imersivas nos nossos laboratórios e em parcerias com empresas de tecnologia e inovação”, explica.

Em relação às estratégias de atração e manutenção dos cursos tecnológicos, a Fiap se baseia em três pilares: formação ágil e relevante com duração mais curta e conexão direta com as demandas do mercado; experiência prática e desafiadora, por meio de projetos reais, mentorias e metodologias ativas; e comunicação clara sobre o valor do tecnólogo, mostrando que se trata de um curso superior completo, reconhecido e valorizado pelas empresas.

 

Nova política nacional

Diante do desafio de ampliar, valorizar e qualificar os cursos superiores de tecnologia, o governo federal instituiu uma nova diretriz para a área com o Decreto 12.603/2025, que criou a Política Nacional de Educação Profissional e Tecnológica (PNEPT), cuja coordenação ficará a cargo da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec). A nova política contempla desde cursos de formação inicial e continuada até a pós-graduação em EPT.

O objetivo central da legislação é ampliar a rede de instituições e cursos, elevar a qualidade da EPT e estimular a participação ativa do setor produtivo na formação dos estudantes. A PNEPT articula um conjunto de ações para a promoção, democratização e qualificação da oferta, articulando-se com outras áreas estratégicas como ciência e tecnologia, geração de emprego, saúde e cultura.

Para aferir a qualidade das instituições e cursos de educação profissional e tecnológica em todo o país, o decreto também instituiu o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Profissional e Tecnológica (SINAEPT), que ficará sob a responsabilidade do Inep.

De acordo com a legislação, o Inep irá coordenar a implementação e desenvolvimento do sistema de avaliação relativo à educação profissional e tecnológica; elaborar estudos e análises de metodologias que alinhem a oferta de cursos com as demandas sociais e do mercado de trabalho; e orientar as instituições formadoras sobre as diretrizes nacionais e a operacionalização do SINAEPT.

Autor

Raul Galhardi


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