NOTÍCIA
Projetos de carreira, bolsas e redes de egressos tornam cursos mais atrativos e ajudam a enfrentar o risco de apagão de professores
Publicado em 12/01/2026
Ilustração: Shutterstock
Em meio ao alerta sobre o déficit de professores no Brasil (que pode chegar a 235 mil até 2040, segundo levantamento do Instituto Semesp), instituições de ensino superior têm apostado em novas estratégias para fortalecer as licenciaturas e ampliar a empregabilidade dos futuros docentes. Programas de carreiras, bolsas específicas e o acompanhamento sistemático de egressos estão entre as ações que buscam não apenas atrair mais estudantes para os cursos de formação de professores, mas também assegurar que eles permaneçam na profissão.
Na PUCPR, o Programa Carreiras atua como o núcleo de empregabilidade da universidade, oferecendo suporte direto aos estudantes e egressos por meio da divulgação de vagas, mentorias, apoio na construção de currículos e perfis profissionais, além de parcerias com o mercado. Em conjunto com o Programa Alumni PUCPR, a instituição mantém uma rede ativa de apoio após a formatura, com benefícios e oportunidades personalizadas.
“As duas frentes se complementam: enquanto o Carreiras oferece um apoio mais prático e direcionado ao desenvolvimento profissional, o Programa Alumni mantém viva a conexão com a universidade, ampliando as possibilidades de networking e recolocação dos licenciados”, afirmam Tassiane Souza de Jesus e Vinicius Gustavo Hernandes, responsáveis pelos programas.
A universidade realiza anualmente uma pesquisa de acompanhamento para entender como os ex-alunos estão inseridos no mercado e identificar tendências de atuação. “Entre os formados nas licenciaturas, observamos bons índices de empregabilidade. Em 2024, 52% deles estavam atuando em suas áreas, seja como professores, coordenadores escolares ou em cursos de formação”, detalham. Além disso, 85% dos respondentes afirmaram estar adquirindo novas habilidades diante das mudanças tecnológicas, o que reforça a importância da atualização constante e do desenvolvimento de competências digitais na atuação docente.
Outras universidades também estão investindo em programas de acompanhamento e incentivo à docência, buscando aproximar a formação inicial das demandas do mercado e reverter a queda na procura pelos cursos de licenciatura. As estratégias da PUC Minas e da Universidade do Vale do Taquari (Univates) articulam empregabilidade, qualidade formativa e políticas de valorização da carreira docente.
Na PUC Minas, pesquisas institucionais indicam resultados expressivos de inserção profissional entre os licenciados. “Aproximadamente 83% dos formados encontram-se inseridos no mercado de trabalho, sendo que 80% atuam diretamente na área de sua formação”, afirma Evanilde Maria Martins, diretora do PUC Carreiras. Entre aqueles que não exercem funções diretamente ligadas à docência, a maioria continua vinculada ao ambiente escolar, desempenhando outras atividades. “O setor público de educação se configura como o principal empregador desses profissionais, reafirmando o papel da universidade na formação de docentes para atender às demandas da rede pública de ensino”, acrescenta.
Embora o cenário ainda seja desafiador, a professora observa que a possibilidade de inserção profissional tem contribuído para o interesse de novos estudantes. Segundo dados levantados junto aos egressos, metade dos licenciados passou a receber entre dois e quatro salários mínimos após chegar ao mercado, o que demonstra uma melhora significativa em relação ao período da formação. “Esse aumento na renda, associado à estabilidade e à demanda contínua por profissionais da educação pode se constituir em um atrativo adicional para aqueles que consideram seguir carreira docente”, completa.
Na Univates, o pró-reitor de Extensão e Ensino, Tiago Weinzenmann, concorda que a empregabilidade tem peso cada vez maior entre os jovens. “É cada vez mais relevante para atrair novos estudantes às licenciaturas. Mostrar que a docência oferece amplas possibilidades de atuação em escolas, projetos educacionais, esportivos e culturais, e também em cargos de gestão, torna os cursos mais atrativos e aproxima os jovens da profissão”, afirma.
Com trajetórias distintas, as instituições convergem na importância de acompanhar os egressos e manter vínculos com o mercado de trabalho. Na PUC Minas, o programa de carreiras tem papel estratégico na articulação entre formação acadêmica e inserção profissional. “O programa orienta suas ações conforme o perfil profissional delineado para cada curso, promovendo uma integração entre teoria e prática ao longo da trajetória formativa”, explica Evanilde.
A universidade fomentou estratégias de desenvolvimento que envolvem estágios, projetos de pesquisa e extensão, de forma articulada, para potencializar a preparação dos alunos diante dos desafios do mercado. Entre as iniciativas, Evanilde destaca o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), os projetos de extensão e a Residência Pedagógica, que aproximam o licenciando da realidade escolar desde os primeiros períodos. “A política de aproximação entre universidade e escola (em que uma vai até a outra e vice-versa) contribui para uma formação contextualizada e responsiva às demandas educacionais”, ressalta a diretora.
Na PUCPR, a articulação entre os setores Carreiras e Alumni tem permitido ampliar o suporte aos formados. Entre as ações está o evento Conexão Carreiras, que aproxima empresas e escolas dos ex-alunos. “A rede também oferece benefícios institucionais, como descontos em cursos de pós-graduação, bolsas e programas de formação continuada, incentivando a atualização constante.”
Nessa mesma direção, outras instituições têm criado formas próprias de acompanhar a trajetória de seus licenciados e fortalecer a inserção regional. A Univates faz um acompanhamento por meio da Rede de Carreiras, que monitora o percurso profissional dos formados e identifica tendências de empregabilidade. “Estamos contribuindo de forma efetiva para enfrentar o déficit de professores na região ao estimular a escolha e a permanência na carreira docente”, observa Tiago. Segundo ele, o incentivo se dá por meio de bolsas de estudo, programas estaduais e oportunidades de vivência escolar desde o início da graduação.
Na Univates, o compromisso com a formação docente ganhou novo fôlego em 2022, com a criação do Programa de Incentivo às Licenciaturas. O programa reúne ações como a Bolsa Licenciatura (que garante até 50% de economia no valor do curso presencial), a oferta de cursos a distância e a participação em iniciativas como o Professor do Amanhã, do governo do Rio Grande do Sul. “O objetivo é ampliar o acesso aos cursos, garantir a qualidade da formação e contribuir para a empregabilidade dos egressos”, explica o pró-reitor.
Os estudantes da Univates também podem participar de programas como o PIBID e a Residência Pedagógica. Ainda assim, “embora a instituição entenda sua importância e responsabilidade em formar professores, a busca por alguns cursos tem sido menor, o que reflete o cenário nacional”, pontua Tiago. Ele destaca, porém, o aumento de matrículas em Letras Português-Inglês, impulsionado pelas bolsas do programa estadual Professor do Amanhã.
Se o desafio imediato é atrair e manter estudantes nas licenciaturas, o olhar de longo prazo está voltado para a atualização permanente e para a adaptação às novas demandas da educação.
Na PUCPR, estudos conduzidos pelo Observatório de Carreiras e Mercado de Trabalho apontam tendências que já orientam a formação dos licenciados. Tassiane e Vinicius destacam que o exercício docente envolve o domínio de competências digitais, o uso de metodologias híbridas e a incorporação de recursos de inteligência artificial em sala de aula. A instituição também vem priorizando o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e o compromisso com uma educação inclusiva, pilares que devem moldar o perfil dos novos professores.
Já na PUC Minas, o foco é consolidar a formação docente a partir de experiências práticas e integradas. O fortalecimento dos estágios supervisionados, da residência pedagógica e dos projetos de extensão tem permitido aos licenciandos maior aproximação com a realidade escolar, reforçando a relação entre universidade e rede de ensino. A política de incentivo à formação continuada e à pesquisa aplicada complementa esse processo, preparando egressos capazes de atuar de forma crítica e contextualizada diante das transformações da educação básica.
Na Univates, a perspectiva de futuro se alinha à valorização da docência e à ampliação das condições de acesso à formação. Com o Programa de Incentivo às Licenciaturas e a parceria em iniciativas públicas, a universidade aposta na combinação entre apoio financeiro, inserção no mercado e compromisso social como caminho para reverter a queda nas matrículas e fortalecer a permanência dos novos docentes.
PIBID – teoria e prática |
| Criado em 2007 pelo Ministério da Educação e coordenado pela Capes, o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) tem como objetivo valorizar a carreira docente e aproximar os licenciandos da realidade escolar desde o início da graduação. O programa concede bolsas a estudantes de cursos de licenciatura que atuam em escolas públicas de educação básica, sob a supervisão de professores da rede e a orientação de docentes das universidades.
Ao integrar teoria e prática, o PIBID contribui para a formação de professores mais preparados e engajados com os desafios do cotidiano escolar. As atividades incluem observação, planejamento e execução de projetos pedagógicos, permitindo a esses estudantes vivenciarem o ambiente escolar de forma crítica e reflexiva. Além de favorecer a aprendizagem dos futuros docentes, o programa fortalece o vínculo entre instituições de ensino superior e redes públicas, ampliando o diálogo em busca de mais qualidade para a formação de professores no país. |