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Incentivo à proficiência de docentes em inglês já é pré-requisito

O domínio da língua estrangeira é uma das ações de internacionalização em IES brasileiras

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Quando foi lançado em 2011, o Programa Ciência sem Fronteiras representava uma aposta na aceleração do processo de internacionalização da pesquisa e das universidades brasileiras, com a concessão de bolsas para estudantes em diversas instituições mundo afora. Anos depois, em 2017, com a chegada da crise econômica e a constatação de alguns furos no modelo adotado, as bolsas concedidas aos alunos de graduação pararam de ser concedidas.

Assista: Especialista explica como internacionalizar uma instituição ensino

Entre os problemas de concepção do projeto, um dos principais foi o fato de os estudantes brasileiros não serem proficientes em língua inglesa, a língua oficial do processo de internacionalização. Por essa limitação, houve grande concentração de pedidos para universidades portuguesas e dos países europeus de línguas latinas, mas isso nem sempre significou acesso a instituições de ponta, a maioria delas concentradas nos Estados Unidos e Inglaterra. E, de forma crescente, também nos países asiáticos.

Após essa experiência frustrada e em meio às ainda grandes restrições orçamentárias atuais, universidades públicas e privadas brasileiras começam a desenhar novas estratégias mais “pés no chão”. O Brasil, hoje, é apenas o 53º colocado no Índice de Proficiência em Inglês (EPI, na sigla em inglês), medido pela empresa Education First, tendo caído 12 posições em 2018, na comparação com 2017. O resultado aponta o Brasil com  baixa proficiência, a penúltima das cinco categorias existentes.

Um roteiro básico para atacar o problema da proficiência em língua inglesa, pré-condição para as pretensões de internacionalização, inclui um diagnóstico do domínio linguístico de professores e alunos, o desenho de um programa que inclua várias ações para melhorá-lo de forma crescente e possibilitar a oferta de disciplinas em língua estrangeira na instituição, entre outras iniciativas. Ou seja, antes mesmo dos estudantes, é preciso estimular os docentes a alcançarem novos patamares de domínio da língua.

Segundo VanDyck Silveira, CEO da Escola de Negócios Trevisan e com experiência em diversas instituições internacionais, apenas 30% dos CEOs no Brasil falam inglês fluentemente. “E a área de negócios tem índice maior. Outras áreas, como o direito, exigem muito menos conhecimento de inglês. Avalio que, no caso dos docentes, em torno de 1/3 estejam nessa faixa mais alta”, diz Silveira.

Pelo levantamento da Education First, apenas 4% a 5% dos brasileiros têm inglês fluente. Segundo outro levantamento global, o English at work, realizado pela Cambridge e pela QS, responsável por um ranking universitário, entre as quatro principais habilidades analisadas em testes, as habilidades de leitura e comunicação oral são consideradas, pelos falantes, mais necessárias do que as de compreensão oral e escrita.

inglês docentes ensino superior
PUC-SP: Meta de triplicar até o final de 2020 o número de disciplinas oferecidas em inglês

Ações sistêmicas

Um exemplo de ação para melhorar a proficiência dos docentes e estimular a internacionalização é o edital do British Council para patrocinar pesquisas acadêmicas tendo como objeto o ensino da língua inglesa nas universidades. No Paraná, foram selecionados projetos de dois pesquisadores, tendo a Cambridge Assessment English como parceira.

O primeiro é voltado a analisar se é possível estabelecer um nível mínimo de proficiência para o ensino de disciplinas em inglês voltadas a alunos internacionais (aqueles que têm bom domínio da língua, independente de sua origem), proposto por Ron Martinez, da Universidade Federal do Paraná. O segundo, de Eliane Registro, da Universidade Estadual do Paraná, visa levantar dados para a construção de uma ferramenta de ensino para o inglês como meio de instrução (EMI, English as a Medium of Instruction).

Como Registro também coordena o programa “Paraná fala idiomas”, do governo do estado, contemplou em sua proposta as sete universidades estaduais paranaenses, que costumam trabalhar em rede. Assim, ao longo do projeto, conseguirá produzir um panorama mais amplo.

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Para Hugh Moss, especialista de Cambridge com 25 anos de experiência na área de avaliações sobre domínio linguístico e na capacitação de docentes, há grande ansiedade de alunos e docentes para a internacionalização. Um dos pontos do processo é atender a especificidades.

“Os cursos mais técnicos, em função de particularidades da linguagem, são mais desafiadores. Mas a primeira coisa é que os gestores das universidades tomem a iniciativa, e isso está ocorrendo. Vamos prover um grupo inicial de 14 professores com um curso on-line de 120 horas, com atividades práticas e escaláveis”, diz Moss. A ideia é que esses professores que atuam em diversas áreas do conhecimento passem a oferecer, após a capacitação,  disciplinas em inglês.

Segundo a professora do Paraná, sua pesquisa se centrará em três questões. “Vamos ver o que significa o EMI na gestão das universidades e para os professores; quanto os professores se sentem preparados para ministrar suas aulas em inglês?; e quanto os alunos se sentem habilitados como ouvintes de aulas em inglês?, resume”, incorporando a sequência na pesquisa após a formação inicial.

Após o ciclo se completar, estão previstas outras três fases: identificação das lacunas do processo e verificação na literatura sobre como preenchê-las; análise do suporte adicional que os professores tiveram para melhorar a utilização do inglês, com posterior ranqueamento das  indicações e sobreposição com o que indica a literatura especializada, para levantar pontos coincidentes; fazer o mesmo processo com os alunos. Registro e Moss computarão, então, os dados, e vão avaliá-los e fazer um relatório final que resultará numa publicação do Conselho Britânico, a ser compartilhada com outras instituições. 

Atualmente, a Universidade Estadual de Maringá é a única da rede estadual do Paraná a oferecer cursos de disciplinas de outras áreas em inglês. Há entre cinco e seis cursos na área de ciências da saúde, segundo Eliane Registro.

Virada acadêmica

Entre as instituições privadas, com timing diferente entre si, a questão é preocupação central também. A PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), por exemplo, busca corrigir “uma defasagem de anos em relação a outras instituições”, como define Eugênio Trivinho, assessor de Relações Internacionais.

Desde o final de 2016, a PUC-SP colocou em campo uma nova política de internacionalização que tem, entre outros objetivos, o de triplicar, ou ao menos duplicar, até o final de 2020 o número de disciplinas oferecidas em língua inglesa de 2011 até este ano. No total, foram 20 disciplinas ofertadas, sendo 10 na área de administração e 10 na área de direito.

Agora, no entanto, o processo em curso está analisando as áreas em que há mais condições de se investir para a expansão da oferta. Questões como qualificação do estafe e demanda ajudarão nas definições. Na pós-graduação, são necessários de seis a nove alunos para abertura de novas turmas; na graduação, de 20 a 25.

A instituição quer internacionalizar-se nas áreas de ensino e pesquisa, mas Trivinho defende um processo crescente, que começa com o fomento da multiplicação de módulos de cursos ou disciplinas em inglês, por meio de professores nativos e proficientes. “Esse grupo deve capacitar outros professores, para aumentar o número de docentes aptos a ministrar disciplinas em inglês. Ou enviar professores ao exterior”, diz o assessor.

Como é preciso ter alunos em número suficiente para ampliar a oferta, a instituição não pode deixar de fazer um trabalho constante de participação em feiras e de visitas a universidades de outros países. Trivinho cita o exemplo das universidades irlandesas, que têm como parâmetro um investimento anual na casa de US$ 1 milhão (mínimo), entre ações institucionais e acadêmicas, para captar e manter esse aluno internacional, e para enviar os seus alunos ao exterior. Ao valor, mencionado em apresentação no Dublin Institute of Technology, os irlandeses acrescem ainda uma rede de parceiros locais que inclui as indústrias, onde o estudante pode fazer estágio ou até ser contratado.

Outro ponto que ele destaca é “housing”, ou seja, o acompanhamento e os serviços a esses alunos estrangeiros recebidos, para auxiliá-los no difícil confronto com um país, uma cultura e uma língua à qual não estão familiarizados. Tudo isso leva a um efervescente caldeirão cultural, que certamente ajuda a diversificar as investigações acadêmicas. “Cinco anos atrás, havia falantes de 43 idiomas circulando em Harvard”, cita Trivinho.

Negócios e novas habilidades

Se as universidades tradicionais, em razão de seu tamanho e cultura, às vezes perdem em agilidade, as escolas de negócios têm sido um fator de aceleração na área educacional. Isso porque, obviamente, negócios cada vez mais pedem escala global e profissionais prontos para isso.

É o que acontece com a Escola de Negócios Trevisan, que desde fevereiro passou a contar com a experiência de VanDyck Silveira, novo CEO e sócio, um dos fundadores do Ibmec, também com passagens em outras marcas internacionais, como Financial Times.

O projeto é ambicioso: remodelar os cursos e criar uma universidade politécnica, aumentar o corpo discente dos atuais 1,8 mil alunos em três campi para 5 mil em dois anos, contando com uma parceria com a Delloite para chegar a novas praças em que haja escritórios da consultoria.

Já em 2020, às áreas de administração e contabilidade vão se juntar novos cursos de Direito, Engenharia de Produção e de Computação e Ciência da Computação. “Existe uma grande confluência entre o mundo dos negócios e as tecnologias. É necessário formar gente que domine programação e Data Analytics. Sem falar inglês, isso não é possível, diz Silveira. Hoje, a Trevisan tem parcerias com seis instituições internacionais e está modelando programas conjuntos com a London School of Business and Finance.

Foco em pesquisas

Assim como também acontece com a PUC-SP e a Trevisan, o Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), do grupo Cruzeiro do Sul, tem apostado na mobilidade acadêmica, mas o propósito maior é aumentar a colaboração no campo das pesquisas com parceiros internacionais e a inserção de seus docentes em publicações acadêmicas relevantes. Um incentivo financeiro premia aqueles que publicam em revistas científicas internacionais com o pagamento de uma gratificação.

“Estamos também iniciando a cotutela, em nível de mestrado, com a Universidade de Salamanca, na Espanha. Além disso, temos vários convênios, dos quais quatro para o mestrado, em universidades de Milão, Roma, Lisboa e Syracuse (EUA)”, diz Beatriz Eckert-Hoff, reitora do UDF. Ela própria ministra todos os anos uma disciplina em linguística, sua área de especialização, na Universidade de Coimbra. Em contrapartida, o UDF recebe um professor da universidade todos os anos para a mesma finalidade. “O acesso a disciplinas, por parte dos nossos alunos e das instituições com que nos relacionamos, fortalece essas parcerias”, acrescenta.

Fruto de um planejamento institucional para os próximos cinco anos, o UDF mantém um escritório de internacionalização e mobilidade acadêmica e aproveita algumas vantagens competitivas, como o fato de estar em Brasília e ter um curso de Relações Internacionais. Como a capital reúne muitos diplomatas estrangeiros, há disciplina de extensão sobre Língua e Cultura Brasileira. E outra voltada ao inglês para negócios e cultura, que faz parte do curso de Relações Internacionais, mas também pode ser cursada como extensão universitária.

Os alunos de RI que dominam inglês têm a oportunidade de trabalhar como monitores para reforçar o inglês dos outros estudantes. E a instituição também mantém um convênio com o New Castle College, no Reino Unido, para que alunos e professores possam fazer períodos imersivos. Em torno de 20 professores já foram à Inglaterra.

O escritório também assumiu um papel de liderança na promoção da internacionalização dentro do grupo Cruzeiro do Sul. No ano passado, realizou o primeiro encontro sobre o tema, quando foi criado um núcleo, com representantes das várias unidades, para incremento das ações.

Leia também:

Direção, professores e alunos: quais suas funções dentro da internacionalização e como envolvê-los no processo?

Política de idiomas: o que é e como construir uma eficaz?

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