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“A educação e o sistema econômico não conversam”

Em entrevista, Ricardo Paes de Barros, professor do Insper, fala sobre produtividade e a relação das instituições de ensino superior com o setor produtivo

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Ricardo Paes de Barros revolucionou o modo de fazer políticas públicas no Brasil, pois, ao criar e organizar rigorosamente um conjunto de microdados, ele fez com que as autoridades entendessem efetivamente as causas da pobreza e da desigualdade do país. Antes dele, o que existia era retórica e debates ideológicos. As palavras são de James Heckman, vencedor do Nobel de Economia e um conhecido defensor dos investimentos na primeira infância.

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Na visão de Heckman, que orientou Paes de Barros no doutorado realizado na Universidade de Chicago, seu antigo aluno poderia ter se tornado um economista de primeira linha, um grande teórico. Poderia até mesmo ter ficado nos Estados Unidos, onde foi convidado a dar aulas. Mas ele resolveu regressar ao Brasil para contribuir com a redução das desigualdades sociais. O Bolsa Família é uma de suas contribuições.

Hoje ocupando o posto de economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e de professor da Cátedra Instituto Ayrton Senna no Insper, Paes de Barros se apresentou no 21º Fnesp, onde mostrou uma pesquisa sobre o baixo impacto da educação brasileira na produtividade.  Bem diferente foi a situação do  Chile, onde cada ano de escolaridade a mais gerou um incremento na produtividade de US$ 3 mil por trabalhador. Na Coreia, que também aumentou a escolaridade da força de trabalho, cada ano virou US$ 7 mil. Na entrevista que segue, Paes de Barros reforçou a importância de estreitar os vínculos entre a academia e o setor produtivo. Confira.

Por que a produtividade não aumentou no Brasil? O que os outros países fizeram que nós deixamos de lado?

A gente não sabe se é um problema da educação ou se é um problema do sistema produtivo. O sistema produtivo pode também estar pegando um conjunto de engenheiros bem formados e colocando em cargos administrativos.

Também é possível que eles estejam investindo pouco em inovação?

Sim. Pode ser tanto o sistema produtivo usando mal a educação como a educação sendo gerada sem muita atenção com o sistema produtivo. A educação e o sistema econômico não conversam. E se os dois não conversarem de uma maneira muito íntima, esse problema não vai ser resolvido. Não adianta a empresa reclamar que a universidade não produz gente com as qualificações que eles precisam quando eles não têm nenhum contato com a universidade e não informam à universidade o tipo de mudança tecnológica e organizacional que eles estão fazendo. Como a universidade vai adivinhar isso? Eu acho que quanto mais os países conectam essas duas coisas, como Alemanha e Suíça fazem, menor o risco de gerar uma educação que fale pouco com o sistema produtivo. No Brasil, nós estamos produzindo uma educação que tem pouca utilidade para melhorar as condições de vida da nossa população.

Muitas universidades federais estão criticando o Future-se por receio de perder a autonomia. Nós temos um problema cultural a ser enfrentado antes de dar esse passo de aproximação com o mercado?

O Future-se é opcional, logo, é uma oportunidade. Você pode aproveitar ou não. Na hora que as pessoas começam a ver oportunidade com receio tem alguma coisa errada. Você prefere não ter oportunidade? Você prefere não poder fazer alguma coisa? É claro que qualquer oportunidade, qualquer programa tem um risco. Se você usar mal o seu carro você pode causar um acidente. Então carros não serão utilizados porque eventualmente poderão ser mal utilizados? A universidade tem que conversar, tem que fazer projetos. Ela deveria estar brigando com o MEC para fazer isso.

O programa pode trazer uma fonte de recurso adicional, a univerisdade pode melhorar seus laboratórios e mais um monte de coisas. Mais do que isso, ela vai conseguir ter contato, saber o que está acontecendo na indústria, no sistema produtivo, e com isso ela vai poder melhorar o currículo. Não dá para entender como alguém que ensina engenharia não quer estar muito próximo das empresas de engenharia. Por que a nossa educação em medicina é tão boa? Porque os médicos que dão aula também são clínicos. Os engenheiros que dão aula nas Engenharias não podem ser engenheiros nas fábricas. É claro que vai dar errado.

educação Ricardo Paes de Barros
Ricardo Paes de Barros: a educação brasileira não está melhorando as condições de vida da população

Mas e a questão da independência? Alguns reitores falaram em ingerência dos parceiros nas decisões acadêmicas.

A Albânia é um país que estava muito preocupado com a ingerência de todos os países do mundo. Ela se tornou o país mais isolado da face da Terra. Quando o Brasil se abre para o mundo, quando ele se integra a um sistema de produção em que um pedaço é produzido aqui, outro em outro país e assim por diante – como quando você produz um avião –, é claro que você perde sua independência.

Mas isso é parte da natureza humana e do progresso. Obviamente você não vai poder permitir que uma empresa decida os cursos que você vai dar na universidade, mas em alguma medida ela vai interferir. Uma indústria pode querer promover uma pós-graduação, por exemplo. A Embraer tem uma interferência enorme no ITA. Ela diz para o ITA qual é a pós-graduação necessária na área de engenharia aeronáutica porque é ela quem vai contratar. Quando você cria um sistema interdependente, você perde uma certa independência. Mas o objetivo não é independência. O que você quer é uma melhor educação. Se para você ter uma melhor educação você precisa fazer parcerias e de alguma maneira sacrificar sua independência, então isso tem que ser feito.

A baixa produtividade teria alguma relação com o baixo índice de jovens em programas de ensino técnico vocacionais? Apenas 8% dos jovens brasileiros concluem o ensino médio nestes programas. Na média da OCDE, esse índice é de 40%, aproximadamente.

O novo ensino médio tenta atacar isso. Acho que o nosso ensino médio perdeu muito do seu significado. Parte disso é o fato de que a educação técnica é muito mal representada. No geral, é um ensino médio em que os jovens têm poucas opções de escolha, por ser muito engessado, ensina muito pouco a raciocinar, a resolver problemas. A questão vocacional é um dos problemas, mas acho que a flexibilização do ensino médio é um problema maior.

O senhor acredita que a taxa de escolarização líquida do Brasil, que ainda é muito baixa, interfere nesse quadro de baixa produtividade?

O Brasil tem um desafio enorme para expandir o ensino superior com qualidade. Não tem jeito. A gente tem uma porcentagem de alunos no ensino superior muito pequena, mas, considerando a taxa de analfabetismo, não temos tão pouca gente assim. Isso em relação à taxa de analfabetismo. Mas é claro que gostaríamos de ter muito mais.

Quais seriam as saídas para ampliarmos o acesso? Seria o caso de repensar o Fies?

Todo país do mundo minimamente razoável tem um Fies. A gente precisa de um sistema de financiamento da educação superior, não tem jeito. A questão é como você desenha isso, como você garante a sustentabilidade desse sistema. Mas é indiscutível. Tem que ter.

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O senhor defende o fim da gratuidade da universidade pública. Por quê?

Defendo o fim da gratuidade para o rico. A gratuidade devia ser um direito do aluno. Se você é um aluno pobre e talentoso, você deveria ter direito a uma educação gratuita. Não importa se você vai fazer isso na PUC, na Getulio Vargas. Quem tem o direito da gratuidade é você. Mas hoje o que acontece é que damos o direito da gratuidade à universidade federal. Todo mundo que estuda lá tem o benefício da gratuidade. Isso não faz nenhum sentido. Se eu sou um cara rico, o meu filho deve pagar. O país tinha que ter um sistema de bolsas para pessoas que, ou por mérito ou pobreza, merecem.

Não importa se vai estudar em uma escola estatal. O que é público é a bolsa. As universidades não são públicas, aliás. A gente confunde uma universidade estatal com uma universidade pública. A USP não é pública, ela é estatal. Eu posso passar o fim de semana em uma praça pública se esse for o meu desejo. Mas eu não posso estudar na USP se quiser.

Mas, nesse modelo, faz sentido manter as instituições estatais?

Sim. Poderíamos criar mais, consolidar as que já existem. O que vamos fazer com as suas universidades estatais é um problema administrativo. A gente não pode misturar isso com gratuidade. Nós precisaríamos ter um programa nacional público de bolsas, que selecionaria com base no Enem, com base no Cadastro Único ou em alguma medida de pobreza, quais brasileiros ganhariam 100% de bolsas. Eles seriam os donos das bolsas e aonde eles fossem, a bolsa iria com eles. . É como dar um seguro de saúde. A pessoa pode usar aonde ela for. O hospital pode ser estatal, privado. Ele tem o direito àquele serviço.

E quanto à importância da pesquisa para a produtividade? O corte de bolsas não pode prejudicar ainda mais o quadro?

Certamente. Pesquisa é uma coisa de longo prazo. Suponha que alguém esteja fazendo uma pesquisa sobre alguma doença e você corta o recurso… Toda vez que a gente faz um investimento em pesquisa a gente tem que garantir uma certa estabilidade. Isso com todo o dinheiro em educação. Um dos grandes problemas do Fundeb é que ele é um fundo sem fundo. Você não tem nenhum dinheiro no Fundeb. O dinheiro entra no Fundeb e sai. Você precisava ter um fundo de tal maneira que, durante uma crise, você pudesse tirar dinheiro do fundo e manter o seu gasto com educação. E quando a economia se recupera, você poupa. É função do governo estabilizar os recursos com educação. Você não pode chegar para o bolsista dizendo que a bolsa acabou no meio do curso, da pesquisa. Mas acho que você tem que sempre avaliar a eficácia do teu gasto.

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