O setor do ensino superior está à beira do precipício?

Para o diretor de inovação Fábio Reis, a resposta é sim, mas a situação pode se reverter se as IES tiverem uma eficaz proposta de educação

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Talvez já tenhamos decorado a lista de empresas que impactaram os modelos de negócios, especialmente, das organizações que avançaram nas tecnologias digitais. Em praticamente todas as lives sobre educação e inovação, em tempos de pandemia, se fala em Netflix, Nubank, Uber e tantos outras. Correto, já sabemos que essas empresas geraram impactos nos modelos de negócios das organizações consideradas convencionais.

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Da mesma forma, é comum nas palestras e em conversas ouvirmos que o modelo de gestão das startups representa o melhor caminho a ser seguido pelas empresas convencionais, pois são ágeis, flexíveis e sintonizados com a atualidade.

ensino superior no precipício
Foto: Shutterstock

Para não pendermos para um único caso, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, sim, é preciso reconhecer o valor da inovação da Netflix ou do Nubank; sim, os modelos de planejamento das startups podem representar boas soluções para os projetos das empresas, todavia, não há soluções prontas nem podemos acreditar nos “salvadores do universo educacional”, aqueles que dizem: siga esse modelo e você terá sucesso.

Posições

Se há empresas como a Nubank, que já demonstraram que é preciso repensar os modelos de negócios, por que, no caso do ensino superior, ainda não realizamos as mudanças que são necessárias?

Será que os gestores temem enfrentar os confrontos que as mudanças geram e estão acostumados com o sucesso do passado? Será que os gestores acreditam que basta fazer arranjos e os problemas da IES serão resolvidos, o que permitirá à instituição navegar em mares sem grandes turbulências?

Não tenho a resposta para essas perguntas, e, talvez nem saiba se são essas as perguntas corretas que precisam ser feitas, mas o fato é que, no geral, permanecemos “no mais do mesmo“ e, no limite, realizamos reformas que atendem à demanda do momento, sem pensarmos em médio e longo prazo.

A pandemia trouxe consigo uma das maiores crises econômicas da nossa história.

A prioridade, até o momento, foi “salvar o negócio” e fazer os ajustes, como suspensão de contrato do trabalho, redução de jornada, demissões, revisão de orçamento, acordos com os estudantes, políticas de financiamento, redução das mensalidades, entre outras medidas.

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Ações

Ao iniciarmos nossas atividades remotas no contexto da pandemia, sentimos a necessidade dos ajustes na legislação educacional. O Conselho Nacional de Educação (CNE) ocupou e ocupa um papel de protagonista com os pareceres que flexibilizaram as atividades acadêmicas. Do outro lado, o Ministério da Educação (MEC) homologou e agiu para tornar efetiva uma legislação que atendesse ao novo cenário.

Mas, “E agora José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu e a noite esfriou”, numa analogia ao poema de Carlos Drummond de Andrade, revela-se uma sensação de falta de esperança e permite-se uma interpretação – o que vamos fazer em um tempo de crise, em que a bonança já se foi, o número de ingressantes diminuiu, a evasão e a inadimplência aumentaram e o setor da educação está em crise? E agora gestor?

Em relação aos problemas financeiros, haverá, inevitavelmente, uma crise, algumas IES podem não conseguir sobreviver e tantas outras vão resolver a situação financeira com gestão e cortes no orçamento.

Entretanto, é importante lembrar que nossas IES são organizações de educação, de reflexão, de diversidade, de formação de pessoas cidadãs, de geração de conhecimento, de capacitação das pessoas para o mundo do trabalho, entre outras funções.

Mais do mesmo

Visitei em torno de 30 websites de IES. Em praticamente todos, o foco é o vestibular, a captação de estudantes, os descontos, os financiamentos. Mudam as cores, a caras, mas a mensagem é a mesma: estamos em fase de captação. Durante as visitas, eu pensava – qual a proposta acadêmica da IES? Como a IES planejou as aulas para o 2º semestre? Há protocolos preparados para o retorno das atividades de aprendizagem?

O planejamento cuidadoso do modelo acadêmico exige um plano. As aulas remotas necessitam ser bem estruturadas em uma situação que envolva aprendizagem, engajamento, tecnologia e avaliação adequada.

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Antes das aulas retornarem no segundo semestre, o plano acadêmico com capacitação docente precisa se tornar prioridade.

Temo que estejamos incluindo em nosso modelo acadêmico disciplinas de EAD que não fazem sentido para a proposta acadêmica e não cria elos com o que se busca no perfil do egresso. Temo que nossos arranjos sejam realizados exclusivamente por opções financeiras.

Pensar que seremos mais digitais, incluindo atividades on-line nas aulas, pode ser um erro. Seja qual for o modelo acadêmico, o fato é que ele precisa fazer sentido para a proposta de educação da IES.

Desconstruções

O setor de ensino superior está à beira do precipício? Sim, está!  Estou me referindo a um cenário amplo do ensino superior. O atual contexto gera impacto financeiro, crise de identidade nas IES e incertezas.

Sugiro que visitem o website da Tec. de Monterrey. Procurem por exemplo, conhecer o Modelo HYFlex + Tec. A universidade tem uma proposta acadêmica. Ao entrar no site, percebemos que a Tec. é uma instituição de educação engajada com a formação.

Lógico, entendo que a situação financeira da Tec. é melhor do que muitas IES brasileiras e que, provavelmente, eles não estejam com tantos problemas de captação de novos alunos.

De toda forma, espero que possamos fazer transformações digitais em nossas IES, assim como a Nubanke tantas outras empresas fizeram. Espero também que possamos prezar pelo valor da educação e do modelo educacional para que as IES sejam relevantes para os estudantes, antes que eles desistam do ensino superior e passem a considerar o diploma algo irrelevante. Sugiro que possamos aprender com os melhores modelos de empresas e de IES.

O ensino superior cairá no precipício se as IES não tiverem uma eficaz proposta de educação.

Isso parece estranho, mas é fato, afinal, este texto faz referências às instituições de educação. Um reitor que sempre lê meus textos tem razão, nossas IES precisam de educadores que sejam gestores e líderes que inspiram.

*Fabio Reis, diretor de inovação e redes do Semesp, diretor de inovação acadêmica da Unicesumar, presidente do Consórcio Sthem Brasil, professor do Unisal e pós-doutorando em Políticas Públicas pela Universidade de Coimbra.

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