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Da falta de contadores nasce a FECAP

Com a fundação da FECAP, há 120 anos, buscava-se formar profissionais capazes de produzir estatísticas disponíveis apenas nos países mais desenvolvidos, estudar os mercados, desenvolver estratégias competitivas adequadas e fomentar o consumo dos produtos brasileiros pela “propaganda inteligente”

Nas duas últimas décadas do século XIX tiveram início os primeiros movimentos que levaram ao que a Harvard Business Review denominou de “o século da gestão” (edição de nov/2012). A prestigiada revista fazia referência ao desenvolvimento do corpo de conhecimentos da área ao longo do século XX, o qual influenciou crescentemente as sociedades conforme a produção passou a ser realizada cada vez mais por meio de organizações maiores e mais complexas. Embora com algum atraso e menor intensidade, na virada do século XIX para o XX o Brasil também vivenciava um processo de transição para uma economia mais industrializada. Um fator crítico para esse processo residia na disponibilidade de pessoas capacitadas para gerenciar as organizações. Esses profissionais também poderiam beneficiar o setor primário da economia. Foi nesse contexto que um grupo de empresários, empresas e intelectuais decidiu fundar uma escola de negócios em São Paulo. Nasceu assim, em 1902, a “Escola Prática de Comércio de São Paulo”, primeira denominação da “Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP)”. A mudança do nome foi feita em gratidão à generosidade de um dos seus fundadores, o bem-sucedido empresário Antonio de Álvares Leite Penteado.

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Conde Antonio de Álvares Leite Penteado

Competência do setor privado

Antonio de Álvares Leite Penteado doou os recursos para a construção do primeiro edifício próprio da Escola, localizado no Largo de São Francisco, centro histórico de São Paulo, inaugurado em fins de 1908. O prédio continua em funcionamento e é um interessante local de visita para os que apreciam história e arquitetura. Uma carta enviada à Diretoria da Escola na época da doação mostra o senso de relevância e urgência do empresário com relação à necessidade de formação profissional em negócios para que o país tomasse um rumo na direção de maior prosperidade:

“Infelizmente, bem tarde parece ter-se compreendido entre nós a necessidade desse ensino, vivendo como temos vivido até hoje, na ilusão fagueira de que a terra nos daria eternamente os seus frutos, dantes, quando escassos, reputados por bons preços e hoje por assim dizer, desprezados, pela nossa falta de preparo para as conquistas comerciais.” (Carta de Antonio de Álvares Leite Penteado à Diretoria da FECAP, 1907)

O texto do principal patrono da Escola era influenciado pelos problemas econômicos que enfrentávamos com a queda do preço do café. É interessante notar que Antonio de Álvares Penteado não defendia o auxílio ou subvenções do poder público, mas a atuação competente do setor privado por profissionais preparados para a “luta comercial”, nas suas palavras. Por meio do seu apoio à Escola, buscava formar profissionais capazes de produzir estatísticas disponíveis apenas nos países mais desenvolvidos, estudar os mercados, desenvolver estratégias competitivas adequadas e fomentar o consumo dos produtos brasileiros pela “propaganda inteligente”.

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Com isso, acreditava estar contribuindo para o desenvolvimento econômico e social no longo prazo. O seu esforço pessoal era realizado “na certeza de que os vindouros continuadores da luta pelo engrandecimento do país colheriam os frutos da educação profissional da mocidade de hoje”. Também é preciso destacar a liderança intelectual do professor Horácio Berlinck na criação e crescimento da Escola. Berlinck se desenvolveu como contador pelo aprendizado com profissionais estrangeiros, notadamente escoceses, que trabalhavam na cidade. Em fins da década de 1890, quando já era presidente do Grêmio dos Guarda-Livros de São Paulo e professor na Escola Politécnica de São Paulo, propôs a criação do ensino comercial na cidade. Sua proposta não prosperou entre as autoridades públicas da época. Mas o seu projeto serviu de base para a criação da FECAP, onde trabalhou por vários anos e foi seu diretor. 

Com frequência, ouvimos sobre a necessidade de maior integração entre academia e mercado. Também temos visto um saudável movimento de busca de recursos externos pelas instituições de ensino por meio de doações. É curioso e pode ser surpreendente observar que a mais tradicional escola de negócios do Brasil tenha sido criada exatamente com tais características. Evidência inequívoca do pioneirismo dos seus fundadores e de uma visão que se mantém atual.

Transformações geracionais

Ao longo de doze décadas, a Escola tem buscado cumprir os ideais dos seus fundadores. Muitas gerações de egressos têm contribuído com o crescimento e o desenvolvimento de organizações nos mais variados setores. E têm encontrado na Escola a mola propulsora para a melhoria da sua condição socioeconômica. De fato, uma marca da FECAP é o impacto positivo na vida daqueles que passam a fazer parte da sua comunidade. Os “Alvaristas”, como nos denominamos.

Deliberadamente, a Escola tem mantido o foco na educação de excelência em negócios. Sem, contudo, incorrer em miopia. Queremos apoiar o desenvolvimento do país por meio do apoio às organizações. Como as suas necessidades se alteram com o tempo, é necessário acompanhar tais mudanças. Como um exemplo recente, nossos projetos pedagógicos foram reformados para intensificar o preparo dos nossos estudantes em tecnologia da informação e análise de dados. 

Uma das possíveis desvantagens do posicionamento de nicho pode residir na perda de economias de escala. A concentração do setor cresceu, o que pode trazer preocupação às demais instituições. Iniciativas como a do SEMESP de fomento às redes de cooperação são interessantes para que as instituições de menor porte consigam obter algumas vantagens de escala.

Na primeira fileira, o 5 da esquerda para a direita, é o professor Horácio Berlinck

Também é oportuno lembrar que existem desvantagens de escala. O uso de recursos especializados é um desses. A tecnologia tem permitido que se amplie o acesso a conteúdo de boa qualidade, algo muito bom. Mas o contato próximo com docentes de alto nível nos parece ainda essencial para uma formação integral e de excelência, principalmente na primeira etapa da formação em nível superior. A maior agilidade no processo decisório, informado por maior proximidade com a operação, pode ser outra vantagem das instituições mais focadas. Temos também conseguido manter uma comunidade coesa e engajada, o que acreditamos favorecer a capacidade de superar desafios. E foram muitos ao longo de 120 anos. Pelo menos duas pandemias e duas guerras de alcance global, para ficar somente nos eventos exógenos.

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Estamos vivendo um período muito adverso para as instituições de ensino superior. À pandemia soma-se o fraco desempenho da nossa economia nos últimos anos. Ninguém gostaria que esse fosse o contexto. Por outro lado, as adversidades também nos têm dado uma oportunidade de aprendizado e desenvolvimento. 

Temos procurado aproveitar e melhorar continuamente. Não sem erros, obviamente. Nos desafiadores dois últimos anos, preferimos agir rapidamente à paralisia, corrigindo e aperfeiçoando no caminho. Sempre colocando a aprendizagem e o crescimento pessoal dos estudantes no centro e respeitando os nossos princípios de integridade, colaboração e diálogo.

Inspiração para a Escola

Fomos muito beneficiados pela orientação dos nossos órgãos de governança, compostos por empresários, profissionais e educadores muito experientes. Deve ter sido assim quando a Escola foi criada. Fazer parte de redes nacionais, como o SEMESP, e internacionais também nos ajudou muito. 

Por ocasião do aniversário de 120 anos, celebramos as nossas conquistas. Nos orgulhamos da nossa história. E temos nos nossos fundadores a inspiração para continuar buscando a excelência na educação em negócios, intelectualmente rigorosa e em sintonia com as necessidades da sociedade.

Matéria publicada originalmente na edicação junho/julho da Revista Ensino Superior. Assine.

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