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Educação, luta e utopia: a caminhada para a transformação de Heliópolis em um bairro educador

Em entrevista à Educação, Braz Rodrigues fala sobre o seu papel no bairro antes e depois da aposentadoria de diretor escolar

Embora não exista uma chave para a esperança ou mesmo um botão, que quando pressionado dá acesso à ela, o diretor aposentado Braz Rodrigues pode conhecer um caminho para alcançá-la. De caminhos ele entende: há mais de uma década, o pedagogo percorre uma longa jornada para transformar Heliópolis, SP, em um bairro educador.


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Professor durante 19 anos em instituições públicas, municipais, estaduais e particulares, o educador recebeu incentivo da esposa para cursar pedagogia. À época, via a ideia como ‘absurda’, pois “quem fazia pedagogia queria sair da sala de aula para ser diretor, coordenador pedagógico ou educacional. Eu vibrava na sala de aula e, para mim, a vida era estar dentro dela”, conta. A rotina no setor mudou em 1995, após a decisão de prestar um concurso que o levou até a Emef (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Campos Salles, localizada na maior favela do estado de São Paulo, Heliópolis, e onde permaneceu por 22 anos como diretor.

Braz relata que o início conturbado na escola, quando presenciava brigas diárias de estudantes, lhe fez questionar a saída da sala de aula. “Quando ficamos no impasse, temos que ver se dentro da gente há algo que nos ajuda a enfrentar os problemas. Eu entendi que haviam duas ideias muito fortes em mim, conquistadas com outros professores e no trabalho com os pais: tudo passa pela educação e a escola deve ser um centro de liderança e referência na comunidade em que está inserida”, explica.

Diretor aposentado atua há mais de 20 anos com as lideranças de Heliópolis
Diretor aposentado atua há mais de 20 anos com as lideranças de Heliópolis

“Diante de todos os problemas, eu comecei a procurar parceiros em todos os segmentos da escola (alunos, professores, o pessoal que trabalha fora da sala de aula, os pais e lideranças comunitárias). Muita gente foi abraçando e foi-se formando um grupo cada vez maior”, diz. A formação do grupo possibilitou, em 2005, a votação do projeto A implantação de uma metodologia com base nos princípios da Escola da Ponte. Após a aprovação, somaram-se às ideias outros três princípios: autonomia, responsabilidade e solidariedade. “Esses são os princípios que possibilitaram o surgimento de um sistema ético, que hoje é vivido por milhares de pessoas, dentro da escola e, principalmente, fora dela”, afirma.

Mas afinal, qual a relação que o profissional faz entre o sentimento de esperança e o papel de diretor? Em entrevista exclusiva à Plataforma Educação, Braz responde a essa e outras perguntas sobre sua atuação no bairro periférico. Confira.

O que mudou em sua atuação após a aposentadoria?

Depois que eu saí da escola, fiquei mais livre para participar, inclusive, das atividades da comunidade. Hoje eu sou vice-presidente da UNAS (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região), a principal associação de moradores que tem lá. Participamos de reuniões e trabalhamos juntos para tornar Heliópolis um bairro educador. Estamos buscando a justiça. Então, na realidade, meu trabalho é mais tranquilo porque não tenho a questão do horário, mas eu continuo com o mesmo ideal e com a mesma luta de quando eu era diretor da escola.


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O que é um bairro educador?

No bairro educador tenta-se articular todos os setores, todas as secretarias e há uma consciência comunitária que exige que o poder público faça aquilo que ele tem que fazer. As pessoas passam a ter uma demanda e a demanda principal é o atendimento aos direitos humanos. Os alunos não aprendem apenas na escola, mas aprendem na associação dos moradores, nas igrejas. Todo mundo tem que passar pela educação, ela é a chave de tudo.

No bairro educador temos que desenvolver a ideia de que a gente aprende em todo lugar, com todos e para sempre. Porque isso é muito bonito, esse ‘para sempre’. É a educação que ajuda a vida a se desenvolver, deslanchar. A educação leva as pessoas a ter esperança, a não se submeter a nenhuma situação e dizer ‘é assim mesmo’. No bairro educador, as pessoas começam a ter uma outra visão sobre educação e começam a enxergá-la como prioridade.

Braz derrubando os muros da escola
Braz derrubando os muros da escola

Heliópolis já pode ser considerado um bairro educador?

Ele caminha para ser. Percebemos milhares de pessoas já envolvidas, sabendo que o caminho é a educação. Mas ainda acontecem muitas situações desagradáveis. Por exemplo, o poder público recolhe lixo três vezes por semana. Ainda se encontra muito lixo nas ruas, em frente às escolas. Enquanto houver lixo na rua infernizando a vida do outro, Heliópolis não é um bairro educador.

Nós vamos sempre lutar e um bairro educador vai estar sempre na frente. O bairro educador é mais como uma utopia que permite esse caminhar para ele. Mas você nunca chega e fala ‘agora já é’.

Quando eu era diretor, no começo do ano haviam os dias de planejamento e um dia escolhido para visitarmos a comunidade. Uma vez estávamos em barracos que ficavam situados em cima do esgoto. Uma menina viu sua professora e saiu animada do barraco, catou sua mão e a puxou. Fui atrás e parei na porta, onde era possível ver a água que passava embaixo do assoalho de madeira. Eu observava que, enquanto elas conversavam e, entusiasmada, a menina lhe contava alguma coisa, saiam lágrimas dos olhos da professora. Quando chegamos na escola, para uma roda em que os educadores falavam o que mais os marcou, essa educadora falou: “eu dou aula aqui há 19 anos e nunca imaginei que uma aluna minha morasse naquelas condições”.

Esse é o acesso ao aluno real e concreto. É o aluno que mora no barraco, que passa necessidade, é o aluno que tem o seu conhecimento e os seus valores. Para eliminá-los, se for preciso, tem que ser feito com muito respeito. Quando todas as escolas receberem o aluno com a sua vida do jeito que ela é, mesmo que para modificá-lo, ela já tem uma característica do bairro educador. Enquanto não se tiver, estaremos caminhando para isso.

Qual o papel de diretor escolar e quais são as suas prioridades?

O principal papel do diretor escolar é de articulador. É trazer as pessoas juntas. O diretor tem que manter a esperança do grupo. Mas tem momentos em que o diretor não pode manter nem mesmo a esperança dele. Ele tem que ser capaz de fazer com que um ou outro aluno, professor, pai ou liderança traga esperança para ele naquele momento em que a perdeu. Em outras palavras: apesar da principal tarefa do diretor ser manter a esperança do grupo, ninguém é líder a todo momento.

A liderança migra. Tem momento em que, na escola, o líder é o diretor, tem momento em que é o professor e tem momento em que é o aluno. A liderança é situacional. Então o líder de um grupo é aquele que mantém a esperança do grupo e nem sempre é o diretor.

O aluno tem algum papel na transformação do bairro educador? Se sim, qual é esse papel?

O aluno é a base. Para todas as ideias que nasceram na Escola Campos Salles, os primeiros que eu consultava eram os alunos. E depois passava nas salas de aula falando a respeito.


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Quais os maiores desafios na transformação de um bairro educador?

O maior desafio entre todos é a política partidária, políticos dividindo as pessoas da comunidade. A gente percebe muitas associações que fazem acordo político pensando apenas em interesses próprios e isso dificulta a construção do bairro educador. É horrível quando as pessoas fazem o uso da política partidária para um interesse particular. Em um bairro educador, a comunidade deve ter demandas comuns e, apesar das suas divisões, na luta conjunta por essas demandas comuns a gente tem que estar.

O que te inspira e o que te motiva a continuar nesse caminho?

O primeiro curso que fiz foi de filosofia. E eu tinha um professor que começou a levar textos do Paulo Freire, da Pedagogia do Oprimido, quando nem havia saído do livro ainda. Ali eu comecei a me interessar por educação. A educação é transformadora, ela é viva. Hoje o que me aluna é saber que é possível transformar a sociedade pela educação. É possível, por meio da educação, uma transformação social que leva em conta o ser humano. O que me dá mais força hoje é saber que a gente aprende sempre e que a gente não pode entregar os pontos e não se pode ficar imerso em nenhuma situação. Aquilo que é bom passa, aquilo que é ruim também. Então, vamos pensar sempre no povo. Esse contato com gente é uma coisa que me agrada muito.


Evento gratuito

Braz Rodrigues participará do painel Professor escolar transformador: criatividade para superar desafios, no Grande Encontro da Educação, evento híbrido e gratuito. Ele dividirá mesa com Andrea Andreucci, diretora-geral do Colégio Oswald de Andrade e Filomena Siqueira e Silva, doutora em administração pública e governo. A participação deles será dia 16 de agosto.

Promovido pela Plataforma Ensino Superior e Plataforma Educação, o evento será híbrido nos dias 16 e 17 de agosto e somente online nos dias 18 e 19.

Onde: Inteli (Instituto de Tecnologia e Liderança), localizado no campus Cidade Universitária da USP.

Inscrições gratuitas: https://grandeencontrodaeducacao.com.br/.

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