Novos horizontes, novos projetos para inovar na educação

Em dez anos de missões técnicas, grupo de gestores educacionais que foi a mais destinos construiu uma rede informal; instituições estão à frente de concorrentes no processo de inovação

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A curiosidade é uma chave indispensável para o conhecimento. Seus caminhos e motivações podem levar a muitos lugares, de formas diferentes. Como nos alerta o escritor argentino Alberto Manguel em Uma história natural da curiosidade, a obra-prima de Dante Alighieri, A divina comédia, pode ser lida como uma grande busca “a partir da curiosidade de um homem”. Quando é perigosa, relembra Manguel, essa curiosidade é vanitas, vaidade que pode nos fazer crer que estamos perto do céu; quando é umiltá, humildade, ela nos aproxima da verdade como amantes do conhecimento não arrogantes.

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Ao longo dos últimos dez anos, desde que começaram a ser realizadas, as missões técnicas internacionais do Semesp estão palmilhando um caminho cada vez mais próximo a esse desejo de conhecer algo que descortine um mundo novo à frente, para o qual é essencial estar aberto. E sempre com uma humildade quase socrática ante o que se encontrará, até porque no mundo de hoje saber para onde aponta a bússola já é uma grande conquista.

É o que se pode deduzir dos depoimentos de alguns dos gestores que com mais frequência têm participado das missões para diferentes destinos, da realidade próxima do Chile à distante Coreia do Sul, da tradicional Inglaterra à pouco ortodoxa Holanda.

Concebidas como forma de proporcionar aos gestores contato com escolas inovadoras, as missões, num primeiro momento, talvez tenham despertado um pouco da vaidade do contato com o que há de mais avançado. Com o tempo, foi se sedimentando uma cultura de atualização institucional e de partilha de novas experiências com as equipes das instituições e entre aqueles que têm viajado. Os laços se fortaleceram e eles hoje compõem uma rede informal de troca de impressões e consultas sobre ideias a serem implementadas.

Para João Otávio Bastos Junqueira, reitor do Centro Universitário Fundação de Ensino Octávio Bastos (Unifeob), de São João da Boa Vista, uma das grandes vantagens das missões é o networking com os participantes. Quanto mais diversificado o grupo, com perfis institucionais próximos ou distantes, mais rica é a experiência. “Em comum, todos têm uma inconformidade com o que estamos fazendo, uma busca incessante por melhoria, por inovação”, resume.

Para Vanilson do Nascimento, diretor da Faculdade Vale do Gorutuba (Favag), no norte de Minas, as viagens constituem um meio de se aproximar de instituições de centros maiores, “mais atentas às mudanças que ocorrem no mundo”. Seu interesse inicial, depois alargado, eram as metodologias ativas.

novos projetos para inovar na educação

Preocupação estética: os ambientes da Favag foram redesenhados depois do contato com espaços de aprendizagem mais modernos e despojados (foto: divulgação)

Já para Beatriz Eckert-Hoff, reitora do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), que integra o grupo Cruzeiro do Sul Educacional com outras nove instituições, as missões foram uma oportunidade de conhecer universidades de outros países com os olhos da gestão, já que seu conhecimento anterior era como pesquisadora. “Fiquei instigada a participar, a fazer uma imersão em países que têm a educação como mola propulsora.”

De modo geral, os reflexos das viagens têm sido materializados em mudanças relativas à infraestrutura física das instituições, à introdução de metodologias ativas e a uma visão pedagógica mais aberta, além de novos padrões de gestão, tendendo a processos mais horizontais e compartilhados. Outros efeitos visíveis têm a ver com o reforço de valores tais como o papel central do professor, com sua concreta valorização, a reafirmação de propósitos institucionais e de tendências como a educação a distância e a internacionalização.

Olhar capturado

Como o primeiro contato com as instituições nas visitas vem sempre através do olhar, os novos arranjos espaciais e de infraestrutura costumam causar o impacto inicial. Muitos gestores apontam esse aspecto como o mais interessante à primeira vista. Basicamente, são espaços mais despojados, menos circunscritos à organização tradicional das salas de aula, com cadeiras ou carteiras enfileiradas. Como trabalhos por projetos, feitos em grupo, são cada vez mais comuns, é natural que as salas também ganhem nova dinâmica.

Há exemplos que vão um pouco além da sala de aula, captando inclusive potenciais simbólicos. Nascimento, da Favag, conta que a visão da Biblioteca da Sorbonne inspirou um novo espaço de estudo coletivo. Junqueira, da Unifeob, vai mais além: ressalta a importância da funcionalidade em harmonia com a estética.

“As coisas na educação em geral são muito quadradinhas. Percorrendo os diversos países, vimos a importância da parte estética. Estar num lugar bem cuidado, bonito, faz diferença”, diz ele. Para o reitor da Unifeob, isso não tem a ver com luxo, mas com um espírito de pertencimento, de todos se sentirem responsáveis e zelarem pelo espaço. “É como nas ruas, a gente acha que não pertence a nós, que alguém vai cuidar.” Por isso, está abrindo o campus para a comunidade, evitando “emparedar” a instituição.

Outro caminho das inovações de infraestrutura está nos Fab Labs, os laboratórios com recursos como impressoras 3D. Depois das viagens a Dinamarca, Finlândia e Austrália, a Favag criou seus espaços de inovação. O Fablab foi aberto em agosto e passa por um processo de capacitação de professores, alunos e funcionários. Será a base de uma incubadora de startups. “Criamos também salas de aula flexíveis, modelo que não encontrei em nenhum lugar do Brasil”, diz Vanilson Nascimento.

Outra instituição que tem colhido os benefícios de conceber novos espaços é a UDF. Em 2016, implantou a sala Conecta UDF, aberta da manhã à noite, com ambiente informal e recursos para os alunos, como espaço para gravar vídeo. Está em conexão com o escritório de extensão e responsabilidade social do centro universitário e resultou em acordo com o Sebrae local, que destinou R$ 180 mil para investir em empreendimentos propostos pelos alunos. O modelo da sala está sendo adotado por outras instituições do grupo Cruzeiro do Sul.

Mas, segundo a reitora da UDF, um dos aspectos mais marcantes das missões foi ver, do ponto de vista da gestão, o impacto de um planejamento bem feito. Beatriz Eckert-Hoff conta que, além da proximidade entre a indústria local e a Escola Técnica de Munique, que resulta num currículo bastante atual e de ponta, viu que o fato de um líder saber engajar a comunidade acadêmica com foco em um propósito faz toda a diferença.

“O segredo da boa capacidade de planejamento é ter clareza sobre o que você quer no curto, no médio e no longo prazo, quais diferenciais quer criar.” A partir daí, fica mais fácil envolver todos os atores também para acompanhar, monitorar resultados e, se necessário, replanejar os objetivos. Isso resultou num plano muito claro para a sua instituição e, em conjunto com outras ações, fez com que a UDF saltasse de 5,6 mil alunos para 15 mil em cinco anos.

projetos para inovar na educação

Conecta UDF: sala criada no Centro Universitário UDF tem ambiente informal e recursos para os alunos desenvolverem projetos empreendedores (foto: divulgação)

O desafio da implementação

Como é comum ouvirmos no campo da educação, boas ideias e projetos passam por um teste crucial na hora de serem implementados. Nessa hora, podem mostrar que têm inconsistências, ou que a instituição tem problemas de outra ordem e não consegue colocá-las em prática. Por isso, é preciso convicção e muito diálogo para fazer as ideias vingarem.

Adriano Novaes, diretor acadêmico da Faculdade Esamc de Uberlândia, teve a percepção da importância desse processo. Um dos primeiros associados do Semesp de fora do Estado de São Paulo, logo interessou-se pelas missões, tendo ido a quase todas. De início, encantou-se com as instalações, mas logo viu que a adoção de metodologias ativas é que poderia significar um diferencial real.

As visitas à Universidade de Toronto, no Canadá, e a Harvard e MIT, nos Estados Unidos, o deixaram animado. Mas Novaes foi previdente. Começou a testar nas próprias aulas a reação dos alunos, pois a diferença do perfil discente poderia ter influências. Como deu certo, chamou primeiro um grupo de professores mais abertos a novidades, assegurou-se de que as coisas estavam andando bem e só depois transformou o processo em institucional.

Há cerca de cinco anos, a Esamc começou a fazer um treinamento a cada semestre com um convidado de fora, com foco em metodologias. Há três anos, instituiu outro, de três dias, para os professores que estão ingressando na faculdade. O Problem Based Learning (PBL) passou a ser a base metodológica da faculdade.

“A introdução desse material foi o primeiro pilar em que nos apoiamos. O segundo foi a mudança da cultura docente. E o terceiro é o Learning Analytics, a criação de indicadores”, resume Novaes. Nesse último quesito, a instituição está investindo em indicadores próprios para analisar alguns eixos de ensino. Por exemplo, avalia os conhecimentos de marketing de todos os cursos, para ver onde há buracos e como balancear essa oferta.

Todo esse processo mudou o perfil docente. Se antes os professores com doutorado eram privilegiados, agora a abertura a novas metodologias passou a contar mais. “Houve um movimento interessante. Professores antes bem avaliados foram decaindo por causa da comparação com aqueles que começaram a usar as metodologias ativas e melhoraram”, conta Novaes. Tudo isso trouxe vantagem competitiva à instituição. Só agora as outras faculdades da cidade começam a correr atrás de metodologias ativas.

Outra maneira de estabelecer o processo é implantar uma área exclusiva para seu desenvolvimento. Foi a opção do Centro Universitário Eniac, de Guarulhos (SP). O gestor da instituição, Fernando Domingues, empolgou-se com a ida a Harvard, em 2014. Em 2016, houve a contratação de Simone Viana para cuidar exclusivamente da inovação pedagógica. Após a visita ao Chile – e, em especial, à Universidade do Chile, em 2016 – concretizou-se a ideia de um Núcleo de Inovação Pedagógica (NIP).

Ela conta que se encantou com as experiências relatadas pelo diretor do Centro de En-
sino e Aprendizagem da Universidade, Oscar Jerez Yañez (que já palestrou no Brasil a con-
vite do Semesp). A exemplo do centro chileno, formado por jovens professores, Simone ado-
tou a estratégia de trabalhar com o público com esse perfil. E começou a inovação pelo colé-
gio, que tem se mostrado mais receptivo às mudanças.

“Contratamos jovens recém-formados, muitos que faziam licenciaturas. Hoje, são mais de
20 jovens professores, assistentes de aprendizagem. Os jovens falam a linguagem dos outros jovens e são receptivos à inovação”, diz Simone, ressaltando o fato de que é natural para eles o uso das tecnologias digitais. A escola está ensinando por projetos e há uma prateleira para os alunos escolherem. Quando acontece de não haver nada que os interesse, os estudantes fazem uma mentoria com os assistentes.

No caso dos professores mais antigos, a Eniac recorreu à parceria com o RH, tornando a participação parte da política de carreira. O estímulo fez com que a adesão aumentasse de 30/40% para 60/70%.

A Eniac também está investindo no ensino técnico e no incremento de parcerias com o setor privado. Por meio do braço social da instituição, foi criado o Centro de Inovação Tecnológica de Guarulhos, que está trabalhando para cadastrar empresas. Tudo isso é resultado da visita ao Colégio Técnico de Munique e ao conhecimento do sistema Dual alemão, referência em ensino técnico em todo o mundo.

No ensino superior, as inovações acontecem em três cursos: pedagogia, jogos digitais e arquitetura. O desafio é fazê-los trabalhar em projetos conjuntos, o que já começa a acontecer. Além disso, os novos cursos superiores da instituição recebem assessoria do NIP para que seu currículo já preveja metodologias inovadoras.

Ética do Oriente

Uma das viagens que mais impressão causou aos gestores, talvez pelo confronto de culturas, tenha sido a visita à Coreia do Sul, em que foram a universidades, colégio e a Songdo , um dos modelos mundiais de cidade inteligente, pelo uso de tecnologia. E um ponto nevrálgico foi a questão do propósito, como enfatizado por José Wilson dos Santos, reitor da Rede de Ensino Ages, instituição regional situada no Polígono da Seca, entre Bahia (sua sede), Sergipe, Alagoas e Pernambuco.

Santos diz que mantém o compromisso da instituição com a sociedade local, por isso não seguiu a tônica de muitas universidades que acabaram com seus cursos de licenciatura. A Ages ainda os têm, inclusive em matemática, física e química, disciplinas com os maiores déficits docentes na educação básica.

E os cursos têm diálogo com o colégio do grupo, reformulado com base no que Santos viu na Coreia do Sul. E não foram só as salas de aula que mudaram, com estrutura física adaptada às necessidades das metodologias ativas, o que também ocorreu no ensino superior.

Do ponto de vista filosófico, o projeto foi reformulado com base no que o gestor viu na Coreia, pensando no egresso e na sua ação em retribuição ao que lhe cerca. “Na sua relação com a família, com o espaço, com o país, com a resolução dos problemas. Comprometimento, trabalho, responsabilidade e ética, esses são os quatro pilares que sustentam o país. Adotamos esses pilares e eles nos fortalecem enquanto instituição”, diz Santos.

Da Austrália, ele relata ter assimilado um conceito que o ajuda na gestão do tempo: foco total no que está fazendo, para fazer rápido e bem feito. “Assim sobra tempo ao final do dia e da semana para aproveitar a vida.” Uma sabedoria também ancorada no seu lugar de origem.

Valorização docente

Se todas essas inovações estão trazendo resultados concretos para as instituições, há um aspecto que não é novo, mas que também serve de exemplo para os gestores: o respeito social com que os professores são tratados.

Tanto Simone, da Eniac, como Adriano Novaes, da Esamc, frisam o lugar de destaque da docência em países como Chile, Finlândia e Dinamarca, onde os professores, além de alta capacitação – ou talvez em função dela – têm grande autonomia para o trabalho em sala de aula, são muito comprometidos e objeto de grande confiança das instituições e da população em geral.

“Ser professor é uma profissão competitiva nesses países, ou seja, há procura grande pela carreira. O que vimos foram professores engajados, inovadores e que trabalham em equipe. Presenciamos várias salas com grupos de professores conversando sobre algum projeto conjunto e até testando novas práticas em sala de aula”, exemplifica Novaes com relação aos países escandinavos.

A visão não difere do relato da reitora Beatriz Eckert-Hoff, do UDF, sobre o que viu na Alemanha: “O grande agente da mudança na educação é o professor. É a autoridade, tem de passar por várias provas de competências pedagógicas. É um grande líder que tem a confiança da sociedade”.

Finlândia e Coreia do Sul, por exemplo, começaram nos anos 60 do século passado a proceder a uma grande transformação em seus sistemas educacionais. Já faz alguns anos que vêm colhendo os frutos. Não houve caminho curto, não houve mágica, não faltaram professores. Com maior qualificação, é mais fácil inovar, estar à frente.

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